O domingo marcou a largada oficial da corrida ao Planalto em 2026. Em lados opostos do mapa e do espectro político, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) abriram suas campanhas com discursos que antecipam o tom polarizado da disputa: o ex-presidente apostou em segurança pública e na própria trajetória sindical, enquanto o senador fluminense prometeu um “tesouraço” nas contas públicas e ataques diretos ao petista.
Em paralelo, outros presidenciáveis — Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) — também foram a campo, cada um tentando explorar nichos regionais e temáticos antes do início do horário eleitoral gratuito, marcado para 28 de agosto. O podcast “O Assunto” ouviu o jornalista Thomas Traumann para destrinchar as primeiras mensagens, acertos e deslizes de cada candidato.
Lula retorna a São Bernardo e coloca segurança no centro da agenda
No ABC paulista, berço de sua carreira sindical, Lula falou para um auditório lotado de dirigentes partidários, lideranças populares e velhos companheiros de fábrica. Usou o cenário histórico para reforçar a narrativa de origem humilde, exaltou a conquista de políticas sociais passadas e, num movimento visto como tentativa de dialogar com o eleitorado moderado, prometeu criar um Ministério da Segurança Pública dedicado exclusivamente ao combate ao crime organizado.
Mensagem de “competência contra o crime”
- Promessa de estruturar um órgão federal que integre forças policiais e inteligência;
- Compromisso de “não descansar até tirar facções das ruas”, segundo ele;
- Relembre de programas como o Pronatec e o Minha Casa Minha Vida para contrapor “discursos de cortes sociais”.
Traumann avalia que o petista “tentou blindar” um flanco tradicionalmente vulnerável — a segurança — que, em 2022, rendeu votos a Jair Bolsonaro. “Ao falar em ministério específico, Lula sinaliza ao eleitor urbano que não haverá vista grossa para a violência”, diz o comentarista.
Símbolos e alianças reforçados
O palco em São Bernardo exibiu bandeiras do PT, mas também a presença de figuras de centro que hoje integram a coligação. A aposta, segundo o analista, é repetir a fórmula de 2002: manter a base ideológica mobilizada sem afastar setores empresariais e a classe média.
Flávio Bolsonaro convoca apoiadores em Copacabana
Do outro lado da Via Dutra simbólica, o primeiro-filho de Jair Bolsonaro escolheu a orla de Copacabana para fazer seu ato. Cercado por faixas verdes e amarelas, prometeu um “tesouraço” — expressão que usou para designar cortes de gastos e redução da máquina pública. Defendeu o legado econômico do pai, criticou a reaproximação de Lula com partidos de centro-esquerda e chamou o petista de “caloteiro da esperança”.
Alinhamento ao bolsonarismo raiz
- Defesa de reformas administrativas “ainda mais duras” que as propostas em 2019;
- Citação a Jair Bolsonaro como “o verdadeiro símbolo anticorrupção”;
- Aceno à política externa: negociação “privilegiada” com os EUA em eventual governo.
Para Traumann, o senador sinalizou a tática central de sua campanha: “Ele não se descola do pai, mantém o discurso do antissistema e transfere qualquer desgaste do governo anterior para suposta sabotagem do Congresso e do Judiciário”. O analista, contudo, vê risco na comparação: “Quanto mais ele se apresenta como herdeiro direto, mais herda também a rejeição de parte do eleitorado”.
Primeiros ataques direcionados
Ao associar Lula à corrupção, Flávio antecipou uma ofensiva que deve permear sua propaganda televisiva. O senador citou “gabinete do presidente manchado pela corrupção”, referência ao escândalo das joias sauditas investigado pela Polícia Federal. A plateia, composta majoritariamente por militantes e simpatizantes de classe média, respondeu com gritos de “CPF na nota!” — slogan utilizado nas manifestações da direita contra desvios de verbas públicas.
Caiado, Zema e Renan: as apostas regionais
Enquanto a polarização rendeu os maiores holofotes a PT e PL, três governadores (atual ou recentes) buscaram construir musculatura fora de seus estados.
