Um veículo capotado, fumaça espalhada no ar e duas atrizes presas entre ferragens anunciaram, logo no primeiro capítulo de “Por Você”, a tragédia que tira a vida de Juli e desencadeia os conflitos da nova novela das sete. A cena dramática, que chega à televisão em poucos minutos, mobilizou três dias de trabalho, duas locações e dezenas de profissionais nos bastidores da Globo.
Dirigida pelo artístico André Câmara, a sequência foi gravada em etapas invertidas para facilitar a logística: primeiro, o resultado do desastre na Lagoa Rodrigo de Freitas; depois, o momento da colisão e, por fim, o capotamento dentro de estúdio. Lucy Ramos, grávida durante as filmagens, e Sheron Menezzes contaram com um aparato de segurança que envolveu airbags externos, vidro cenográfico de silicone e o equipamento “Gira Car”, capaz de girar o automóvel em 360 graus.
De cabeça para baixo na Lagoa Rodrigo de Freitas
A equipe abriu os trabalhos em um domingo de manhã, antes de o trânsito aumentar na Zona Sul do Rio. O carro de Bela, já amassado, com vidros partidos e peças soltas, chegou ao set instalado de cabeça para baixo. A ideia era registrar apenas as consequências do capotamento, poupando tempo de preparação e permitindo que as atrizes se concentrem na interpretação do choque.
Dentro do veículo, Lucy e Sheron aguardavam indicações para reagir a destroços, marcas de sangue cenográfico e fumaça controlada. Um pneu em rotação contínua, acionado por motor elétrico, ajudava a sugerir que o acidente acabara de acontecer. Um gerador de vento completava a atmosfera caótica, levantando poeira e folhas da própria lagoa.
Segurança reforçada para atrizes e equipe
Por conta da gravidez de Lucy Ramos, a produção reforçou protocolos. Antes de cada take, técnicos verificavam cintos especiais e almofadas de proteção moldadas ao banco. A equipe médica também permaneceu de prontidão durante toda a externa, acompanhando a atriz em intervalos regulares.
Impacto reconstruído em estúdio com bolsas pneumáticas
No segundo dia, já nos Estúdios Globo, a gravação se concentrou no exato momento da batida. Sob o carro, bolsas pneumáticas infláveis eram acionadas de forma sincronizada, levantando e soltando o automóvel para reproduzir o tranco que o público vê na tela. O processo evitou riscos de colisão real e possibilitou várias tomadas sem danificar a estrutura principal do cenário.
Quando o “corte” soava, profissionais de efeitos especiais repunham lâminas de vidro cenográfico, feitas de silicone, que se espatifavam em todas as direções. Cada disparo exigia limpeza meticulosa do estúdio para que a próxima repetição não apresentasse resíduos visíveis ou comprometessem a segurança.
Coordenação milimétrica entre câmeras e efeitos
Cinco câmeras, entre elas duas de alta velocidade, capturaram diferentes ângulos do tremor: close nos rostos das personagens, detalhe das mãos tentando proteger a cabeça, pneu deformando no asfalto falso. Tudo era controlado a partir da régie, onde André Câmara conferia se vidro, fumaça e som de impacto se alinhavam à dramaturgia exigida pelo roteiro.
“Gira Car”: o equipamento que simula capotamento completo
A etapa final consumiu um dia inteiro de estúdio reservado exclusivamente ao “Gira Car”, uma estrutura metálica que prende o automóvel em um eixo circular. Fixadas em cintos de cinco pontos, Lucy e Sheron repetiram giros completos a baixa velocidade, mas suficientes para aparentar várias voltas de 360 graus quando acelerados na edição.
Painéis de LED exibiam imagens da Lagoa Rodrigo de Freitas captadas na externa, possibilitando que o reflexo do cenário real surgisse nas janelas do carro e unificasse visualmente as sequências. Ventiladores potentes e máquinas de fumaça completaram o truque, enquanto refletores variavam a intensidade luminosa para simular lâmpadas de rua passando rápido.

Imagem: Você
Edição costura três dias em poucos segundos de tensão
Finalizadas as filmagens, editores juntaram as partes ao contrário: iniciaram pelo capotamento, avançaram para o impacto e terminaram com o veículo já tombado. Na montagem, a ordem foi revertida, criando fluxo natural para o público. Correções de cor alinharam tons de luz externa e de estúdio, enquanto o desenho de som sobrepôs vidro quebrando, metal rangendo e batidas cardíacas das personagens, mixadas a um tema instrumental composto especialmente para a sequência.
Uma tragédia que move a trama
Além de impressionar visualmente, o acidente tem função narrativa decisiva: a morte de Juli funciona como estopim para o arco dramático de Bela e demais personagens de “Por Você”. “Gravamos pensando na relevância dessa perda para toda a história”, resumiu André Câmara à reportagem, destacando o cuidado para transformar o impacto em algo mais que um recurso estético.
A repercussão interna foi de alívio e orgulho. Técnicos de efeitos especiais, maquiadores, figurinistas, operadores de câmera, sonoplastas e dublês celebraram o resultado que chegou ao público. A equipe calcula que, somados os profissionais presentes nos três dias, cerca de 60 pessoas participaram diretamente da execução.
Emprego de tecnologia amplia possibilidades na teledramaturgia
A utilização do “Gira Car” e de painéis de LED reforça uma tendência dentro dos Estúdios Globo: integrar recursos de cinema à produção diária de novelas. Para o supervisor de efeitos, Dogival Rodrigues, a ferramenta “permite prender o carro com atores dentro e girar em um eixo de 360 graus, ao mesmo tempo em que soltamos vidro de silicone, fumaça e vento, garantindo veracidade sem comprometer segurança”.
Próximos desafios de produção
Com a estreia no ar, “Por Você” avança agora para cenas que exigem novas soluções técnicas, como tempestades artificiais e sequências subaquáticas previstas nos próximos capítulos. A experiência bem-sucedida do acidente estabelece um padrão interno para combinar emoção dramática e efeitos especiais em horário de maior audiência.
No set, a lembrança das voltas dentro do “Gira Car” ficou marcada para Sheron Menezzes: “Foi exaustivo, mas quando vi tudo pronto entendi que cada repetição valeu a pena”. Já Lucy Ramos, aliviada pelo nível de controle, afirmou que sua gravidez nunca esteve em risco: “A equipe pensou em cada detalhe para que eu me sentisse segura”.
Entre ferros retorcidos, fumaça e vidro cenográfico, a novela entregou um início de tirar o fôlego, prometendo não economizar nos grandes eventos que sustentam a trama às 19h.
