O primeiro domingo oficial de campanha ao governo paulista evidenciou dois palanques distintos, porém separados por poucos quilômetros. Tarcísio de Freitas (Republicanos) inaugurou a busca pela reeleição em Osasco, cercado por uma coalizão de dez partidos e nove prefeitos, enquanto Fernando Haddad (PT) preferiu subir ao palco de Luiz Inácio Lula da Silva em São Bernardo do Campo para, ao lado do presidente, marcar presença sem realizar um evento próprio.
A escolha de cidades vizinhas na Região Metropolitana ressalta a importância eleitoral da Grande São Paulo. Em Osasco, Tarcísio reforçou promessas regionais e exibiu musculatura partidária; em São Bernardo, Haddad reforçou a sintonia com Lula e com o legado histórico do PT no ABC.
Mostra de força de Tarcísio em Osasco
O ato do governador reuniu cerca de mil apoiadores em um centro de convenções no bairro industrial de Osasco. Ao lado do prefeito anfitrião, Gerson Pessoa (Podemos), e de seu antecessor Rogério Lins, Tarcísio recebeu ainda o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), além de chefes do Executivo de Barueri, Cotia, Itapevi, Carapicuíba, Jandira, Santana de Parnaíba e Cajamar. Juntos, os nove mandatários representam um contingente de mais de quatro milhões de eleitores.
A coligação encabeçada pelo Republicanos soma 10 legendas e, na Câmara dos Deputados, 336 parlamentares — cerca de 65 % da Casa. Esse arco de alianças deve garantir ao governador mais que o dobro do tempo de televisão e rádio de seu principal adversário. Durante o evento, vídeos institucionais projetaram obras da atual gestão e apresentaram Tarcísio como “exemplo para o Brasil”, numa tentativa de nacionalizar sua imagem.
Promessas locais e metrô na pauta
- Instalação de um posto do Corpo de Bombeiros na zona norte de Osasco;
- Integração dos serviços municipais ao sistema Poupatempo;
- Inauguração de um restaurante popular Bom Prato;
- Avanços no projeto da Linha 22 do Metrô, que ligará Cotia a Sumaré, passando por Osasco.
Tarcísio justificou a escolha da cidade lembrando que Osasco tem o segundo maior PIB do estado e prometeu “olhar diferenciado” para a região caso seja reconduzido ao cargo. A presença maciça de prefeitos serviu também para sinalizar capilaridade no interior, já que muitos deles se comprometeram a levar o governador em agendas nos próprios municípios durante a campanha.
Haddad aposta na força simbólica de São Bernardo
Enquanto os aliados de Tarcísio exibiam números de bancada, Fernando Haddad apostava em história e emoção. O petista participou do comício que abriu a campanha de Lula no Estádio Municipal 1.º de Maio, local das antigas assembleias sindicais que projetaram o então líder metalúrgico nos anos 1970. O evento remeteu às origens do PT no ABC e reuniu parlamentares, dirigentes partidários e milhares de militantes.
Haddad foi anunciado como “o candidato de Lula em São Paulo”, mas destinou a maior parte de seus cerca de cinco minutos de fala para exaltar realizações dos governos petistas: retomada do crescimento econômico, expansão do SUS e ampliação do acesso ao ensino superior. Ao lembrar que foi ministro da Educação em três gestões de Lula, reforçou a proximidade pessoal e política com o presidente.
Lançamento oficial fica para depois
Diferentemente de Tarcísio, o ex-prefeito de São Paulo ainda não realizou ato específico de lançamento. Sua equipe marcou para esta segunda-feira (17) um evento na capital, onde apresentará propostas e mostrará a chapa completa. A estratégia deste domingo foi usar a visibilidade do presidente para potencializar a própria imagem e garantir projeção nas redes sociais.
Grande São Paulo no centro da disputa
Com 39 municípios e mais de 21 milhões de habitantes, a Região Metropolitana concentra quase metade do eleitorado paulista. Fatores como densidade populacional, influência econômica e facilidade logística fazem do território o principal campo de batalha nas primeiras semanas de campanha.

Imagem: Internet
Tarcísio, que venceu a eleição de 2022 com desempenho expressivo no interior, busca agora reduzir a vantagem petista na periferia da capital e no ABC. Já Haddad pretende repetir o resultado da última disputa presidencial, quando Lula venceu na maior parte das cidades da Grande São Paulo, inclusive Osasco.
Nacionalização inevitável
Os discursos deste domingo indicam que a eleição estadual será contaminada pela narrativa federal. O governador enfatizou apoio de um bloco partidário que, em Brasília, compõe a base de centro-direita; o petista, por sua vez, associou-se diretamente ao projeto de reeleição de Lula.
Analistas lembram que, em 2022, Tarcísio conquistou o Palácio dos Bandeirantes ancorado no palanque do então presidente Jair Bolsonaro. Agora, enfrenta o desafio de equilibrar agenda estadual com a necessidade de dialogar com um Congresso heterogêneo e, ao mesmo tempo, defender a gestão própria. Haddad, derrotado na eleição anterior, tenta capitalizar a popularidade de Lula para reverter desvantagem inicial nas pesquisas internas.
Tempo de TV e estrutura de campanha
A expressiva coligação de Tarcísio deve lhe render aproximadamente 6 minutos por bloco na propaganda gratuita, contra cerca de 2 minutos de Haddad. Esse diferencial será crucial para a comunicação de promessas de continuidade e expansão de projetos, especialmente em áreas de infraestrutura, segurança e habitação.
O petista compensa a desvantagem com a expectativa de participação constante de Lula nos programas e nas inserções diárias de 30 segundos, além de eventos conjuntos em cidades-chave. A coordenação de campanha também aposta em mobilização digital, setor em que o PT considera ter refinado estratégias desde 2022.
Próximos passos
Após Osasco, Tarcísio programou carreatas em Campinas, Ribeirão Preto e São José dos Campos ao longo da primeira semana. Haddad, depois do ato de lançamento na capital, deve iniciar rota pelo interior, priorizando cidades universitárias como Araraquara, Bauru e Presidente Prudente.
Com agendas simultâneas e discursos que misturam questões locais e embates nacionais, a corrida ao Palácio dos Bandeirantes começa marcada por altas doses de simbolismo. De um lado, um governador que exibe base parlamentar robusta; de outro, um ex-ministro que mira a força eleitoral de Lula. O eleitor paulista terá pouco mais de 45 dias para decidir qual narrativa – continuidade técnica ou retomada de um projeto político histórico – prevalecerá nas urnas em outubro.
