Uma operação de inteligência da Polícia Civil do Maranhão terminou, neste sábado (15), com a prisão de um homem apontado como peça-chave no assalto a um carro-forte ocorrido dois dias antes na BR-135, em Capinzal do Norte. O suspeito foi localizado no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), depois de percorrer uma rota aérea que incluiu paradas em Teresina (PI) e Recife (PE) logo após o crime.
Investigadores do Departamento de Combate ao Roubo a Instituições Financeiras (DCRIF), ligado à Superintendência Estadual de Investigações Criminais (Seic), sustentam que o preso atuou no suporte logístico da quadrilha que explodiu o veículo da empresa Prosegur. Contra ele havia mandado de prisão temporária, expedido para esclarecer que papel exerceu no planejamento, na fuga e, possivelmente, na ação armada que deixou moradores assustados, mas não provocou feridos.
Rota de fuga monitorada em tempo real
Segundo a reconstrução feita pelos agentes, o investigado deixou o Maranhão poucas horas depois da explosão. De carro, avançou até Teresina, de onde embarcou para Recife. Na capital pernambucana, teria permanecido menos de 24 horas antes de seguir para Campinas, destino final interceptado graças ao monitoramento de listas de passageiros e ao cruzamento de dados de telefonia.
A trajetória reforçou a suspeita de que ele já contasse com estrutura para dar cobertura à quadrilha. A polícia revelou que, cerca de um mês antes do assalto, o homem havia viajado do Rio de Janeiro para a região central maranhense, onde passou a circular pelos povoados às margens da BR-135. Os investigadores acreditam que, nesse período, ele mapeou possíveis pontos de refúgio, postos de combustíveis e rotas de saída para os demais integrantes do bando.
Mandado temporário para aprofundar depoimentos
O mandado de prisão temporária, válido por 30 dias, permitirá a coleta de depoimentos sem risco de interferência externa. A delegada responsável pela investigação adiantou que novas diligências devem ocorrer nos próximos dias em endereços frequentados pelo suspeito no Maranhão, no Piauí e em Pernambuco. A intenção é localizar veículos, armas e eventuais outros envolvidos que tenham prestado apoio durante a fuga.
Caso as buscas confirmem participação direta, o quadro pode evoluir para prisão preventiva e denúncia por roubo qualificado, explosão e associação criminosa armada. Em paralelo, a Seic também avalia solicitar cooperação das polícias civil e federal em estados onde a quadrilha possa ter ramificações.
O ataque que parou Capinzal do Norte
A ofensiva contra o carro-forte ocorreu na tarde de quinta-feira (13). Moradores do povoado Santa Rosa, ponto de passagem obrigatório entre os municípios de Capinzal do Norte e Presidente Dutra, relatam que a presença de motos e carros estranhos foi percebida desde o início da tarde. Minutos depois, tiros de fuzil ecoaram pela rodovia, obrigando motoristas a recuar.
Com os vigilantes encurralados, os criminosos posicionaram explosivos na lateral do blindado. Imagens gravadas à distância mostram a detonação e a nuvem de fumaça que cobriu a estrada. Estilhaços atingiram telhados de casas próximas, mas ninguém se feriu. Assim que o compartimento de valores foi violado, o grupo se dividiu em dois automóveis e desapareceu por estradas vicinais da zona rural.
Veículo incendiado e dúvidas sobre o valor levado
Um dos carros usados na fuga foi localizado carbonizado poucas horas depois, a cerca de 15 km do local do crime. Dentro dele, peritos recolheram pinos de detonação e cápsulas de munição 7,62 mm, indicativo de armamento de uso restrito. Ainda não se sabe se havia dinheiro no carro-forte. A empresa Prosegur informou, inicialmente, que o blindado estaria em retorno operacional, mas a polícia trabalha com a possibilidade de que alguma quantia tenha sido subtraída.
