Um relógio desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) pode mudar a forma como a Doença de Parkinson é acompanhada no Brasil. O aparelho, equipado com sensores de movimento em três dimensões, registra tremores, lentidão e alterações na marcha de pacientes ao longo de todo o dia, longe do ambiente controlado do consultório.
Batizado de “Parkinson no Lar”, o estudo conduzido pelo Núcleo de Inovação e Avaliação de Tecnologias em Saúde (NIATS) é o primeiro do país a usar um dispositivo vestível para monitoramento domiciliar da doença. A proposta é oferecer aos médicos um retrato fiel de como os sintomas se comportam durante atividades rotineiras, permitindo ajustes mais precisos no tratamento.
Como o dispositivo capta cada movimento
O relógio abriga acelerômetros e giroscópios capazes de medir, em três eixos, a amplitude, a frequência e a intensidade dos movimentos do braço do usuário. Essas informações são armazenadas no próprio equipamento, que funciona de forma autônoma por várias horas antes de ser sincronizado com um computador para análise.
Da coleta à leitura dos resultados
- O paciente usa o relógio durante todo o dia, inclusive em atividades domésticas, caminhadas e momentos de repouso.
- Os sensores capturam dados de movimentos voluntários e involuntários, como tremores de repouso.
- Os registros são transferidos para uma plataforma que cruza horários de medicação, alimentação, nível de estresse e atividade física.
- Com esses cruzamentos, a equipe identifica picos de sintomas, possíveis gatilhos e períodos de melhora.
Segundo a engenheira biomédica Ariana Moura Cabral, uma das responsáveis pelo projeto, a avaliação contínua “revela oscilações que ficariam invisíveis na consulta de meia hora”, quando o paciente muitas vezes está em um momento de menor intensidade dos sintomas.
O estudo: quem participa e por quê
No estágio atual, 14 voluntários utilizam o relógio: dez convivem com a Doença de Parkinson e quatro formam o grupo controle, sem diagnóstico neurológico. Parte dos participantes é atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e outra parte pelo setor privado, o que permite comparar rotinas, acesso a terapias e respostas a medicamentos.
Rede de colaboração nacional e internacional
Além da equipe da UFU, o trabalho reúne pesquisadores do Rio de Janeiro, Pernambuco, Goiás e ainda mantém uma parceria técnica com uma universidade espanhola especializada em dispositivos vestíveis. O intercâmbio de protocolos e análise estatística amplia a validade dos resultados e aproxima a tecnologia dos padrões exigidos para aprovação regulatória.

Imagem: Internet
Por que monitorar fora do consultório faz diferença
A Doença de Parkinson é marcada por flutuações motoras ao longo do dia, influenciadas por fatores como:
- Horário e dose da medicação antiparkinsoniana;
- Qualidade do sono na noite anterior;
- Nível de estresse ou ansiedade;
- Tipo de alimentação e prática de exercícios físicos.
Em ambientes clínicos, muitos desses elementos estão controlados ou, simplesmente, não ocorrem. Ao levar o monitoramento para dentro de casa, os pesquisadores observam a doença em situações reais, como subir escadas, cozinhar ou atravessar a rua. “É nesse cenário que descobrimos, por exemplo, se a medicação deixa de fazer efeito antes da próxima dose ou se a fadiga após o almoço piora a marcha”, detalha Ariana Cabral.
Perspectivas para o SUS e futuros aprimoramentos
A equipe planeja aumentar o número de voluntários nos próximos meses e, em paralelo, negociar com empresas brasileiras de tecnologia médica a nacionalização do dispositivo, o que poderia reduzir custos. A meta é que o relógio seja incorporado ao SUS como ferramenta de apoio a neurologistas e fisioterapeutas, permitindo intervenções individualizadas.
Benefícios esperados
- Adaptação rápida do esquema de medicamentos conforme oscilações diárias.
- Identificação precoce de queda de desempenho motor, evitando complicações.
- Base de dados populacional que pode orientar políticas públicas de saúde.
Para chegar a esse ponto, os pesquisadores ainda precisam concluir ensaios clínicos com amostras maiores e submeter o produto à avaliação regulatória da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Enquanto isso, o “Parkinson no Lar” reforça uma tendência global: o uso de tecnologias vestíveis para transformar dados brutos em decisões clínicas mais rápidas e personalizadas, melhorando a qualidade de vida de quem convive com doenças crônicas.
