Corpo de Laura Cardoso será velado nesta terça-feira em cerimônia restrita na Bela Vista

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    A atriz Laura Cardoso, decana da teledramaturgia brasileira, morreu na noite de segunda-feira (17) aos 98 anos, em sua residência no bairro do Sumaré, Zona Oeste de São Paulo. O corpo será velado nesta terça (18), das 8h às 14h, no Funeral Home da Bela Vista, região central da capital paulista, em cerimônia inicialmente reservada a familiares e amigos próximos.

    Considerada uma das artistas que moldaram a linguagem das novelas no país, Laura deixa um legado de mais de seis décadas dedicadas ao palco, ao cinema e, sobretudo, à televisão, onde protagonizou alguns dos tipos mais lembrados pelo público.

    Última despedida no coração de São Paulo

    O velório ocorre em um dos espaços mais tradicionais para homenagens póstumas na capital. A família informou que o acesso deverá respeitar os protocolos internos da casa funerária e a capacidade do salão principal. O sepultamento, marcado logo após o término da cerimônia, ocorrerá em local não divulgado, a pedido dos parentes, que pedem compreensão e privacidade neste momento de luto.

    Durante a manhã, fãs começaram a se concentrar do lado de fora do Funeral Home levando flores, fotografias e reproduções de capas de revistas que estamparam a carreira da artista. Funcionários do local coordenam a entrada para evitar aglomerações no entorno da Rua São Carlos do Pinhal, onde o fluxo de veículos costuma ser intenso nos dias de semana.

    Mal-estar repentino em casa

    De acordo com a filha Fátima Cardoso, Laura sentiu-se mal por volta das 23h20. A família acionou imediatamente o serviço de emergência, mas a atriz não resistiu. “Mamãe partiu de forma serena, em casa, ladeada por quem a amava”, declarou Fátima em nota. A morte foi confirmada oficialmente nas redes sociais da artista; a conta exibiu uma foto em preto-e-branco com a legenda: “Nossa grande estrela se despediu. Obrigada por tudo, nossa amada Laura Cardoso”.

    Amigos próximos relatam que, apesar da idade avançada, a veterana mantinha rotina regular de leitura de roteiros, exercícios leves de voz e visitas ocasionais a estúdios, onde gostava de acompanhar gravações e oferecer conselhos a jovens atores.

    Quase oito décadas diante das câmeras

    Nascida Laurinda de Jesus Balleroni em 1927, no bairro da Bela Vista — o mesmo onde será velada —, ela começou no rádio aos 15 anos, lendo radionovelas ao vivo. Em 1952, aos 25, estreou na recém-inaugurada TV Tupi no folhetim “Tribunal do Coração”, quando ainda não existia videotape e as cenas eram transmitidas simultaneamente.

    Dos estúdios pioneiros à consolidação na Globo

    Após duas décadas na Tupi e passagens por Excelsior e Bandeirantes, Laura chegou à TV Globo em 1981, convidada pelo diretor Daniel Filho para o elenco de “Brilhante”. Dois anos depois foi contratada em definitivo e virou presença constante em produções do horário nobre, como “Pão Pão, Beijo Beijo” (1983) e “Vida Nova” (1988). Em 1993, interpretou Dona Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel na novela “Mulheres de Areia”, personagem que a aproximou de uma nova geração de telespectadores.

    Papel atrás de papel marcantes

    No ano seguinte, voltou a impactar o público como Dona Guiomar em “A Viagem”, parceria lembrada até hoje com Miguel Falabella, que a homenageou na madrugada de terça: “Laura era gigante, tinha um talento que não cabia em seu corpo pequeno”, escreveu o ator. Ela seguiria em ritmo acelerado, somando mais de 60 novelas registradas — um recorde nacional.

    Seu último trabalho na televisão foi em “A Dona do Pedaço”, exibida em 2019. Já no cinema, a despedida aconteceu em 2025, no longa “Dona Rosinha”, onde viveu a personagem-título em participação especial celebrada pelos críticos.

    Premiações e honrarias

    Reconhecida pela crítica e pelo público, Laura Cardoso acumulou cinco troféus da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), venceu o Prêmio Oscarito no Festival de Gramado pelo conjunto da obra e, em 2006, recebeu a Ordem do Mérito Cultural das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também foi homenageada em festivais de teatro pelo interior do país e teve seu nome batizando espaços cênicos, como a sala principal do Teatro Municipal de Tatuí.

    A amplitude de personagens interpretados — de matriarcas sertanejas a vilãs aristocráticas — é apontada por especialistas como a prova cabal de sua versatilidade. O crítico Sérgio Salomão, autor da biografia “A Senhora das Sete Faces”, define a atriz como “cúmplice do autor e porto seguro do diretor”, posto que soube migrar entre os diferentes métodos de trabalho que marcaram a evolução da dramaturgia televisiva.

    Homenagens se multiplicam

    Desde o anúncio do falecimento, produtores, roteiristas e colegas de cena inundaram as redes sociais com depoimentos emocionados. Fernanda Montenegro classificou a perda como “um silêncio difícil de suportar na arte brasileira”. Letícia Sabatella, que contracenou com Laura em “O Profeta” (2006), lembrou dos bastidores: “Ela ensinava sem impor, fazia da generosidade um método de atuação”.

    Nas sedes dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, e da Fundação Padre Anchieta, que mantém a TV Cultura em São Paulo, as bandeiras foram hasteadas a meio-mastro pela manhã. A Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) divulgou nota sublinhando que “cada nova leva de dramaturgos contava com a interpretação firme de Laura para ver seus textos ganharem mundo”.

    Fãs organizam, por meio de grupos em redes sociais, uma leitura coletiva de trechos de novelas marcantes com transmissão online, prevista para o próximo fim de semana. A iniciativa conta com apoio de ex-roteiristas da TV Tupi e pretende arrecadar alimentos para instituições ligadas a artistas idosos.

    Permanência viva na memória

    Ao longo de 74 anos de ofício, Laura Cardoso testemunhou a passagem do rádio à televisão digital e nunca se afastou dos palcos experimentais onde testava novos timbres de voz. A atriz costumava dizer em entrevistas que “cada papel era também uma forma de continuar viva em várias épocas”. Agora, com a confirmação de sua morte, críticos relembram a afirmação para sublinhar que sua obra permanecerá disponível em catálogos de streaming, cinematecas e salas de aula de artes cênicas — evidência de um talento que transcendeu fronteiras de formato e geração.

    Enquanto familiares, amigos e admiradores se reúnem para a despedida na Bela Vista, o resto do país revisita cenas, gravações raras e depoimentos que ajudam a dimensionar a relevância de Laura Cardoso na cultura brasileira. O adeus, portanto, ganha contornos de celebração a uma trajetória que atravessou quase a íntegra da história da televisão no Brasil.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.