A disputa pelo Estreito de Ormuz voltou ao centro das tensões entre Teerã e Washington. Um dia depois de Donald Trump afirmar em sua rede Truth Social que os Estados Unidos mantêm “controle total” da hidrovia e ergueram um “muro de aço” contra navios iranianos, o comandante da milícia Basij, Hossein Taeb, declarou que a passagem estratégica está “sob controle e administração do Irã”. As declarações, publicadas nesta quinta-feira (13) pela agência semioficial Fars, ampliam o atrito diplomático já agravado pela guerra ainda sem acordo definitivo de paz.
Taeb falou poucas horas depois de o ministro iraniano das Relações Exteriores reforçar que Teerã não aceitará “conversas diretas com os EUA” enquanto as forças americanas mantiverem o bloqueio naval. O impasse contraria o memorando assinado em junho, que previa a liberação de Ormuz e o fim das restrições ao comércio marítimo iraniano, condições consideradas essenciais para selar um cessar-fogo duradouro.
Escalada após trégua emperrada
O acordo de junho, celebrado como passo decisivo para encerrar o conflito iniciado no Oriente Médio, determinava a retirada simultânea de embarcações militares norte-americanas e a suspensão das ameaças iranianas a petroleiros na região. Sem avanço prático, o tráfego voltou a ser comprometido e cada lado passou a reivindicar soberania sobre o estreito, por onde trafegam navios que comercializam com ou a partir de portos iranianos.
A postagem de Trump, na quarta-feira (12), reacendeu a disputa. “Os EUA têm controle total sobre o Estreito de Ormuz. ACHO QUE VAMOS MANTÊ-LO!”, escreveu o republicano, classificando o bloqueio naval norte-americano de “um muro de aço”. O ex-presidente ainda chamou o Irã de “valentão do Oriente Médio” e afirmou que o regime está “dizimado”, sem poder militar nem recursos financeiros para reagir.
Resposta iraniana
Em Teerã, Hossein Taeb rebateu a narrativa. Segundo a Fars, o chefe da Basij destacou que “qualquer presença hostil será recebida com resposta imediata” e que “nenhuma força estrangeira dita regras em Ormuz”. Ele não detalhou manobras militares, mas a menção a “administração” sugere que Teerã mantém efetivo permanente na área, tanto para patrulha quanto para vigilância do tráfego comercial.
Já o ministro das Relações Exteriores reforçou a linha dura. Aos repórteres em Teerã, afirmou não haver “nenhum progresso” nas negociações com Washington e descartou contato direto enquanto permanecer o bloqueio que impede embarcações iranianas ou que tenham atracado em portos do país de cruzarem a foz do Golfo. “Não teremos conversas diretas com os EUA”, enfatizou.
Trump sustenta narrativa de supremacia
Na mesma mensagem em que reivindicou domínio sobre Ormuz, Trump reiterou que o Irã “não tem Marinha, não tem Força Aérea” e que “seus soldados restantes não recebem pagamento”. Ele descreveu a Guarda Revolucionária Islâmica como “dizimada e em fuga” e acusou Teerã de sustentar “notícias falsas” para maquiar uma inflação de 300% que, segundo ele, “só piora”.
O ex-presidente também afirmou que a liderança iraniana está “incerta, na melhor das hipóteses”, e reforçou que Washington “está vencendo” a guerra. A retórica mantém o tom adotado desde o início do conflito, quando os EUA passaram a bombardear alvos estratégicos iranianos em parceria com Israel.
Bloco naval contesta pactos anteriores
A presença intensificada de navios de guerra norte-americanos na entrada do estreito contraria diretamente o compromisso assumido no memorando de junho — documento celebrado na época como sinal de distensão. O texto previa a liberação imediata da hidrovia e a retirada gradual dos navios dos EUA, em troca da suspensão de qualquer interferência iraniana no tráfego comercial.
No entanto, fracassos sucessivos nas mesas de negociação prolongaram o conflito e reacenderam velhas desconfianças. Com o bloqueio reinstalado, petroleiros que pretendem atracar em terminais iranianos voltaram a relatar atrasos e inspeções forçadas pela Marinha norte-americana. Teerã, por sua vez, voltou a ameaçar retaliar caso embarcações consideradas “hostis” transitem sem autorização.
