O mercado de trabalho para quem tem entre 15 e 24 anos voltou a se deteriorar no mundo inteiro. Relatório divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) registra que, em 2025, 67 milhões de jovens estavam sem ocupação, o equivalente a 12,4% da força de trabalho nessa faixa etária. A alta interrompe a trajetória de recuperação verificada logo após a fase mais aguda da pandemia de Covid-19.
Para a agência da ONU, o quadro já seria preocupante pelos números atuais, mas pode ficar ainda mais difícil à medida que a inteligência artificial substitui ou transforma funções intermediárias – tradicional porta de entrada para recém-formados. A OIT calcula que 6,1% dos postos ocupados por jovens encontram-se em áreas altamente expostas às novas tecnologias.
Recuperação pós-pandemia perde fôlego
Depois do salto no desemprego juvenil em 2020, o indicador vinha cedendo lentamente até 2023. Em 2024, porém, oscilações na economia global – provocadas por crescimento mais fraco, tensões geopolíticas e criação insuficiente de vagas – inverteram a curva. A taxa passou de 12,3% em 2023 para 12,4% em 2025, o primeiro avanço desde o auge da crise sanitária.
O retrocesso não se limita ao volume de vagas. A qualidade também piorou: empregos temporários, mal remunerados ou sem proteção social aumentaram, elevando o número de jovens que desistiram de procurar trabalho ou que migraram para a informalidade.
Mais de um quinto fora de estudo ou trabalho
O relatório mostra que 20% da população entre 15 e 24 anos não estuda, não trabalha nem participa de treinamento profissional – o fenômeno conhecido pela sigla em inglês NEET. São mais de 257 milhões de pessoas em situação de ociosidade total, percentual ligeiramente superior ao de 2023.
Impacto regional: Estados Árabes lideram índices
Efeitos concentrados em mercados árabes e africanos
Entre as 11 sub-regiões analisadas, oito registraram avanço do desemprego juvenil de 2023 para 2025. O pior cenário continua nos Estados Árabes, onde o índice alcançou 26,2%, seguido pelo norte da África, com 22,6%. Conflitos, fragilidade institucional e transições econômicas lentas explicam boa parte da dificuldade para gerar ocupações estáveis nesses países.
Pressão também em economias avançadas
As maiores economias não escaparam da piora. Na América do Norte, a taxa subiu de 8,3% para 9,8% em dois anos. Já na Europa setentrional, meridional e ocidental, o indicador estacionou em torno de 15%, refletindo desaceleração do comércio internacional e custos de energia elevados.
Sumiço de vagas de qualificação intermediária
Funções de escritório, vendas e tarefas industriais que exigem formação média sempre funcionaram como primeiro degrau profissional. Agora, essas posições encolhem, obrigando recém-egressos do ensino médio ou da universidade a competir por um número menor de oportunidades.
Porta de entrada cada vez mais estreita
A OIT destaca que o fenômeno prolonga o tempo de espera até o primeiro emprego e aumenta a frustração entre jovens qualificados. Sem experiência prévia, muitos acabam aceitando postos informais ou subempregos, agravando a precarização.

Imagem: Internet
Inteligência artificial amplia incertezas
Embora ainda exista debate sobre o efeito líquido da IA no futuro do trabalho, a organização vê riscos significativos no curto prazo. Entre os trabalhadores de 15 a 29 anos, 6,1% atuam em ocupações altamente expostas à automação inteligente. Se apenas 10% desses postos desaparecerem, cerca de 5,6 milhões de jovens ficariam sem emprego ou precisariam migrar de carreira, estima a OIT.
Impacto maior em países de alta renda
A maior parte dos empregos vulneráveis localiza-se em nações ricas, onde operações de back-office, suporte administrativo e atendimento estão mais digitalizadas. Ainda assim, o estudo lembra que, em economias em desenvolvimento, a falta de rede de proteção social obriga muitos jovens a aceitar rapidamente trabalhos informais – cenário que concentra quase 90% da mão de obra juvenil em países de renda baixa e média-baixa.
Informalidade reforça desigualdades
Sem carteira assinada, seguro-desemprego ou acesso pleno à previdência, o trabalhador jovem fica mais exposto a choques econômicos. A OIT sublinha que a informalidade perpetua ciclos de baixa produtividade e renda, reduzindo a capacidade de poupar, empreender ou continuar estudando.
Apesar da expansão de áreas altamente qualificadas – como ciência, engenharia, saúde e tecnologia da informação –, a transição até esses postos exige tempo e investimento que nem todos podem arcar. Assim, sem políticas públicas robustas de capacitação, o hiato entre oferta e demanda de trabalho tende a se alargar, alimentando novas ondas de desemprego e subocupação.
Para especialistas ouvidos pela agência, medidas combinadas de estímulo à economia, programas de qualificação alinhados às competências digitais e fortalecimento das redes de proteção social são cruciais para evitar que uma geração inteira fique marcada pela exclusão produtiva.
A íntegra do relatório da OIT está disponível no portal da organização e servirá de base para debates em fóruns multilaterais nas próximas semanas.
