Uma tinta feita apenas de jenipapo e carvão, aplicada sobre a pele em traços que atravessam séculos de tradição, passou a chamar atenção de quem circula pelo Parque de Exposições da Fazendinha, em Macapá. É ali que o artista indígena Eddír Iaparrá Karipuna, 28 anos, apresenta, pela primeira vez na capital, os grafismos de seu povo depois de enfrentar uma jornada de mais de 600 quilômetros desde a Terra Indígena Uaçá, em Oiapoque, extremo Norte do Amapá.
O deslocamento, que combinou horas de estrada e trajeto fluvial até o interior da comunidade, não foi obstáculo para o jovem criador. “Representar meu povo não tem preço”, resume Eddír, que considera a participação na Expofeira 2026 um ato de resistência cultural. A presença dele amplia a visibilidade das artes originárias num evento que, até 16 de agosto, espera receber milhares de visitantes.
A jornada de Eddír até Macapá
A viagem começou antes do amanhecer na comunidade Manga, onde o artista vive. De lá, ele percorreu um trecho fluvial de cerca de 12 horas até alcançar a margem da BR-156. Na sequência, mais de 270 quilômetros de rodovia o separavam de Macapá. Para garantir que todo o material de trabalho chegasse intacto — pigmentos, pincéis de fibra natural e matrizes de desenhos —, Eddír dividiu a bagagem entre mochila e balaios trançados.
Mesmo habituado a apresentações em aldeias vizinhas, ele reconhece que trazer a arte Karipuna à capital muda a escala da mensagem. “Nem todo mundo pode empreender essa viagem. Então, quando eu venho, trago comigo a voz de quem ficou”, conta.
O significado dos traços Karipuna
Mais do que elementos decorativos, os grafismos funcionam como linguagem identitária. Cada padrão geométrico comunica a relação do clã com a floresta, a espiritualidade e histórias de antepassados. Um dos desenhos mais requisitados é o “caracol”, cujas linhas espiraladas simbolizam proteção contra energias negativas e servem de amuleto para atrair boas colheitas e sorte em viagens.
“Quando pinto alguém, estou concedendo uma espécie de bênção”, explica o artista. A tinta é preparada no próprio estande: o jenipapo é ralado, misturado às cinzas de carvão vegetal e repousa por algumas horas até alcançar o tom escuro desejado. O resultado é uma coloração temporária, que desaparece naturalmente em cerca de 15 dias, sem agredir a pele ou o ambiente.
Pintura como escudo e pertencimento
Entre os Karipuna, a prática vai além da estética. Traçar linhas sobre o corpo é declarar de qual grupo se faz parte, reforçar laços comunitários e, em ocasiões de festa ou luto, marcar o estado de espírito coletivo. “É nossa armadura invisível”, define Eddír, enquanto retoca um zigue-zague que representa o curso de um rio.
Repercussão entre os visitantes
No primeiro fim de semana de Expofeira, a pernambucana Diana Pimentel foi uma das que pararam diante do estande. “Sempre quis uma tatuagem, mas morro de medo de agulha”, confidencia a turista, exibindo o antebraço recém-pintado. Para ela, a vivência deu novo sentido ao passeio: “Levo comigo um pouco da cultura daqui, que é muito mais presente do que na minha região”.

Imagem: Internet
A fila para experimentar o grafismo cresce sobretudo no início da noite, horário em que famílias e grupos de estudantes se concentram na feira. Crianças se encantam com o processo artesanal; adultos, com a simbologia. Muitos pedem que o artista desenhe o próprio nome em Karipuna, convite que ele educadamente recusa. “Nossa escrita é a imagem. Nomes são invenção de fora”, explica.
Povos originários em destaque na feira
O espaço que abriga Eddír reúne representantes de diferentes etnias amapaenses, entre elas Galibi-Marworno, Palikur, Tiriyó, Kaxuyana, Wayana e Apalai. O visitante encontra brincos feitos de penas coloridas, cestos trançados com cipó e sementes, além de instrumentos musicais como maracás e flautas. A curadoria, organizada em parceria com a Fundação Estadual de Cultura, priorizou a venda direta para garantir renda plena às comunidades.
Economia criativa e autonomia
Segundo a coordenação do pavilhão indígena, o volume de negócios na última edição da feira superou 120 mil reais. A expectativa deste ano é ultrapassar a marca graças ao fluxo turístico associado às férias escolares na região. Para Eddír, cada real movimentado tem um destino claro: “Volta para a aldeia em forma de alimento, material escolar e manutenção de rituais tradicionais”.
Programação segue até 16 de agosto
Iniciada no sábado, 8 de agosto, a Expofeira 2026 oferece entrada gratuita e abre os portões diariamente às 17h. Além do pavilhão indígena, o público pode conferir mostra agropecuária, competições de rodeio e shows de artistas locais. A segurança conta com efetivo da Polícia Militar e monitoramento por câmeras.
Quem pretende conhecer os grafismos Karipuna deve chegar cedo: o atendimento de Eddír vai até as 22h ou enquanto durar a tinta do dia. “Trabalho respeitando o ritmo da natureza. Se o jenipapo acabar, só amanhã”, avisa. O limite, no entanto, não diminui o entusiasmo. Enquanto desenha, ele conversa, canta trechos de composições próprias em língua materna e convida visitantes a aprender expressões básicas.
Legado que se renova
A poucos metros do estande, um painel exibe fotografias de anciãos Karipuna gravados em feiras passadas. Para o jovem artista, essas imagens reforçam a continuidade de um legado que se reinventa a cada geração. “Eles abriram o caminho; agora, nossa missão é mantê-lo vivo e mostrar que a cultura não está presa ao passado, mas pulsa no presente”, conclui, antes de traçar novas linhas de jenipapo sobre o próximo interessado.
