Pela quarta vez consecutiva, o canto que vai ecoar no Santuário Nacional de Aparecida entre 3 e 12 de outubro tem a marca do interior de Goiás. O padre Wallison Rodrigues, de 34 anos, compôs, produziu, arranjou e interpretou o hino oficial da Novena e Festa da Padroeira do Brasil de 2026, cuja versão orquestrada deve ser divulgada no início de setembro nos veículos do Santuário.
Nascido em Americano do Brasil e pároco há quase cinco anos em Turvânia, o sacerdote equilibra rotina pastoral com uma agenda cada vez mais disputada por romarias, dioceses e organismos da Igreja. Da Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, à Campanha Missionária da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), suas melodias tornaram-se trilha de algumas das maiores manifestações de fé do país.
Da folia de reis ao estúdio
Antes de ganhar corais, orquestras e transmissões nacionais, a música de Wallison brotou entre violas, folias de reis e congadas que animam festas populares no interior goiano. “Eu cresci escutando cantadores na porta de casa”, recorda o padre, que só mais tarde percebeu que aquele repertório se tornaria base para a própria obra litúrgica. No seminário teve aulas de teoria musical; a graduação formal nunca veio, mas a vivência prática logo se traduziu em composições.
O primeiro convite de peso surgiu por volta de 2012, quando a equipe da Romaria do Divino Pai Eterno buscava uma canção-tema. A repercussão abriu caminho para novas encomendas e chamou atenção do clero de outras regiões. Hoje, pedidos chegam por telefone, e-mail ou mesmo durante celebrações. “As pessoas contam a história e eu tento transformar aquilo em poesia e melodia”, resume.
Influências populares
- Folia de Reis e congada aparecem em batidas e refrãos;
- Referências à música sertaneja de raiz emprestam simplicidade ao texto litúrgico;
- O uso de instrumentos regionais facilita a participação das comunidades.
Para o compositor, esse diálogo aproxima a mensagem religiosa da realidade dos fiéis. “Quando a gente fala a língua musical do povo, a evangelização flui melhor”, explica.
Entre Turvânia e os grandes santuários
Apesar do sucesso nas plataformas do mundo católico, a prioridade continua sendo a paróquia de São José, em Turvânia, cidade de pouco mais de dez mil habitantes. Lá, o padre coordena pastorais, celebra missas diárias e acompanha famílias. Muitas das composições, inclusive, nascem no silêncio da casa paroquial depois de um dia comum de visitas a doentes ou reuniões comunitárias.
Quando a demanda exige gravações fora, o cronograma é dividido milimetricamente. Partes de um mesmo projeto podem ser registradas em estúdios de Aparecida, Goiânia ou Palmas. “Levo o computador, fone e um teclado portátil. Onde tiver linha de internet dá para trabalhar”, brinca.
Processo de criação
- O cliente – normalmente um santuário, diocese ou setor da CNBB – apresenta tema e objetivo pastoral;
- Wallison elabora letra inspirada em documentos da Igreja e nas referências culturais locais;
- Melodia nasce ao violão; depois vêm arranjos, orquestrações e guias de vozes;
- Gravações são distribuídas entre músicos convidados e coros regionais;
- O resultado final passa por mixagem e segue para aprovação.
Foi assim com o hino da Campanha Missionária de 2026. Partes instrumentais foram captadas em Goiás, enquanto a produção musical ficou a cargo de um estúdio de Palmas, no Tocantins.
Novos projetos no horizonte
Entre maio e junho deste ano, o padre lançou um álbum com as partes fixas da missa – ato penitencial, glória e santo – disponível em serviços de streaming religiosos. O próximo passo é um projeto de músicas eucarísticas, motivado pela realização do 19º Congresso Eucarístico Nacional, que Goiânia sediará em setembro. “Quero oferecer canções que ajudem o povo a rezar durante o congresso e permaneçam no repertório das comunidades”, adianta.

Imagem: Internet
Outro fruto recente dessa expansão é o contrato com uma gravadora católica. O acordo prevê lançamentos periódicos e apoio logístico para registros audiovisuais, o que deve ampliar a presença do compositor em canais de TV e plataformas digitais.
Vocação em primeiro plano
Apesar do ritmo intenso, Wallison insiste que a arte nunca tomou o lugar do ministério. “Eu sou, antes de tudo, pároco; a música é extensão da missão”, afirma. Ele credita à família, agricultores do interior goiano, a sensibilidade para perceber beleza no simples. Esse olhar aparece em versos que exaltam a vida cotidiana do sertanejo, mas também em opções técnicas: arranjos acessíveis, cifras fáceis e refrões repetitivos, pensados para grupos que, muitas vezes, contam apenas com violão e pandeiro.
Enquanto se divide entre confissões, ensaios e gravações, o padre completa 34 anos no dia 24 de agosto com agenda lotada até o fim do ano. Pouco depois do aniversário, embarca para Aparecida a fim de acompanhar a gravação da versão sinfônica do hino da Padroeira e acertar detalhes do lançamento nas redes do Santuário Nacional.
Impacto além dos altares
Os números comprovam a projeção: vídeos anteriores do hino da Festa da Padroeira ultrapassam meio milhão de visualizações no canal do Santuário e somam milhares de execuções em plataformas de áudio. Na Romaria do Divino Pai Eterno, a canção-tema virou hit entre romeiros, tocada dezenas de vezes ao longo dos dez dias de peregrinação em Trindade.
Ainda assim, Wallison prefere falar do valor pastoral. “Se uma letra emociona e ajuda alguém a rezar, já valeu.” Em tempos de redes sociais e consumo rápido, ele defende canções que sobrevivam além do evento. “A música litúrgica precisa ser atemporal. Depois que o palco é desmontado, ela continua servindo à oração.”
Agenda até dezembro
- Setembro – Lançamento da versão orquestrada do Hino da Padroeira;
- Setembro – Participação no 19º Congresso Eucarístico Nacional, em Goiânia;
- Outubro – Campanha Missionária com hino composto por ele;
- Novembro – Oficinas de música litúrgica em dioceses do Centro-Oeste;
- Dezembro – Gravação de EP natalino com coral infantil de Turvânia.
Entre uma viagem e outra, o compositor volta para o pequeno município onde tudo começou. Lá, celebra missas dominicais acompanhado por um coro formado por jovens da própria comunidade, muitos dos quais descobriram a paixão pela música sob sua batuta. Assim, Padre Wallison Rodrigues prova que, mesmo quando ecoa em santuários gigantescos, a canção carrega o sotaque e a simplicidade do interior goiano que moldou sua vocação.
