Roraimense supera quatro reprovações e conquista vaga de diplomata no Itamaraty

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    Um grito contido no elevador anunciou a virada de chave na vida de Nínive Thaís Verde Sampaio Memória, 28 anos. A roraimense viu seu nome entre os 60 aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) — prova considerada uma das mais difíceis do serviço público brasileiro — e encerrou uma maratona de quatro reprovações, perdas pessoais e promessas futebolísticas cumpridas à risca. Em novembro, ela deve ser chamada para tomar posse como terceira-secretária do Ministério das Relações Exteriores, cargo com salário inicial de R$ 22.558,56.

    A jornada até a lista definitiva envolveu mudança de estado, rotina de oito horas diárias de estudo nas semanas decisivas, apoio psicológico e até um pacto com o Flamengo: estudar três horas e meia por dia durante cem dias caso o clube conquistasse Campeonato Brasileiro e Libertadores em 2026. O time cumpriu sua parte, e Nínive honrou a promessa que, segundo ela, manteve o foco até o resultado final.

    Do mapa astral à prova de espanhol: a trilha até a aprovação

    Nínive decidiu ser diplomata ainda menina. Aos 12 anos, um mapa astral baixado na internet apontou “personalidade diplomática” e acendeu a curiosidade que guiaria sua trajetória acadêmica. Criada em Boa Vista, estudou o ensino fundamental em escola pública e migrou depois para a rede privada. No vestibular, garantiu o primeiro lugar em Relações Internacionais na Universidade Federal de Roraima, mas preferiu cursar a mesma graduação na Universidade Federal de Uberlândia (MG) para viver longe da família e ficar mais perto de Brasília, centro das relações exteriores brasileiras.

    Formada em 2021, mudou-se para a capital federal com um plano: obter estabilidade financeira em outro concurso enquanto se preparava para o CACD. A estratégia não durou. A partir de maio de 2023, com apoio financeiro do pai, passou a dedicar-se exclusivamente à prova que reúne questões discursivas e objetivas em português, inglês, história, geografia, política internacional, economia, direito e uma terceira língua estrangeira. O primeiro avanço significativo veio em 2024, quando alcançou a segunda fase; o revés, contudo, veio no exame de espanhol em 2025, frustrando a tentativa naquela edição.

    Perdas e resiliência

    O ciclo de preparação coincidiu com momentos difíceis na vida pessoal. No fim de 2023, Nínive perdeu a melhor amiga; em fevereiro de 2024, uma tia que considerava irmã. Afastou-se dos livros por alguns meses e, ao retornar, incorporou acompanhamento psicológico para lidar com o luto e a pressão. “A convicção não foi inabalável”, reconhece, ressaltando a insegurança comum a quem persegue a carreira diplomática diante do alto nível dos concorrentes.

    Concurso concorrido e rotina extenuante

    Mais de 10 mil candidatos disputaram as 60 vagas oferecidas na edição de 2026 do CACD. O certame ocorreu em cinco dias consecutivos, exigindo domínio de temas que vão da redação em língua portuguesa a análises de conjuntura internacional. Nínive intensificou o ritmo às vésperas das provas: estudava oito horas por dia, alternando disciplinas para manter a mente alerta.

    Após a divulgação preliminar das notas, preferiu conter a euforia até a publicação da lista final em 24 de junho. Quando o nome apareceu entre os aprovados, a comemoração incluiu lágrimas, pulos no apartamento de Brasília e um tubo de confete guardado especialmente para a ocasião.

    Apoio familiar e psicológico

    A futura diplomata credita boa parte do êxito ao suporte recebido. O pai, servidor público, custeou os estudos enquanto ela se dedicava integralmente ao concurso. A mãe, advogada, e os irmãos acompanharam cada tentativa. O psicólogo ajudou a transformar frustrações em combustível. “Peguei meu sentimento negativo e usei para estudar”, relembra.

    Primeiros passos na carreira e planos internacionais

    Até a posse no Itamaraty, prevista para a primeira quinzena de novembro, Nínive iniciará em setembro um cargo no Ministério da Educação, para o qual já foi convocada. A experiência deverá durar apenas alguns meses, tempo suficiente para se ambientar ao funcionalismo federal antes de ingressar na diplomacia.

    Como terceira-secretária, título inicial da carreira, a roraimense pretende atuar em temas ambientais, área que considera estratégica para o Brasil, e sonha com um posto no México. “É o fim de um ciclo de dedicação e o início de outro, agora a serviço do país”, resume.

    Persistência como receita

    Sem fórmula mágica a oferecer, ela aponta a persistência como qualidade indispensável para quem mira a carreira diplomática. “O importante é realmente querer, ter foco, esforço e não desistir”, aconselha, lembrando que o concurso não exige formação específica — basta um diploma de curso superior reconhecido pelo MEC. Mesmo assim, acredita que a graduação em Relações Internacionais reforçou sua base teórica e ampliou a visão de mundo.

    Retrato de uma vocação

    A lembrança que guardará dos tempos de escola traduz a essência do caminho trilhado. Na primeira série, ao falhar em um resumo, uma professora permaneceu com ela no recreio para explicar como sintetizar um texto. A lição rendeu um prêmio na época e, muito depois, virou metáfora do que a diplomacia exigiria: capacidade de ouvir, aprender e transformar dificuldade em resultado.

    Agora, prestes a representar o Brasil em negociações internacionais, Nínive Memória leva consigo as horas de biblioteca, a promessa feita ao clube de coração, as perdas superadas e a certeza de que a infância em Roraima cabe, intacta, em cada passo dentro do Itamaraty.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.