Justiça congela 54 contas para tentar devolver R$ 37 milhões a aposentada vítima de falso investimento

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    Uma idosa de 70 anos que viu suas economias evaporarem em uma plataforma de investimentos de fachada pode, enfim, recuperar parte do que perdeu. A Justiça do Rio Grande do Sul determinou o bloqueio de 54 contas bancárias e quase todos os criptoativos vinculados ao grupo que lhe arrancou R$ 37 milhões em apenas seis meses. A decisão, solicitada pela Delegacia Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos, mira pessoas físicas e jurídicas espalhadas por vários estados.

    Os bloqueios seguem o rastro da Operação Criptoabate, que apura estelionato eletrônico, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Segundo o delegado Eibert Moreira, responsável pelo caso, o volume de recursos encontrado até agora é suficiente para ressarcir integralmente a aposentada, embora a contabilidade final ainda dependa de novas quebras de sigilo e conversão de criptomoedas.

    Golpe de altos rendimentos: como a fraude convenceu a vítima

    A investigação mostra que os criminosos exploraram uma prática conhecida internacionalmente como “pig butchering” — expressão em inglês para “abate de porcos”, em alusão a vítimas “engordadas” com promessas de lucro fácil antes do golpe final. No Brasil, o esquema se sustentava em três pilares principais:

    • Um site com interface profissional que simulava carteiras de investimento e atualizava falsos saldos diariamente;
    • Uma “comunidade de estudos” em redes sociais, frequentada por perfis falsos que exibiam ganhos fictícios e incentivavam novos aportes; e
    • O uso intensivo de criptomoedas para esconder a origem do dinheiro, dificultar rastreamento bancário e acelerar remessas internacionais.

    Nesse ambiente criado sob medida, a aposentada transferiu quantias crescentes, seduzida por rendimentos superiores aos praticados pelo mercado tradicional. O golpe só foi percebido quando ela tentou resgatar o valor total e recebeu exigências de “taxas adicionais” para liberar o saque — indício clássico de fraude.

    Operação Criptoabate: prisões e monitoramento de R$ 30 bilhões

    A Polícia Civil descobriu que o golpe contra a idosa não foi um caso isolado. Auditores e peritos rastrearam transações suspeitas que superam R$ 30 bilhões em movimentação de contas ligadas ao mesmo núcleo criminoso. Até o momento, 140 potenciais vítimas foram identificadas em diversos estados.

    Mandados de prisão

    Dez prisões preventivas foram decretadas pela Justiça. Duas ocorreram na última quinta-feira (13) e outra na manhã de sexta (14), no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. O detido no aeroporto reside em Balneário Camboriú (SC) e, segundo os investigadores, controlava uma das instituições financeiras que davam suporte ao esquema.

    Para o delegado Moreira, as prisões são cruciais porque atacam o “braço financeiro” da quadrilha. “Nenhum golpe dessa magnitude sobrevive sem quem lave o dinheiro. Estancar esse canal é a melhor forma de proteger novas vítimas”, afirmou.

    Bloqueio imediato de valores

    O Judiciário autorizou o congelamento de saldos assim que os bancos foram notificados. Instituições tradicionais, fintechs e até exchanges de criptomoedas receberam ordens de bloqueio. O montante exato sob restrição judicial não foi detalhado para não comprometer a fase de sigilo, mas as autoridades estimam recuperar, pelo menos, a soma desviada da idosa.

    Estratégia de ocultação: criptomoedas no centro da lavagem

    Ao analisar a trilha digital, analistas forenses perceberam que os valores depositados eram rapidamente convertidos em bitcoin e outras criptomoedas, transferidos para carteiras no exterior e, depois, reinseridos no sistema bancário nacional por meio de empresas de fachada.

    A principal fachada identificada atendia pelo nome de TDASX, que prometia “alta performance em criptoativos” e cerrara as portas pouco depois do início das investigações. Perfis nas redes sociais, que se passavam por consultores certificados, exibiam prints de supostos ganhos diários, reforçando a ilusão de legitimidade.

