O furto de cabos de cobre em Belo Horizonte ganhou novo capítulo com a prisão de 22 pessoas que, segundo a Polícia Militar, invadiram um edifício abandonado da Oi na avenida Prudente de Morais, bairro Santo Antônio, para arrancar fios, cabos e equipamentos eletrônicos. A ação criminosa, em curso desde o fim de julho, culminou em um incêndio de grandes proporções no último domingo (9), quando uma mulher foi resgatada em estado grave por inalação de fumaça e um prédio vizinho precisou ser esvaziado.
As detenções expõem não apenas o esquema de invasões e receptação, mas também a precariedade do imóvel – alvo de questionamentos do Ministério Público, que promete acionar judicialmente a operadora de telefonia. Enquanto isso, a Polícia Civil investiga se o incêndio começou durante a queima de cobre, prática usada para retirar o isolamento plástico dos fios e facilitar a venda clandestina.
Como funcionava o esquema dentro do prédio abandonado
De acordo com a Polícia Militar, grupos de até quatro pessoas entravam no prédio durante a madrugada, serravam conduítes e arrancavam cabos à força. Moradores da região relataram à corporação que veículos estacionavam em horários alternados na porta do imóvel para recolher o material subtraído. Na maioria das vezes, os suspeitos permaneciam poucos minutos no local antes de sair com sacos cheios de fios.
Os boletins de ocorrência indicam que os invasores já chegavam ao edifício com receptadores certos para a compra do cobre. Informações sobre esses compradores – considerados peças centrais na cadeia criminosa – foram repassadas à Delegacia de Furto e Roubo. A intenção é mapear ferros-velhos e intermediários que abastecem o mercado paralelo.
Incêndio expôs riscos à vizinhança
O ponto alto da crise aconteceu na madrugada de domingo (9). Sete viaturas e 25 militares do Corpo de Bombeiros levaram mais de duas horas para controlar as chamas que avançaram por três andares do prédio. Testemunhas viram chamas próximas a um colchão, reforçando a hipótese de que o fogo começou durante a queima clandestina de fios.
A fumaça densa obrigou a evacuação preventiva de um pequeno edifício residencial ao lado, com seis apartamentos. Uma mulher de 32 anos, encontrada desacordada no segundo pavimento, foi encaminhada ao Hospital João XXIII, onde permanece em observação por lesões nas vias respiratórias.
Cobre caro e sem rastreabilidade alimenta furtos
O diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Condutores Elétricos (Sindicel), Ennio Rodrigues, explica que o cobre é negociado internacionalmente a cerca de US$ 14 mil por tonelada. No mercado informal, o quilo chega a R$ 60 em ferros-velhos que não exigem documentação. “Enquanto houver comprador, o furto compensa”, resume o executivo.
Na mesma Região Centro-Sul, câmeras de segurança flagraram quatro homens queimando cabos em área de mata do bairro Luxemburgo. A técnica, embora rudimentar, remove a capa plástica sem comprometer o metal e dificulta a identificação de origem, já que desaparecem marcas de concessionárias ou de telecomunicações.
Impacto direto em saúde, trânsito e transporte
- Em 2022, o hospital Santa Casa teve de adiar sessões de radioterapia após o sumiço de cabos que alimentavam equipamentos oncológicos.
- Dois anos depois, pacientes do Instituto de Oncologia do Hospital Felício Rocho passaram por transtorno semelhante.
- Cruzamentos importantes da capital já ficaram sem semáforos devido à retirada dos fios de sinalização.
- No mês passado, diversas estações do BRT Move na avenida Antônio Carlos precisaram ser fechadas temporariamente.
- A Cemig contabilizou, em 2025, o furto de quase seis quilômetros de cabeamento, com prejuízo superior a R$ 1 milhão.
A soma dos episódios pressiona empresas e poder público a reforçar segurança em subestações, galerias subterrâneas e prédios ociosos.
MP quer responsabilizar a Oi pelo estado do imóvel
Após o incêndio, o Ministério Público de Minas Gerais comunicou que ingressará com ação civil para obrigar a Oi a cercar, vigiar ou dar destinação ao prédio. O entendimento é que a situação de abandono favorece crimes patrimoniais e coloca em risco a vizinhança. A operadora ainda não se manifestou publicamente.

Imagem: material furtado prédio BH
Especialistas em direito urbanístico lembram que o Estatuto da Cidade prevê sanções para proprietários que não garantem a função social da edificação. Entre as penalidades, estão multa progressiva, desapropriação e até leilão do bem.
Legislação municipal mira ferros-velhos, mas fiscalização engatinha
Desde 2011, Belo Horizonte tem lei que obriga a comprovação da procedência de materiais metálicos recicláveis. A norma só foi regulamentada em 2023 e, no ano seguinte, passou a citar explicitamente fios de cobre, placas eletrônicas e equipamentos de telecomunicações. Para cumprir a regra, empresas precisam guardar notas fiscais, fotografias dos lotes e relatórios de compra e venda.
Mesmo assim, a prefeitura enfrenta dificuldades para fiscalizar os mais de 600 estabelecimentos do segmento. “Precisamos ampliar equipes e integrar dados com a polícia”, admite um servidor do setor de Posturas, sob reserva. Enquanto o controle não avança, os receptadores mantêm portas abertas e transações em dinheiro vivo.
Sindicel defende cerco ao comprador
Para o Sindicel, o caminho mais curto para reduzir furtos é sufocar a demanda. “Monitorar grandes obras, concessionárias e obras públicas ajuda, mas se o ferro-velho pedir nota, o ladrão perde o cliente”, afirma Ennio Rodrigues. O sindicato propôs ao município a criação de um cadastro digital que permita consultar, em tempo real, se o material oferecido tem origem lícita.
Próximos passos da investigação
A Delegacia de Furto e Roubo pretende concluir nas próximas semanas o inquérito que apura a atuação dos 22 presos. Parte deles já tinha passagens por furto, receptação ou dano ao patrimônio. A polícia não descarta novos mandados de prisão contra compradores do cobre. Perícias também avaliarão se a conduta da Oi configura omissão que favoreceu o crime.
Enquanto isso, a Defesa Civil monitora a estrutura do prédio após o incêndio. Há risco de queda de forros e lajes nos andares superiores, o que mantém interditada parte da calçada na avenida Prudente de Morais. Moradores cobram solução rápida: “Não podemos ficar reféns de um imóvel fantasma que traz perigo e criminalidade”, resume um síndico do edifício vizinho.
Prevenção e responsabilidade compartilhada
A escalada dos furtos de cabos de cobre, agora associada a incêndios e prisões em série, evidencia a necessidade de políticas coordenadas. Governo, empresas de infraestrutura e compradores de sucata terão de dividir esforços para proteger equipamentos públicos, garantir rastreabilidade do metal e oferecer segurança a quem vive próximo a prédios abandonados.
Até que a cadeia do cobre seja efetivamente vigiada – do poste ao ferro-velho –, especialistas alertam que serviços de saúde, mobilidade urbana e energia seguirão vulneráveis, com prejuízos que extrapolam o valor de mercado do metal e atingem diretamente a rotina dos cidadãos.
