Queda histórica de casos de dengue em Ribeirão Preto contrasta com incidência ainda alta em Franca

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    Ribeirão Preto encerrou julho com uma redução de 98% nos registros de dengue em relação ao ano passado, mas a boa notícia perde força ao se olhar para o cenário regional: Franca, a 90 quilômetros de distância, apresenta uma incidência da doença cinco vezes superior. O contraste, revelado pelos dados oficiais das secretarias municipais de Saúde, expõe tanto o efeito temporário da imunidade coletiva em Ribeirão quanto a vulnerabilidade de Franca, que enfrenta surtos mais recentes e menos abrangentes de infecção pelos sorotipos do vírus.

    Na prática, enquanto Ribeirão contabilizou 363 confirmações entre janeiro e julho deste ano (49,6 casos por 100 mil habitantes), Franca somou 927 registros no mesmo período, elevando a taxa local a 253,6 por 100 mil moradores. Especialistas afirmam que a queda acentuada não autoriza relaxamento: os índices de infestação do mosquito Aedes aegypti subiram em Ribeirão, e a circulação de novos sorotipos pode reacender a epidemia já no próximo verão.

    Redução sem alívio: menos doentes, mais mosquitos

    Indicadores de infestação em alta

    Levantamento da Vigilância Epidemiológica mostra que, apesar do recuo drástico dos casos, o Índice de Breteau em Ribeirão passou de 1,1 para 2,23 entre julho de 2025 e julho de 2026 — quase o dobro do limite considerado de risco. O Índice Predial, que mede a proporção de imóveis com larvas, saltou de 1,39 para 1,70 no mesmo intervalo. Para Luzia Márcia Romanholi Passos, diretora do setor, o dado reforça que “o risco é contínuo” e depende de vigilância permanente da população e do poder público.

    Imunidade coletiva: barreira temporária

    O recuo expressivo em Ribeirão encontra explicação nos surtos de 2024 e 2025, quando os sorotipos 1 e 2 circularam de forma intensa. “Muitas pessoas já tiveram contato com esses vírus e criaram memória imunológica”, observa Luzia. O pediatra Homero Antônio Rosa Júnior, de Franca, concorda: “Quem adoeceu recentemente tem proteção para o mesmo subtipo, mas continua suscetível a outros”. Tanto ele quanto Luzia citam o retorno do sorotipo 3 em algumas regiões do país como sinal de alerta para o próximo ciclo de chuvas.

    Por que Franca continua na zona de maior risco

    Epidemias mais tardias e clima ameno

    Historicamente, Franca registrava números modestos de dengue graças ao inverno mais rigoroso da Serra da Canastra, que limita a proliferação do Aedes. O cenário mudou a partir de 2021, quando a cidade passou a acumular surtos consecutivos, mas ainda sem atingir a mesma amplitude de Ribeirão. “O município teve uma defasagem de tempo; nossa população não criou a mesma barreira imunológica”, explica Homero.

    Desafios de controle domiciliar

    A Secretaria Municipal de Saúde de Franca mobiliza agentes em visitas casa a casa, mutirões de limpeza, notificações de terrenos abandonados e campanhas escolares. Mesmo assim, parte significativa dos imóveis permanece sem vistoria por recusa de moradores ou ausência no momento da visita. “Essa lacuna impede que se encontre e elimine criadouros ocultos, favorecendo a manutenção da circulação viral”, pondera o pediatra.

    Vacinação: potencial inexplorado

    Público restrito, impacto limitado

    O Sistema Único de Saúde oferece atualmente a vacina apenas para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Para Homero, a faixa etária escolhida tem baixo peso nas internações e óbitos. “Para mudar a história da dengue, precisaríamos imunizar quem mais lota os hospitais — adultos acima de 30 anos, especialmente idosos”, avalia.

    Meta de cobertura acima de 80%

    Na visão dos especialistas, uma vacinação em massa, atingindo pelo menos 80% da população, seria capaz de reduzir a circulação viral e suavizar os picos sazonais. Enquanto essa ampliação não ocorre, eles defendem que o foco continue na eliminação semanal de criadouros e na prontidão da rede de saúde para atendimento rápido a casos suspeitos.

    Ações municipais de combate e perspectivas

    Esforço concentrado em Ribeirão Preto

    • 313.760 imóveis vistoriados no primeiro semestre.
    • 14.468 focos do mosquito eliminados.
    • Mais de 17 toneladas de materiais recolhidos.
    • 1.300 estações disseminadoras de larvicida instaladas em pontos estratégicos.

    Apesar do volume de trabalho, Luzia admite que a eficácia depende da adesão popular: tampa mal colocada, calha entupida ou pratinho de planta esquecido bastam para servir de criadouro.

    Estrategi​a diversificada em Franca

    A prefeitura direciona equipes para bairros com maior densidade larvária, utiliza arrastões de limpeza e prioriza ações educativas em escolas e meios de comunicação. O município ainda faz avaliações trimestrais de densidade para realocar recursos conforme o avanço do mosquito.

    O que esperar para o próximo verão

    A combinação de mais mosquitos em Ribeirão, população parcialmente protegida e possível entrada do sorotipo 3 preocupa infectologistas. Com a volta das chuvas, aumenta a oferta de água parada em calhas, pneus e caixas d’água destampadas. “Conhecimento, atitude e prática precisam andar juntos”, resume Luzia. A orientação é remover ou proteger potenciais criadouros toda semana, não apenas em mutirões pontuais.

    Risco de novos picos

    A tendência de queda pode se reverter rapidamente se a vigilância afrouxar. Em 2025, Ribeirão enfrentou 21.400 casos; bastou a combinação de clima favorável e baixa eliminação de criadouros para o mosquito explodir. “Nada impede que 2027 repita o cenário se deixarmos a guarda baixa”, alerta Homero.

    Integração regional como saída

    Autoridades de saúde avaliam que a proximidade entre os municípios requer planejamento conjunto: compartilhamento de informações sobre sorotipos circulantes, campanhas regionais de mídia e logística integrada de vacinação quando mais doses estiverem disponíveis. A experiência de Ribeirão em campanhas porta a porta, por exemplo, pode ser replicada em Franca, enquanto o histórico de frio intenso de Franca pode oferecer pistas sobre sazonalidade útil para Ribeirão.

    Saiba como reduzir o risco em casa

    1. Esvazie e lave semanalmente recipientes que acumulam água, como baldes e caixas d’água.
    2. Mantenha garrafas e pneus protegidos da chuva.
    3. Limpe calhas e ralos externos com frequência.
    4. Use telas em janelas e repelente, sobretudo ao amanhecer e ao entardecer.
    5. Permita a entrada de agentes de saúde devidamente identificados.

    Simples rotinas domésticas, quando adotadas em grande escala, definem o sucesso ou fracasso do controle da dengue — independentemente de estatísticas animadoras ou da chegada de novas vacinas.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.