    Como o dinheiro circulava

    1. Depósitos em reais feitos por transferência bancária ou PIX para contas de “corretoras parceiras”;
    2. Conversão quase instantânea em criptomoeda dentro de exchanges brasileiras;
    3. Envio para carteiras fora do país, especialmente na Ásia e na Europa Oriental;
    4. Retorno ao Brasil por meio de empresas que simulavam operações de importação, turismo e consultoria;
    5. Reinserção no circuito formal, já “limpo”, para adquirir imóveis, veículos de luxo e ativos de renda fixa.

    A tática dificulta a identificação do ponto exato onde o dinheiro de origem ilícita se mistura a recursos legítimos, mas não torna a investigação impossível: a Polícia Civil conta com cooperação internacional e tecnologia de análise de blockchain para seguir o rastro.

    Perfil das vítimas e recomendações de segurança

    Segundo o levantamento preliminar, a maioria dos lesados tem idade superior a 50 anos, alto poder aquisitivo e pouca familiaridade com investimentos digitais. A polícia reforça algumas orientações básicas para evitar fraudes semelhantes:

    • Desconfie de rendimentos que superem, de forma contínua, as taxas oferecidas por bancos e gestoras reconhecidas;
    • Verifique CNPJ, registro em órgãos reguladores e histórico dos gestores;
    • Jamais realize depósitos adicionais exigidos como condição para liberar saques já solicitados;
    • Mantenha registros de todas as telas de investimento, comprovantes de transferência e conversas com supostos consultores;
    • Na dúvida, procure aconselhamento de um profissional credenciado ou denuncie imediatamente à polícia.

    Embora as dicas pareçam básicas, o delegado ressalta que golpistas sofisticados investem pesado em marketing, simpatia e linguagem técnica para convencer até investidores experientes. “O criminoso de hoje se apresenta como especialista em finanças, fala em blockchain, mostra planilhas e gráficos falsos. É difícil perceber a farsa quando a promessa mexe com a ambição humana”, pontuou.

    Próximos passos da investigação

    A força-tarefa trabalha, agora, em três frentes principais: localizar os sete foragidos com prisão decretada, concluir o rastreamento patrimonial dentro e fora do país e formalizar acusações por estelionato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

    O Ministério Público deve oferecer denúncia ainda neste semestre, assim que a perícia confirmar quanto dos R$ 30 bilhões em circulação têm origem diretamente em golpes virtuais. Para a vítima que perdeu R$ 37 milhões, a esperança é que a recuperação do dinheiro aconteça antes do julgamento, graças às medidas cautelares de bloqueio.

    Ao mesmo tempo, as autoridades estudam pedir o sequestro de bens de luxo apreendidos, como esportivos importados, joias e imóveis em condomínios de alto padrão. Caso sejam comprovadamente adquiridos com recursos ilícitos, esses ativos poderão ser leiloados e o valor revertido às vítimas.

    Cooperação internacional

    Como parte das carteiras de criptomoedas está alojada em corretoras fora do Brasil, a Delegacia de Crimes Cibernéticos já acionou a Interpol e pediu apoio de agências de segurança na Ásia. A origem da modalidade do golpe, que floresceu em Laos, Camboja e Mianmar, exige acordos bilaterais para congelar ativos no exterior.

    “O rastreamento de criptomoedas não tem fronteiras, mas depende da boa vontade das plataformas em cumprir ordens de bloqueio. Felizmente, temos observado cada vez mais colaboração”, disse Moreira.

    Impacto social e alerta às autoridades reguladoras

    As cifras bilionárias ligadas ao caso chamaram a atenção de órgãos reguladores, que discutem formas de endurecer a supervisão sobre empresas que ofertam investimentos em criptoativos. Embora o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários já tenham alertas públicos sobre fraudes, especialistas avaliam que faltam mecanismos de fiscalização preventiva.

    Para o economista Anderson Farias, consultado pela reportagem, “a lacuna regulatória facilita o surgimento de esquemas que usam a promessa de retornos rápidos como isca”. Ele defende certificação obrigatória para plataformas que captem recursos de terceiros, além de campanhas educativas contínuas.

    Enquanto novas regras não entram em vigor, autoridades policiais e judiciárias seguem como última linha de defesa contra golpes de grande porte. O caso da aposentada gaúcha, apesar da dimensão extraordinária, serve de alerta: nenhum alto rendimento está livre de risco, especialmente quando a oferta chega antes da credibilidade.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.