O setor artístico amanheceu consternado nesta terça-feira (19) com a notícia da morte de Laura Cardoso, 98 anos, na noite anterior, em São Paulo. Recordista de participações em novelas, a veterana ganhou uma despedida emocionada da atriz Ana Rosa, que divide com ela o título de maior número de folhetins exibidos na televisão brasileira. “Ela fez questão de voltar para me abraçar”, recordou Ana, descrevendo o último encontro entre as duas nos Estúdios Globo.
Embora impedida pela distância de acompanhar o velório, Ana Rosa enviou um recado carinhoso à família e aos fãs, reforçando a fé de que “a vida continua” e classificando Laura como “mais uma estrela que passa a brilhar no firmamento”. O corpo da atriz é velado nesta manhã, das 8h às 14h, no bairro da Bela Vista, região central da capital paulista.
O abraço que virou despedida
As duas artistas não contracenavam juntas desde os tempos da extinta TV Tupi, mas cruzaram-se ocasionalmente nos corredores da Globo. No relato de Ana Rosa, ela seguia num carrinho elétrico em direção ao estúdio quando identificou de longe a amiga, que saía de uma gravação: “Gritei ‘Laureta’, meu apelido carinhoso para ela, e recebemos um ‘beijos’ de volta”. Minutos depois, Laura decidiu retornar ao local das filmagens para surpreender a colega com um aperto demorado. “Foi o último abraço que tive dela”, contou Ana, visivelmente tocada.
Amizade de décadas
A parceria começou no início da carreira de ambas, ainda nos anos 1950, quando o formato das telenovelas engatinhava. Entre televisão, rádio e teatro, desenvolveram cumplicidade que resistiu a mudanças de emissora e de cidade — Ana Rosa radicou-se no Rio de Janeiro, enquanto Laura permaneceu em São Paulo durante boa parte da vida. O reencontro casual no Projac, hoje chamado Estúdios Globo, consolidou a memória que agora serve de consolo para Ana: “Guardo aquele momento como presente de despedida”.
Falecimento em casa e cerimônia restrita
Segundo informações da filha Fátima Cardoso, a atriz sentiu-se mal por volta das 23h20 de segunda-feira (18) e morreu em casa, no bairro do Sumaré, Zona Oeste paulistana, de causas naturais. A cerimônia desta terça ocorre em caráter íntimo, mas fãs devem se reunir na porta do local para prestar homenagens. Nas redes sociais, artistas de várias gerações já publicaram mensagens destacando a generosidade de Laura nos bastidores e sua disposição de fazer “pontes” com novos talentos.
Trajetória de uma pioneira da dramaturgia
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, em 13 de setembro de 1927, filha de imigrantes portugueses, ela iniciou-se aos 15 anos nas radionovelas da Rádio Cosmos. Quando a televisão deu seus primeiros passos no Brasil, Laura já dominava o ofício da voz e tornou-se rosto familiar da recém-criada TV Tupi. A partir daí, firmou-se como pilar de praticamente todas as emissoras abertas do país.
Primeiros passos na TV Tupi
- Um Lugar ao Sol (1959) – melodrama que apresentou sua versatilidade ao grande público.
- Ídolo de Pano (1975) – última novela dela na Tupi antes da falência da emissora.
Chegada à Globo e consolidação nacional
Em 1981, Laura Cardoso ingressou na TV Globo com “Brilhante”, interpretando Alda Sampaio, mãe da protagonista vivida por Vera Fischer. O sucesso abriu portas para uma sequência de personagens marcantes:
- Pão Pão, Beijo Beijo (1983) – primeira parceria intensa com Tony Ramos.
- Fera Radical (1988) – antagonista de Malu Mader, reforçando sua força dramática.
- Felicidade (1991) – consagrada como Dona Helena, novamente ao lado de Tony Ramos.
- Salsa e Merengue (1996) – a vigarista Ruth exibiu sua veia cômica.
Rainha dos remakes nos anos 1990
Quando a Globo decidiu revisitar sucessos da década de 1970, Laura tornou-se nome certo no elenco:

Imagem: Internet
- Mulheres de Areia (1993) – papel de Isaura, mãe da dupla de gêmeas vividas por Glória Pires.
- A Viagem (1994) – Tia Guiomar, cúmplice de Christiane Torloni.
- Irmãos Coragem (1995) – Dona Mariinha, símbolo de integridade na pequena Coroado.
Virada para o novo milênio
Em 1995, “Explode Coração” marcou a primeira novela gravada no então recém-inaugurado Projac. Laura viveu Soraya, matriarca cigana que repudiava a vida sedentária. A personagem abriu caminho para outras matriarcas emblemáticas:
- Chocolate com Pimenta (2003) – a divertida avó Carmem.
- Caminho das Índias (2009) – Laksmi Ananda, mãe rígida do comerciante Bahuan, interpretado por Tony Ramos.
- Gabriela (2012) – Doroteia, pilar moralista de Ilhéus.
Últimos trabalhos
A vitalidade de Laura manteve-se até a nona década de vida. Em “O Outro Lado do Paraíso” (2017), deu vida à dona de bordel Caetana, que protagonizou uma cena célebre ao “subir aos céus” durante o próprio velório, ao som de Pabllo Vittar. Dois anos depois, participou de “A Dona do Pedaço” (2019) como Matilde, papel que comoveu o público ao retratar a fragilidade da memória na terceira idade. Esse foi seu último registro na teledramaturgia.
Parceira inseparável das câmeras
Ao longo de mais de seis décadas, Laura Cardoso construiu um currículo com mais de 60 novelas, além de filmes e montagens teatrais. Versátil, podia alternar entre vilãs frias e avós afetuosas, sempre agregando camadas humanas aos tipos que interpretava. Ela foi homenageada de forma permanente na chamada Calçada da Fama dos Estúdios Globo, onde seu nome está gravado ao lado de outros ícones da TV.
A palavra final de Ana Rosa
A colega e amiga concluiu sua homenagem com um apelo espiritual: “Peço a Deus que a receba de braços abertos”. Ana Rosa também se dirigiu às filhas Fernanda e Fátima, parentes e admiradores, reforçando que a dor da perda estará acompanhada da certeza de um legado indestrutível. “Tchau, Laura, continue brilhando”, completou.
Com a partida de Laura Cardoso, o entretenimento brasileiro perde uma figura que ocupava lugar de destaque em sua história e, para muitos colegas como Ana Rosa, um eixo afetivo em torno do qual se construíram memórias de trabalho, amizade e arte.