Ronaldo Caiado (PSD) no entorno do DF
O goiano reuniu prefeitos e produtores rurais na região metropolitana de Brasília, reforçando o discurso de agronegócio forte e gestão “pé no chão”. Segundo Traumann, ele mira o eleitor conservador que rejeita o estilo beligerante de Bolsonaro, mas ainda teme “avanços de uma agenda petista”.
Romeu Zema (Novo) em Montes Claros
Já o governador mineiro, reeleito em 2022 com base na austeridade fiscal, enfatizou resultados de contas públicas e apresentou-se como “opção liberal preparada”. Em Minas, estado-chave, Zema pretende converter popularidade regional em projeção nacional.

Imagem: Internet
Renan Santos (Missão) em São Paulo
Figurando nas pesquisas com índices modestos, o ex-líder de movimento estudantil lançou candidatura na capital paulista, destacando combate à desigualdade e defesa de “nova política”. Traumann considera que, com menos recursos, Santos depende de episódios virais e performance em debates para ampliar visibilidade.
Radiografia do eleitorado: mulheres em destaque
Levantamentos recentes do Tribunal Superior Eleitoral apontam que, pela primeira vez, o eleitorado feminino supera de forma expressiva o masculino e se torna decisivo. Todos os candidatos fizeram menções — ainda que tímidas — a políticas para mulheres, indicando disputa por esse público. Lula citou programas de proteção a vítimas de violência; Flávio prometeu creches “em parceria com a iniciativa privada”; Caiado falou em crédito rural para agricultoras.
Como o horário eleitoral pode mexer no jogo
O início da propaganda gratuita em 28 de agosto é visto por Traumann como “momento de virada” para nomes com menos exposição. “Zema, Caiado e Renan terão a chance de se apresentar a quem ainda nem sabe que eles concorrem”, afirma. Para Lula e Flávio, a vitrine televisiva servirá para consolidar narrativas já lançadas nas ruas.
Tempo de TV e recursos
- PT deverá deter a maior fatia do tempo, graças à coligação com legendas de centro-esquerda;
- PL aparece em segundo, mas com forte presença nas redes sociais para compensar;
- PSD, Novo e Missão correm atrás de alianças para ampliar visibilidade.
O comentarista ressalta ainda que, mesmo com audiência fragmentada, o horário eleitoral continua influente entre indecisos de baixa renda. “É ali que se formam impressões básicas sobre caráter e propostas”, diz.
Primeiro saldo: acertos e tropeços
De acordo com a análise apresentada no podcast, Lula acertou ao antecipar tema sensível — segurança — e ao mostrar alianças para além da esquerda. O risco, aponta Traumann, é a expectativa elevada criada pelo anúncio de um novo ministério. Se a proposta parecer vaga na TV, pode virar munição adversária.
No campo bolsonarista, o “tesouraço” de Flávio dialoga com base liberal, mas o tom combativo renova a rejeição entre eleitores cansados de tensões institucionais. A estratégia de repetir slogans de 2022 pode manter o núcleo fiel, porém dificulta avanço em áreas urbanas onde o pai perdeu terreno.
Já Caiado e Zema, embora tenham demonstrado força regional, precisam converter discurso técnico em empatia nacional. Renan Santos, por sua vez, encara o desafio de escapar do rótulo de “candidato de nicho” e ganhar espaço em debates.
Próximos passos
Com agendas marcadas para as próximas três semanas, os presidenciáveis devem intensificar viagens a capitais do Nordeste e roteiro por regiões metropolitanas do Sudeste, onde se concentram eleitores indecisos. Os comitês também correm para finalizar jingles, peças para TV e estratégias de rede social antes da estreia oficial da propaganda.
Até lá, os primeiros discursos deixam claro que a eleição de 2026 reeditará, ao menos na largada, o embate entre lulismo e bolsonarismo — mas com novos atores tentando romper a lógica de dois polos. Resta saber quem conseguirá traduzir promessa em voto quando o cronômetro eleitoral começar a valer nos 20 segundos de cada inserção televisiva.