Consequências para a já fragilizada economia iraniana
Ao ser acusado de enfrentar inflação superior a 300%, o governo iraniano rebateu dizendo que o bloqueio é responsável por agravar o quadro econômico. Ministros argumentam que a paralisação do comércio marítimo impacta diretamente o ingresso de divisas e o abastecimento interno de insumos fundamentais.
Embora não divulgue números oficiais desde o início da guerra, Teerã admite dificuldades para pagar salários a parte dos militares, informação explorada por Trump em seu discurso. A falta de avanço diplomático contribui para a deterioração, expondo a população civil ao risco de escassez prolongada de produtos básicos.

Imagem: Mark Schiefelbein
Diplomacia congelada
A negativa enfática a “conversas diretas” retira, por ora, a possibilidade de diálogo franco entre os dois países. O canal indireto, mediado por países europeus, segue ativo, mas com poucos resultados práticos. Assessores próximos do chanceler iraniano afirmam que qualquer retomada dependerá do fim imediato do bloqueio e da garantia de livre navegação para embarcações que comercializam com o Irã.
Do lado americano, o discurso público permanece inalterado: Washington só aceitará relaxar sanções e retirar navios se Teerã demonstrar “compromissos verificáveis” de não hostilizar embarcações no Golfo, condição que o governo iraniano qualifica como “inadmissível”. Em consequência, a hidrovia permanece sob tensão, e cada declaração de ambos os lados se traduz em movimentos táticos no mar.
Basij ganha protagonismo interno
A escolha do comandante Hossein Taeb para rebater Trump não é casual. A Basij, força paramilitar ligada à Guarda Revolucionária, ganhou protagonismo desde que as tropas regulares acusaram restrições orçamentárias. O grupo assumiu tarefas de patrulha costeira e reforçou postos de observação ao longo da margem iraniana do estreito.
Internamente, a declaração de Taeb visa conter críticas de alas conservadoras que temem perda de soberania marítima. Ao afirmar que Ormuz está sob “administração” iraniana, o comandante tenta projetar imagem de força e de continuidade do projeto revolucionário, apesar das dificuldades financeiras detalhadas pelo próprio Trump.
Próximos passos incertos
Sem mudanças de postura anunciadas, analistas preveem prolongamento do impasse. Qualquer incidente envolvendo petroleiros ou navios de guerra no estreito poderá ampliar o conflito para além dos atuais limites, caso não haja um recuo calculado de pelo menos uma das partes. Enquanto isso, exportadores e importadores ligados ao Irã permanecem em alerta, à espera de sinal claro sobre a reabertura segura da hidrovia.
Nos bastidores, intermediários europeus tentam convencer Washington a flexibilizar a presença naval em troca de inspeções internacionais nos portos iranianos, proposta que Teerã, até o momento, não comenta publicamente. O cenário, porém, depende de uma convergência improvável entre a exigência iraniana de retirada total do bloqueio e a condição norte-americana de garantias de não agressão.
Efeito sobre a opinião pública
Ao reiterar que não aceitará conversas diretas, o governo iraniano aposta na narrativa de resistência para manter coesa a população diante das restrições. Já Trump, ao destacar a suposta fragilidade de Teerã, procura reforçar perante seu eleitorado a imagem de liderança firme que não cede diante do que chama de “valentões”.
Nas ruas de Teerã, relatos de agências locais mostram reações mistas: parte da população apoia a postura de confronto, enquanto outra parcela demonstra preocupação com a deterioração econômica e a possibilidade de novos confrontos armados.
Quadro permanece volátil
Em suma, o Estreito de Ormuz mantém-se como peça-chave no xadrez estratégico entre Irã e Estados Unidos. As declarações antagônicas desta semana indicam que nenhum dos dois governos está disposto, por ora, a ceder território — literal ou figurativamente. Até que o bloqueio seja suspenso ou um mecanismo confiável de escolta internacional seja adotado, a passagem continuará refém de anúncios belicosos, pressões econômicas e demonstrações de força naval.
