Um grito interrompeu a segunda-feira de Kelly Díaz. Minutos antes, a psicóloga havia deixado a filha numa pequena escola no sul de Cali; logo depois sentiu o chão tremer com violência inédita. De volta ao colégio, ela encontrou escombros, duas pessoas gravemente feridas e silêncio de sirenes. Entre os feridos estava a melhor amiga da filha, de apenas 10 anos, que morreria instantes depois em seus braços.
O colapso da escola Nuevo Edén tornou-se o retrato da devastação provocada pelo terremoto de 10 de agosto, que, segundo a prefeitura, já contabiliza 74 mortos e pelo menos 150 desaparecidos na terceira maior cidade da Colômbia. Sem equipes de emergência à vista, moradores transformaram-se em socorristas improvisados, carregando corpos, escorando paredes e buscando sobreviventes madrugada adentro.
Resgate improvisado em meio aos escombros
Díaz descreve que o prédio — onde estudavam cerca de 14 crianças distribuídas em quatro ou cinco salas — ruiu parcialmente segundos após o abalo. “Corri para confirmar se minha filha estava bem. Depois verifiquei pulso e respiração dos outros alunos”, relembra. A colega da menina e a professora jaziam sob pedaços de teto; ambas apresentavam sinais vitais frágeis.
Com treinamento básico em primeiros socorros, a psicóloga pressionou ferimentos, estabilizou cabeças e gritou por macas que não chegavam. “As ambulâncias demoravam porque a tragédia se espalhava por toda a cidade. Entendemos que, se esperássemos, mais vidas se perderiam”, conta. A criança ferida agonizou apresentando leves movimentos antes de sucumbir. Segundos depois, a mãe da garota chegou ao local e presenciou a cena.
“Somos nós que carregamos os corpos”
Sem comando central, pais, vizinhos e comerciantes formaram cadeias humanas para retirar destroços. Tábua a tábua, removeram o que sobrara das paredes de alvenaria. “Os gestores da escola estavam em choque. Coube aos voluntários abrir caminho até que cada família pudesse resgatar seus próprios filhos”, relata Díaz. Ela e outros moradores transportaram a professora e a aluna sem vida para fora do terreno, improvisando lonas como macas.
À noite, o trabalho intensificou-se. Com o ruído urbano reduzido, qualquer batida, suspiro ou vibração podia indicar sobreviventes. Lanternas de celulares, motosserras emprestadas e a força dos braços guiaram as buscas. “A adrenalina não deixa a gente sentir fome nem cansaço. O corpo entende que a vida precisa prevalecer”, resume a psicóloga.
Balanço de danos na capital do Vale do Cauca
O prefeito Alejandro Éder divulgou que mais de 50 edificações desabaram total ou parcialmente em Cali. Outras dezenas foram esvaziadas por risco estrutural. Com 265 mortos confirmados em todo o país, a cidade concentra a maior parte das perdas, pressionando equipes de defesa civil e bombeiros.
A prioridade oficial permanece a localização de desaparecidos. Ruas inteiras do centro histórico estão interditadas, enquanto máquinas pesadas removem lajes retorcidas. Em bairros periféricos, o aparato estatal chega de forma desigual, o que amplia o protagonismo de populares.
Reforços que chegam de fora
Na madrugada de terça (11), Juan Andrés Carabalí percorreu 70 km desde o município vizinho de Suárez com um grupo de amigos. “Não dormimos. Entre tremores secundários e ameaça de novos desabamentos, o trabalho precisa ser interrompido a todo instante, mas cada minuto pode significar uma vida”, explica. Com experiência em mineração artesanal, ele orienta cortes precisos em lajes para evitar vibrações que comprometam bolsões de ar onde vítimas possam estar.
Carabalí se diz motivado pelo mesmo impulso que move Díaz: “É o povo que salva o povo”. A frase virou mantra entre voluntários espalhados por ginásios, praças e pátios de escolas transformados em abrigos temporários. Lá, além de remover destroços, distribuem água, alimentos e colchões improvisados.

Imagem: Internet
Rede de solidariedade compensa a demora oficial
A lacuna de pessoal especializado é notória em áreas menos impactadas à primeira vista. No entorno da escola Nuevo Edén, quarteirões parecem intactos; assistência institucional, por isso, priorizou bairros visivelmente danificados. “Só ali percebemos o tamanho da dor invisível”, afirma Díaz, enquanto distribui lanche para crianças impedidas de voltar para casa.
Psicólogos voluntários também oferecem escuta a sobreviventes. Transtornos de estresse agudo são relatados em grande parte das famílias que aguardam notícias de parentes soterrados. A Secretaria de Saúde montou postos móveis, mas profissionais admitem limitação frente ao volume de pedidos.
Madrugada decisiva
As noites seguintes ao terremoto devem ser cruciais. Equipes especializadas utilizam sensores acústicos, câmeras térmicas e cães farejadores. Moradores seguem abrindo clareiras manuais, cientes de que a janela de sobrevida de vítimas presas sob entulho costuma diminuir drasticamente após 72 horas.
Díaz, que alterna turnos de resgate com momentos ao lado da filha, diz que ainda não houve tempo para chorar. “Talvez o luto venha quando a sirene calar, quando não houver mais quem buscar. Até lá, a cidade inteira funciona num mesmo coração acelerado.”
O que vem pela frente
O governo colombiano anunciou a liberação de fundos emergenciais para reconstrução de infraestruturas críticas, enquanto engenheiros avaliadores percorrem imóveis condenados. Ainda não há prazo para retomar aulas no Nuevo Edén nem em outras dez escolas danificadas. Pais cobram transparência sobre critérios de inspeção, temendo réplicas ou colapsos tardios.
Enquanto isso, a solidariedade pulsa: doações de água, alimentos não perecíveis e medicamentos básicos chegam a postos da Defesa Civil. Grupos religiosos montam cozinhas coletivas; artistas de rua organizam apresentações lúdicas para distrair crianças em abrigos. A rotina de emergência expõe desigualdades históricas, mas também revela laços comunitários raramente vistos em tempos ordinários.
Para Kelly Díaz, o futuro imediato resume-se a seguir cavando, acolher mães e proteger a própria filha. Sobre a menina que se foi, guarda a lembrança do último sorriso antes do tremor: “Quando a abracei, entendi que, em meio a tanta destruição, nosso compromisso é lutar para que outras crianças continuem vivas”.
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