Feminicídio em Votorantim: ex-companheiro confessa decapitação de haitiana e ajuda polícia a localizar restos mortais

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    O haitiano Charles Anglade, de 36 anos, entregou aos investigadores o ponto exato onde havia escondido a cabeça e as mãos de Esther Estinor, 39, morta e esquartejada em Votorantim (SP). A revelação ocorreu poucos dias após a extradição do suspeito, capturado no Suriname com auxílio da Interpol. Em pleno Dia Internacional da Mulher, 8 de março, o homem não aceitou o fim do relacionamento, matou a ex-companheira e descartou parte do corpo em área de mata.

    O caso mobilizou policiais civis de Sorocaba e chocou pela brutalidade. O delegado Camilo Veiga, da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), classificou o episódio como o mais cruel já visto na carreira. Agora, Anglade responde por feminicídio qualificado, destruição e ocultação de cadáver, enquanto os três filhos da vítima – de 19, 15 e 3 anos – permanecem sob os cuidados de uma tia.

    Captura no exterior e confissão em território paulista

    Fuga de cinco meses terminou no Suriname

    Logo depois do crime, Anglade deixou o Brasil rumo ao Suriname. A polícia acredita que o destino final pretendido era o Haiti, seu país natal, e que ele trabalhava informalmente para levantar dinheiro para a travessia. Um alerta internacional foi emitido, e a Interpol o localizou no início de agosto. A extradição ocorreu de forma imediata, e ele foi transferido para o Centro de Detenção Provisória de Guarulhos (SP).

    Reconstrução dos passos do assassino

    Já em solo brasileiro, o réu aceitou colaborar. No dia 7 de agosto, escoltado por investigadores e peritos, levou a equipe a uma mata densa próxima ao limite urbano de Votorantim. Ali, enterrados de maneira superficial, estavam a cabeça e as mãos de Esther, completando a localização do corpo iniciado em março, quando apenas o tronco mutilado havia sido encontrado nos fundos da residência da vítima.

    Cronologia do feminicídio

    • 8 de março – Desaparecimento: Esther sai de casa, no Jardim Tatiana, sem revelar o destino aos filhos. É a última vez que é vista viva.
    • 9 de março – Registro policial: Preocupada, a irmã procura a delegacia e comunica o sumiço.
    • 11 de março – Encontro do tronco: Moradores percebem um forte odor e avisam a polícia; restos do tronco aparecem em terreno vazio atrás da residência da vítima.
    • 18 de março – Sepultamento: Mesmo sem as partes decepadas, a família realiza o enterro no Cemitério Municipal de Votorantim.
    • 1º de agosto – Prisão no Suriname: Após cinco meses foragido, Anglade é detido pela Interpol e começa o processo de extradição.
    • 7 de agosto – Localização da cabeça e mãos: Já de volta ao Brasil, o autor do crime mostra à Deic onde ocultou as partes restantes do corpo.

    Vítima: trajetória interrompida e impacto familiar

    Esther Estinor chegou ao Brasil há cinco anos para trabalhar em restaurantes da região de Sorocaba. Amigos descrevem uma mulher dedicada aos filhos e empenhada em construir uma vida longe da instabilidade do Haiti. O relacionamento com Anglade, também haitiano, era conturbado: vizinhos relatam discussões frequentes, motivadas por ciúmes.

    Após o término, ele teria alugado um imóvel a poucos metros da casa de Esther para vigiá-la. A insistência do ex-companheiro gerou medo, mas não houve registro de medida protetiva. A morte violenta deixou órfãos três filhos, agora assistidos por parentes e por equipes de assistência social do município.

    O que a investigação já apontou

    Premeditação e traços de psicopatia

    Segundo a Deic, Anglade planejou o crime. Testemunhas afirmam que ele adquiriu ferramentas de corte semanas antes do assassinato. O delegado responsável observa indícios de frieza incomum no depoimento: “Ele descreveu cada etapa sem demonstrar arrependimento”, afirmou.

    Provas materiais

    Além da confissão, a polícia reuniu laudos periciais que indicam que o tronco foi desmembrado com instrumento afiado, possivelmente um facão. Impressões digitais e vestígios biológicos coletados nos locais em que o corpo foi depositado reforçam a autoria.

    Desdobramentos judiciais

    O inquérito está na fase final e deve ser remetido ao Ministério Público ainda em agosto. Se denunciado e condenado, Anglade pode pegar mais de 30 anos de prisão pelo conjunto dos crimes. A defesa afirmou que aguardará o processo para solicitar exames psiquiátricos, argumentando possível inimputabilidade, mas a Polícia Civil considera a estratégia pouco provável de prosperar, dado o relato detalhado do suspeito sobre cada passo do homicídio.

    Violência de gênero em números

    O assassinato de Esther integra estatísticas alarmantes. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é vítima de feminicídio a cada sete horas no país. Em Sorocaba e Votorantim, o número de medidas protetivas concedidas subiu 18% no último ano, evidenciando o aumento dos registros de ameaças e agressões.

    Especialistas apontam que a migração pode agravar a vulnerabilidade de mulheres estrangeiras. Muitas desconhecem leis de proteção ou têm receio de procurar ajuda por causa da barreira do idioma e da instabilidade documental. A Delegacia de Defesa da Mulher local reforça que denúncias podem ser feitas anonimamente pelo telefone 180, funcionando 24 horas, inclusive em outros idiomas.

    Rede de apoio e campanhas de prevenção

    Após o crime, organizações de imigrantes em Sorocaba iniciaram uma campanha de arrecadação para sustentar as crianças de Esther. Grupos religiosos também oferecem suporte emocional à família. A prefeitura informou que a Secretaria de Igualdade e Assistência Social acompanha o caso, garantindo auxílio-alimentação, atendimento psicológico e inclusão das crianças em programas de proteção.

    Movimentos feministas preparam atos em memória da haitiana e cobram políticas de prevenção. Entre as pautas estão a ampliação de casas-abrigo, equipes de tradução em delegacias e capacitação de agentes públicos para lidar com vítimas estrangeiras.

    Perguntas sem resposta e próximos passos

    Ainda resta esclarecer se alguém auxiliou Anglade na fuga e se houve omissão de vizinhos diante das brigas anteriores. A Polícia Civil analisa dados de celular e câmeras da região para identificar cúmplices ou testemunhas que possam ter presenciado a remoção dos restos mortais.

    Enquanto isso, o corpo de Esther, agora completo, deve passar por novo procedimento pericial para atualização da causa da morte. A família cogita trasladar os restos mortais para o Haiti, mas aguarda definições judiciais. Nas ruas de Votorantim, a repercussão do feminicídio acende o debate sobre violência de gênero e a necessidade de respostas rápidas quando sinais de ameaça surgem.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.