Aos 50 anos, mãe retorna à universidade e colação de grau vira momento duplo de celebração familiar

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    Quando o nome de Sandra Gewehr Scholles ecoou no auditório, poucos segundos separavam o chamado seguinte: o da filha, Daniela. Aos 50 anos, a moradora de Estância Velha viveu a experiência de voltar à sala de aula, cursar Psicologia e, sete anos depois, subir ao palco da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, lado a lado com a jovem de 25. O momento selou uma trajetória marcada por mudança de rotinas, desafios técnicos, choques geracionais e, sobretudo, apoio mútuo.

    A dupla iniciou a jornada em 2019, atravessou a pandemia com aulas on-line, retomou atividades presenciais e transformou tudo isso em combustível para permanecer até o fim. “Foi a realização de um sonho”, resume Sandra, que havia abandonado os estudos quase três décadas antes, ainda no início de um curso de Pedagogia.

    Reacendendo um projeto interrompido

    O retorno de Sandra ao ensino superior começou dentro de casa, quando Daniela recebeu a notícia de que passara no vestibular. A escolha da filha por Psicologia reacendeu em Sandra o desejo antigo de trabalhar na área da saúde mental. A conversa entre as duas deslanchou a decisão: mãe e filha avaliariam juntas as disciplinas, horários e custos para viabilizar a matrícula de Sandra por reingresso, aproveitando matérias cursadas no passado.

    Com o marido e os outros filhos assumindo parte do orçamento e das tarefas domésticas, a família transformou o plano coletivo em realidade. Ainda assim, conciliar trabalho, estágio, estudos e responsabilidades de casa se revelou o principal obstáculo. “Houve noites em que pensei em desistir, chorava de exaustão, mas eles seguravam minha mão”, recorda a mãe.

    Administração do tempo na prática

    • Durante o semestre mais puxado, Sandra chegou a cursar cinco cadeiras simultaneamente.
    • Planilhas, alarmes no celular e um caderno físico ajudavam a organizar prazos de provas e trabalhos.
    • Nos dias de estágio, a rotina começava antes das 6h e só terminava perto da meia-noite.

    A estratégia resultou em metas de curto prazo: cada semana concluída era riscada da lista, alimentando a contagem regressiva para a formatura.

    Do papel materno ao de colega de classe

    Compartilhar a mesma turma exigiu da dupla reinventar a relação. Dentro da universidade, a hierarquia doméstica dava lugar à parceria acadêmica. Na hora dos seminários, ambas dividiam leituras e bancadas; nos corredores, trocavam confidências sobre temas teóricos; no café, falavam da vida fora do campus.

    Conflitos, porém, não faltaram. Sandra preferia imprimir textos, grifar passagens e preencher fichamentos manuscritos. Daniela optava por arquivos digitais, anotações no celular e leituras em tela. “Eu me estressava com o volume de papel que ela carregava; ela se irritava quando deixava tudo para a última hora”, diverte-se a filha.

    Como cada geração estudava

    1. Sandra: material impresso, caneta marca-texto, fichas cartolina, biblioteca física.
    2. Daniela: PDFs, aplicativos de resumo, grupos de WhatsApp para compartilhar slides.

    A diferença de estilo acabou complementando as duas. Enquanto a mãe garantia antecedência nos prazos, a filha trazia agilidade digital e indicava artigos recentes encontrados on-line.

    A travessia da pandemia

    O segundo ano de curso coincidiu com o avanço da covid-19. As salas de aula migraram para plataformas de videoconferência, professores se adaptavam a câmeras, e a casa das duas virou laboratório, biblioteca e consultório improvisado para as disciplinas práticas. Segundo Daniela, estudar na cozinha dividida entre refeições e apresentações virtuais exigiu paciência redobrada.

    Quando as aulas presenciais retornaram parcial ou integralmente, mãe e filha notaram que o entrosamento conquistado no ensino remoto se traduziu em confiança renovada: bastava um olhar para saber se a outra precisava de ajuda em uma exposição oral, por exemplo.

    Impacto na saúde mental

    Os encontros on-line também trouxeram vantagens imprevistas. Consultas de orientação profissional por vídeo, que antes demandavam deslocamentos, puderam ser agendadas rapidamente, permitindo que Sandra concluísse o estágio com supervisão remota. Para Daniela, a vivência prática durante a pandemia acrescentou repertório sobre acolhimento em situações de crise, algo que agora ela leva ao consultório onde inicia a carreira.

    Diplomas entregues em sequência

    No dia 25 de julho deste ano, o auditório reinaugurado após reformas recebeu familiares, amigos e docentes. A ordem alfabética do cerimonial posicionou Sandra imediatamente antes de Daniela, criando um efeito simbólico: mãe e filha subiram juntas, uma descendo a rampa enquanto a outra subia. Abraçadas no centro do palco, ergueram os diplomas com a mesma capa azul-marinho.

    O gesto emocionou colegas, que registraram em fotos e vídeos o instante em que ambas agradeceram à plateia. Desde então, Sandra relata reviver mentalmente a cena toda vez que folheia o álbum da cerimônia. Daniela guarda o vídeo no celular e exibe orgulhosa aos pacientes, como forma de incentivar quem acredita que “não dá mais tempo” para recomeçar.

    Planos para o futuro próximo

    • Sandra: pretende abrir consultório particular em Estância Velha, com foco em adultos em transição de carreira.
    • Daniela: busca especialização em Psicologia Hospitalar e já atua em clínica multidisciplinar de Novo Hamburgo.
    • As duas cogitam ministrar palestras conjuntas sobre aprendizagem ao longo da vida.

    Lição de perseverança

    O caso de Sandra e Daniela ecoa em um contexto nacional no qual, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), pessoas com mais de 40 anos representam parcela crescente das matrículas no ensino superior brasileiro. O movimento aponta para a requalificação como forma de se manter relevante em um mercado de trabalho em constante mutação.

    Para quem viveu o processo de dentro, porém, a principal mensagem continua sendo de afeto. “Se eu pudesse voltar no tempo, diria àquela jovem que trancou Pedagogia para não desistir tão cedo, mas entendo que cada etapa foi necessária para que hoje eu vivesse isso com a minha filha”, reflete Sandra. Já Daniela acredita que “nunca é tarde para realizar sonhos”, frase que agora repete nos atendimentos quando o assunto é autoestima e reinvenção profissional.

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    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.