Atlas da Violência revela que 4 em cada 10 mortes violentas no Alto Tietê podem ter sido ocultadas como causa indeterminada

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    Quase metade das mortes violentas no Alto Tietê pode ter passado despercebida pelas estatísticas oficiais em 2024. Levantamento do Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, calcula que 63 óbitos registrados como “causa indeterminada” têm forte probabilidade de serem assassinatos.

    Somados aos 98 homicídios confirmados nos cinco municípios da região incluídos no estudo — Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá e Suzano —, os casos ocultos elevam para 161 o total estimado de pessoas mortas intencionalmente. O dado faz dos “homicídios ocultos” 39% de toda a violência letal estimada na área em 2024, percentual bem acima da média nacional.

    Retrato cidade a cidade

    Os números do Atlas expõem diferentes graus de subnotificação entre os municípios analisados. Itaquaquecetuba lidera a contagem absoluta, com 52 homicídios estimados — 24 dos quais não identificados como tal nos registros de óbito. Em Ferraz de Vasconcelos, a distorção é ainda mais pronunciada: quase metade das 31 mortes projetadas pode ter ficado fora do radar policial.

    Itaquaquecetuba

    • Homicídios estimados: 52
    • Registros oficiais: 28
    • Homicídios ocultos: 24 (46% do total)

    Ferraz de Vasconcelos

    • Homicídios estimados: 31
    • Registros oficiais: 16
    • Homicídios ocultos: 15 (48% do total)

    Mogi das Cruzes

    • Homicídios estimados: 26
    • Registros oficiais: 15
    • Homicídios ocultos: 11 (42% do total)

    Suzano

    • Homicídios estimados: 38
    • Registros oficiais: 28
    • Homicídios ocultos: 10 (26% do total)

    Poá

    • Homicídios estimados: 14
    • Registros oficiais: 11
    • Homicídios ocultos: 3 (21% do total)

    Como o Atlas chega a esses números

    O estudo parte dos dados brutos do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Nesse banco, mortes violentas devidamente esclarecidas aparecem classificadas como “agressão”, “intervenção legal” ou “operação de guerra”. Quando não há elementos suficientes para indicar se o óbito foi homicídio, suicídio ou acidente, a polícia técnico–científica muitas vezes lança mão da categoria “morte violenta por causa indeterminada” (MVCI).

    Para reclassificar parte dessas MVCIs, o Ipea utiliza técnicas de aprendizado de máquina. O algoritmo compara perfis da vítima, circunstâncias, local, sexo, faixa etária, horário e outros fatores com milhares de casos confirmados ao longo dos anos. Quando o padrão se aproxima do de um assassinato, o sistema calcula a probabilidade de o registro encobrir um crime doloso e, se o índice ultrapassa determinado limiar, o evento passa a ser contabilizado como “homicídio oculto”.

    Piora na identificação dos casos

    A diferença entre a taxa oficial e a taxa estimada de homicídios no Brasil foi de 3,3 pontos por 100 mil habitantes em 2024 — a maior desde 2014. Entre 2019 e 2024, o hiato vinha oscilando em torno de 2,8 pontos. O salto recente sugere, segundo os pesquisadores, perda de capacidade investigativa ou falhas na cadeia pericial, do atendimento inicial ao laudo final.

    Impacto para políticas públicas

    O subdimensionamento de homicídios tem efeito cascata: distorce diagnósticos de violência, afeta a distribuição de recursos estaduais e federais e dificulta a avaliação de programas de segurança. Municípios com estatísticas artificiais de baixa letalidade tendem a receber menos efetivo policial, investimento em inteligência e infraestrutura pericial.

    No Alto Tietê, especialistas ouvidos pelo Atlas veem relação direta entre carência de médicos legistas, demora em exames toxicológicos e a quantidade de laudos inconclusivos. Com parte das delegacias submetidas a regime de plantão reduzido, familiares também encontram obstáculos para acompanhar o inquérito, o que enfraquece a produção de provas.

    Cenário nacional

    O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, taxa de 20,1 a cada 100 mil habitantes. Ainda assim, metade das mortes se concentrou em apenas 99 cidades, que representam menos de 2% dos 5.570 municípios do país. Nos 1.578 municípios sem nenhum homicídio estimado, duas hipóteses se impõem: real ausência de violência letal ou falhas ainda maiores na classificação das causas de óbito.

    Entre as capitais, Salvador, Recife e Fortaleza figuram no topo da lista em número bruto de homicídios, enquanto Rio de Janeiro aparece com redução em relação a 2023. Contudo, quando se adicionam os casos ocultos, a queda fluminense perde parte do fôlego; 12% das mortes violentas cariocas podem ter sido subnotificadas.

    O que dizem as prefeituras e o Governo do Estado

    Questionadas sobre a proporção de mortes indeterminadas, as prefeituras do Alto Tietê afirmam aguardar a implantação de um protocolo estadual que integre laudos periciais ao SIM em tempo real. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, por sua vez, diz que a expansão do número de equipes do Instituto Médico Legal (IML) e a compra de novos equipamentos de balística estão em curso, mas não estabeleceu prazo para zerar o passivo de laudos inconclusivos.

    Entidades de direitos humanos defendem a formação de grupos de trabalho regionais, com delegados, promotores e defensores públicos, para revisar os casos rotulados como MVCI nos últimos cinco anos. A experiência já foi aplicada em partes do Nordeste, resultando na reclassificação de centenas de óbitos e na reabertura de inquéritos.

    Peso das estatísticas na vida das famílias

    A reclassificação de uma morte como homicídio não traz de volta a vítima, mas muda completamente o suporte estatal à família, que passa a ter acesso a programas específicos de assistência psicológica, indenizações e prioridade em políticas habitacionais. Além disso, o novo enquadramento processual eleva a pressão sobre a polícia investigativa, ampliando as chances de responsabilização dos autores.

    Próximos passos do estudo

    A equipe do Ipea planeja atualizar a base de dados a cada seis meses, permitindo acompanhar se as medidas anunciadas pelos estados resultarão em menor proporção de homicídios ocultos. Para 2027, está prevista a oferta de um painel online onde gestores municipais, pesquisadores e a sociedade civil poderão cruzar informações sobre perfil das vítimas, arma empregada, local do crime e tempo de tramitação dos inquéritos.

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    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.