O temor de ver a mais antiga mostra de cinema do país fora do calendário cultural chegou ao fim. Depois de uma semana de tensão e de um anúncio de cancelamento nunca antes cogitado em 59 edições, o governo do Distrito Federal efetuou o primeiro repasse – R$ 1,5 milhão – para a organização do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O dinheiro, que deve cair na conta até a próxima segunda-feira (17), resgata a viabilidade do evento previsto para acontecer de 11 a 19 de setembro, no Cine Brasília.
A quantia corresponde à metade dos R$ 3 milhões assegurados em contrato. Sem receber desde março, mais de 40 profissionais que tocam a produção terão, agora, prioridade no pagamento, segundo o diretor do festival, Henrique Rocha. “Saímos de uma frustração imensa para um alívio que nos devolve fôlego operacional”, disse ele à reportagem.
Pagamento afasta risco de cancelamento
Dinheiro chega após uma semana de impasse
A crise estourou na segunda-feira (10), quando representantes da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF) informaram, em reunião fechada, que o evento seria cancelado por falta de verbas. A notícia gerou forte reação de produtores, cineastas e entidades do setor audiovisual. Horas depois, a governadora em exercício Celina Leão (PP) recuou publicamente, determinando que a Secretaria de Economia encontrasse recursos emergenciais.
Mesmo com a declaração da chefe do Executivo local, a incerteza persistia: não se sabia de onde sairia o dinheiro nem quando ele chegaria. O depósito confirmado nesta quinta (15) é, portanto, a primeira prova concreta de que a decisão de manter o festival virou, de fato, ação administrativa.
Prioridade é quitar salários atrasados
Henrique Rocha afirmou que, logo que o valor estiver disponível, a folha de pagamento dos trabalhadores será regularizada. Entre os credores há técnicos de som, programadores de cinema, montadores de salas, profissionais de comunicação e curadores. “São pessoas que vêm se dedicando há cinco meses sem um real no bolso; é justo que o primeiro recurso vá direto para elas”, reforçou.
Os R$ 1,5 milhão também permitem retomar contratos com fornecedores de equipamentos, de serviços de acessibilidade e de transporte, todos suspensos desde julho. A organização prevê, contudo, que somente com a segunda parcela será possível arcar com prêmios, hospedagem e parte da infraestrutura do evento.
Festival previsto entre 11 e 19 de setembro
Programação será anunciada na próxima semana
Com a confirmação do caixa, o cronograma volta a andar. A equipe trabalha para fechar a seleção de longas e curtas-metragens que disputarão o troféu Candango – símbolo máximo da mostra. A lista de títulos escolhidos deve ser divulgada até o fim de agosto, junto ao calendário oficial de exibições, debates e oficinas.
Para a edição deste ano, a curadoria recebeu mais de 800 inscrições, número 12% maior que o de 2025 (último levantamento concluído). Além da mostra competitiva nacional, estão previstas sessões paralelas dedicadas a produções do Centro-Oeste e a filmes de escolas públicas de audiovisual.
Cine Brasília também enfrenta crise
Sede histórica do festival desde 1965, o Cine Brasília atravessa dificuldades semelhantes. Em julho, o espaço – último cinema de rua em atividade no DF e maior do país, com 614 lugares – correu o risco de fechar as portas por falta de repasses do mesmo contrato de gestão. Funcionários e fornecedores ficaram sem pagamento e alguns equipamentos de projeção chegaram a ser desligados para reduzir custos.

Imagem: Internet
Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1960, o prédio integra o conjunto arquitetônico tombado pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade. A escassez de recursos, portanto, ameaça não só o festival, mas parte relevante da memória cultural de Brasília.
Importância histórica do evento
Patrimônio cultural e resistência à ditadura
Criado ainda nos primeiros anos da capital, o Festival de Brasília é o mais longevo do país e um dos mais respeitados da América Latina. Apenas entre 1972 e 1974 ele deixou de ocorrer, em protesto contra a censura imposta pela ditadura militar. Nem mesmo a pandemia de covid-19 interrompeu o calendário: em 2020 e 2021, as sessões migraram para plataformas on-line.
Reconhecido como patrimônio imaterial do Distrito Federal desde 2007, o festival revelou cineastas como Vladimir Carvalho, André Novais Oliveira, Maria Augusta Ramos e Adirley Queirós. Seus debates sobre política, estética e inclusão influenciaram a formação de plateias e profissionais em todo o país.
O patrocínio master é do Banco de Brasília (BRB) desde 2024. A instituição, entretanto, vive a maior crise de sua história e não publica balanços há mais de um ano, após perdas com operações do Banco Master. O encolhimento do patrocinador colaborou para o aperto financeiro que quase inviabilizou a edição 2026.
Próximos passos do governo
Segunda parcela ainda sem data
A Secec-DF não informou quando liberará a segunda metade dos recursos. Internamente, fala-se em aguardar a aprovação de créditos suplementares na Câmara Legislativa. Caso a verba chegue apenas em setembro, a produção teme atrasos na montagem de estruturas externas, como o espaço de convivência e o palco de shows, tradicionalmente erguidos na área frontal do Cine Brasília.
Em nota, a pasta limitou-se a dizer que “dará continuidade às providências administrativas necessárias para a realização do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro” e que trabalha em “sintonia com a Secretaria de Economia”. Já a governadora Celina Leão garantiu, por meio das redes sociais, que “o maior evento de cinema brasileiro está mantido porque representa a história e o futuro da nossa cultura”.
Até que o dinheiro esteja integralmente disponível, a direção da mostra prepara um plano de contingência. Entre as alternativas estão reduzir a quantidade de sessões diárias, encurtar o tapete vermelho e negociar parcerias para hospedagem de convidados. “A missão agora é fazer um festival à altura da sua história, mesmo com a corda no pescoço”, concluiu Henrique Rocha.