Efeito sobre a segurança da região
O ataque reacendeu o debate sobre a vulnerabilidade de trechos da BR-135, principal corredor logístico entre o litoral maranhense e o sul do estado. Sindicatos de vigilantes e empresas transportadoras cobram reforço no policiamento preventivo, especialmente em dias de folha de pagamento de prefeituras e empresas de mineração.
Para a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão, a resposta rápida à explosão e a prisão em Viracopos ilustram avanços no compartilhamento de dados entre as polícias estaduais. Representantes da pasta, porém, reconhecem que a quantidade de rotas alternativas em área de floresta dificulta a contenção de quadrilhas especializadas em roubo a carro-forte.
Ameaça recorrente no interior
De 2020 para cá, ocorreram ao menos seis ações semelhantes em rodovias que cortam o centro do Maranhão, quatro delas com uso de explosivos de alto potencial. O padrão se repete: bloqueio da pista, ataque rápido, fuga para estradas vicinais e abandono de veículos incendiados. Investigadores apontam que grupos do Sudeste e do Centro-Oeste estariam se revezando nessas investidas, aproveitando a baixa presença policial permanente e a densa vegetação para dificultar o rastreio aéreo.

Imagem: Internet
Próximos passos da investigação
Com o suspeito sob custódia, a linha de apuração mira agora na identificação de quem manipulou os explosivos e de quem liderou a ação armada. Perícias em destroços do blindado, na lataria do carro queimado e em vestígios recolhidos no cenário da explosão devem fornecer DNA e impressões digitais. A Seic informou ter solicitado imagens de pedágios, câmeras de fazendas e registros de antenas de telefonia para refazer a cronologia completa do ataque.
Além disso, a polícia pretende traçar o fluxo financeiro dos últimos meses na conta do preso. A hipótese é que pagamentos a laranjas, compra de veículos à vista e reservas de passagens possam revelar novos integrantes da quadrilha, que teria suporte interestadual para armazenar armas e para circular com explosivos.
Cooperação interestadual e federal
O Maranhão enviou relatório preliminar à Polícia Federal e ao Ministério da Justiça, sugerindo a criação de força-tarefa que reúna estados do Nordeste e do Centro-Oeste. A avaliação é de que a pulverização de quadrilhas pelo interior dificulta rastreamento isolado; ações conjuntas tenderiam a bloquear rotas de fuga e a compartilhar inteligência sobre compra de artefatos explosivos.
Repercussão local
Em Capinzal do Norte, o clima ainda é de receio. Escolas públicas suspenderam aulas na sexta-feira (14) e caminhoneiros relataram evitar transitar pelo trecho após o entardecer. Comerciantes da região central reclamam queda no movimento e reforçaram a contratação de vigilância privada.
Mesmo com a captura em Viracopos, moradores do povoado Santa Rosa temem novas ações. A prefeitura informou que solicitou reforço da Polícia Militar e instalou iluminação extra em pontos críticos da rodovia. Já a concessionária responsável pela BR-135 estuda ampliar a cobertura de câmeras e de radiocomunicação ao longo dos quilômetros mais vulneráveis.
Perspectiva para os vigilantes
Sindicalistas que representam trabalhadores de transporte de valores cobram atualização nos protocolos de emergência. Entre as propostas estão a instalação de rastreadores redundantes nos blindados, uso de bloqueadores de sinal para neutralizar drones e a adoção de rotas variáveis, evitando rotina previsível que ajude quadrilhas a planejar emboscadas.
Enquanto isso, o suspeito detido será transferido para o Complexo Penitenciário de São Luís, onde aguardará audiência de custódia. Caso o juiz converta a prisão em preventiva, ele poderá ser indiciado por diversos crimes, incluindo roubo qualificado, explosão, posse de armamento restrito e organização criminosa. As penas somadas podem ultrapassar 40 anos de reclusão.
As equipes de investigação seguem em campo para capturar o restante do bando e desarticular a rede que sustentou o assalto em Capinzal do Norte, considerado o mais ousado já registrado na região em 2024.
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