O Grupo Casas Bahia deu um passo dramático para conter a pior crise financeira de seus 72 anos: só em agosto, demitiu cerca de 3 mil funcionários e fechou quase 300 pontos de venda em todo o país. As medidas foram detalhadas no pedido de recuperação judicial protocolado no Foro Central Cível de São Paulo, onde a rede tenta renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas e evitar a falência.
Os cortes se somam a uma primeira onda de enxugamento iniciada em 2023 e elevam para 11,6 mil o total de postos de trabalho eliminados, além de 355 lojas desativadas em três anos. A companhia afirma que, apesar da retração, ainda mantém mais de 700 unidades físicas abertas e emprega cerca de 20 mil pessoas.
Demissões e fechamento em massa
De acordo com a petição levada à Justiça, o mês de agosto marcou a fase mais aguda do chamado Plano de Transformação. A empresa encerrou quase 300 endereços considerados “altamente deficitários” e desligou aproximadamente 3 mil colaboradores. Com isso, buscou aliviar despesas fixas — aluguel, folha de pagamento e logística — que continuavam pressionando o caixa mesmo após o primeiro ciclo de ajustes.
No documento, a varejista aponta três fatores centrais para a crise atual: juros elevados que encarecem o crédito ao consumidor, queda na venda de bens duráveis — linha que responde por fatia relevante do faturamento — e avanço da inadimplência, que reduz a conversão de vendas a prazo. O grupo ainda cita os desafios impostos pelo comércio eletrônico, canal em que rivais nascidos digitais operam com estrutura mais enxuta.
Números da reestruturação
- 2023: fechamento de 55 lojas e corte de 8,6 mil vagas
- 2026: fechamento de quase 300 lojas e corte de 3 mil vagas
- Total até agora: 355 lojas encerradas e 11,6 mil vagas eliminadas
Por que a recuperação judicial virou a saída
Mesmo depois das primeiras iniciativas de 2023 — que incluíram redução de estoques, queda nos investimentos e ajustes em centros de distribuição — a companhia não conseguiu frear o efeito dos juros sobre a dívida. Segundo o processo, o custo financeiro continuou corroendo a geração de caixa, tornando insustentável honrar compromissos de curto prazo.
A recuperação judicial permite suspender temporariamente execuções, preservar liquidez e renegociar passivos sob supervisão do Judiciário. O plano apresentado abrange dez empresas do conglomerado e foi chancelado pelo Conselho de Administração e pelo acionista controlador. Ainda será necessária a ratificação em assembleia extraordinária de acionistas.
Operação continuará ativa
Em comunicado interno, a Casas Bahia garantiu que manterá o funcionamento de lojas físicas, site e aplicativos, além de reforçar canais como marketplace e entrega expressa. A meta é ganhar tempo para readequar o perfil da dívida, alongando prazos e reduzindo juros, enquanto busca capital de giro para recompor estoques nas unidades rentáveis.
Impactos para funcionários e fornecedores
Funcionários dispensados em agosto devem receber verbas rescisórias de acordo com o cronograma definido pela Justiça. A companhia diz priorizar pagamentos trabalhistas e afirma ter reservado recursos provenientes da venda de ativos imobiliários e de inventário excedente.
Já para fornecedores, a recuperação judicial congela cobranças anteriores ao pedido, mas permite continuar entregando mercadorias mediante novas condições de pagamento. Representantes da indústria de eletrodomésticos acompanham de perto as negociações, temendo efeito dominó sobre a cadeia produtiva.

Imagem: Internet
Sindicatos cobram transparência
Entidades que representam comerciários em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte solicitaram acesso integral ao plano de recuperação para avaliar impactos sobre trabalhadores restantes. Elas também reivindicam abertura de programas de qualificação e recolocação para quem perdeu o emprego.
Histórico recente da empresa
Fundada em 1952, a Casas Bahia cresceu com modelo baseado em forte presença física e venda a prazo para classes C e D. Em 2009, uniu-se a Ponto Frio e a outras bandeiras no grupo Via Varejo, rebatizado como Via, até retomar a marca original neste ano. O movimento visava resgatar a identificação popular, mas coincidiu com a deterioração macroeconômica pós-pandemia.
Em 2024, o grupo já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial, na qual acertou com bancos a repactuação de R$ 4,1 bilhões. A aposta era que a esperada queda da Selic aliviaria o custo do crédito e reaqueceria o consumo. O alívio, porém, não veio na velocidade desejada, e a empresa voltou a conviver com margens apertadas, estoque parado e obrigações financeiras em alta.
O que acontece a partir de agora
Com o deferimento inicial, a Casas Bahia terá 60 dias para apresentar um plano detalhado de pagamento aos credores, que por sua vez votarão a proposta em assembleia. Caso aprovada por maioria qualificada, a empresa ganha até 10 anos para cumprir o cronograma — prazo que costuma ser encurtado a depender da negociação.
Especialistas em varejo avaliam que, sem reforma profunda em seu modelo de negócios, o grupo pode continuar vulnerável a concorrentes digitais. A empresa indica que pretende acelerar iniciativas omnichannel, expandir a venda de serviços financeiros e monetizar a base de dados de 85 milhões de clientes cadastrados.
Possíveis cenários
- Reestruturação bem-sucedida: renegociação de dívidas, estabilização do fluxo de caixa e retomada gradual de aberturas de lojas em regiões rentáveis.
- Novo aporte de capital: entrada de investidor estratégico ou financeiro disposto a injetar recursos em troca de participação acionária.
- Liquidação de ativos: venda de imóveis, centros de distribuição e carteiras de crediário para reduzir alavancagem mais rapidamente.
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