Após ameaça de cancelamento, Governo do DF garante verba e confirma Festival de Brasília para setembro

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    A 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, agendada de 11 a 19 de setembro, sofreu uma virada dramática em menos de 24 horas. Horas depois de a equipe do evento ouvir da Secretaria de Cultura que não haveria dinheiro público este ano, a governadora em exercício, Celina Leão, anunciou nas redes sociais que determinou à Secretaria de Economia o repasse dos recursos necessários.

    A decisão afasta, por enquanto, o risco de um cancelamento inédito por falta de verba em seis décadas de existência. O festival, criado em 1965 e considerado patrimônio imaterial do Distrito Federal, só deixou de ocorrer entre 1972 e 1974, em protesto contra a ditadura militar, e permaneceu ativo até mesmo durante a pandemia de Covid-19.

    Reviravolta após ameaça de cancelamento

    No início da segunda-feira, representantes da organização social responsável pelo festival foram recebidos na Secretaria de Cultura e saíram do encontro com a informação de que “não havia previsão orçamentária” para 2026, nem para cobrir compromissos já assumidos em 2025. O comunicado soou como pré-anúncio de cancelamento, pois os valores referentes à edição deste ano já estavam atrasados desde maio.

    A repercussão interna foi imediata: mais de 40 profissionais envolvidos na produção relataram, ainda pela manhã, novos atrasos de pagamento e paralisaram etapas de pré-seleção dos filmes. No fim da tarde, contudo, Celina Leão publicou no X (antigo Twitter) que o evento está “confirmado” e que “os recursos serão providenciados”. A postagem, embora sem detalhar a fonte orçamentária, impôs novo rumo à negociação.

    Impasses financeiros e salários em atraso

    De acordo com a organização do festival, a dívida do Governo do Distrito Federal (GDF) soma repasses pendentes desde maio, atingindo fornecedores, técnicos, curadores e demais colaboradores. O valor não foi divulgado oficialmente, mas funcionários ouvidos relatam que parte da equipe acumula três folhas salariais em aberto.

    A Secretaria de Cultura admitiu a existência dos atrasos em nota divulgada na semana passada, afirmando que “mantém diálogo com a organização do evento e as áreas competentes para avaliar as condições orçamentárias e financeiras”. Até a confirmação da governadora, porém, não havia garantia de cobertura integral do buraco financeiro.

    BRB em crise e impacto no patrocínio

    Em 2024, o Banco de Brasília (BRB) assumiu o posto de patrocinador máster do Festival de Brasília, mas a instituição pública enfrenta a pior crise de sua história após operações malsucedidas com o Banco Master. Sem publicar balanços há um ano, o BRB reduziu ações promocionais e reviu contratos culturais. A turbulência na estatal, segundo fontes internas, limitou a complementação de recursos que costumava aliviar o caixa do festival.

    Ao todo, o BRB respondia por quase 40% do orçamento da edição anterior. Com o freio nos desembolsos, as despesas para 2026 ficaram praticamente a cargo dos cofres distritais, pressionando ainda mais a Secretaria de Cultura em meio a contenções impostas pela área econômica.

    Cine Brasília também sob pressão

    A crise se estende ao próprio Cine Brasília, sede histórica do festival e último cinema de rua em funcionamento contínuo no DF. Em julho, o espaço — projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1960 — informou risco de fechar as portas por falta de repasses. Funcionários e fornecedores ficaram sem receber e a manutenção da sala, que detém o maior auditório dedicado exclusivamente ao cinema no país, foi parcialmente paralisada.

    O eventual fechamento do Cine Brasília representaria impacto direto na realização do festival, que utiliza a sala principal para sessões competitivas, mostras paralelas e cerimônias de premiação. Relatos de trabalhadores indicavam atrasos na quitação de contas de luz, água e equipamentos de projeção. Com a garantia de verba anunciada por Celina Leão, a expectativa é que parte desse montante seja alocada imediatamente para manter o cinema aberto até setembro.

    Histórico e relevância do Festival

    Fundado em plena efervescência do Cinema Novo, o Festival de Brasília consolidou-se como principal vitrine do cinema autoral no país. Grandes cineastas, como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Lúcia Murat, Anna Muylaert e Kleber Mendonça Filho, foram laureados nas telas do Cine Brasília ao longo de quase 60 anos.

    O formato mantém competição dividida entre longas e curtas-metragens nacionais, debates diários com realizadores, mostras temáticas e oficinas de formação gratuitas. Desde 2007, a festa do cinema brasiliense é registrada como patrimônio imaterial do DF, status que teoricamente reforça a obrigação do poder público de preservar o evento.

    Impacto cultural e econômico

    • Geração de cerca de 500 empregos diretos e indiretos a cada edição.
    • Movimentação da cadeia audiovisual por meio de serviços de hospedagem, transporte e gastronomia na capital federal.
    • Fomento a coproduções regionais, com foco no Centro-Oeste, que ainda carece de fundos estaduais robustos para cinema.

    A confirmação da edição de 2026 reacende a esperança de que o Festival de Brasília mantenha seu papel de farol artístico e de formação de público, apesar das recorrentes dificuldades financeiras. Organizadores ainda aguardam detalhes sobre o fluxo de caixa, mas dão como certo que a janela de inscrições, aberta em março, seguirá o cronograma até a divulgação da seleção oficial em agosto.

    Nos bastidores, a expectativa é que o Governo do DF apresente nas próximas semanas um plano estruturado para evitar novos soluços orçamentários. Enquanto isso, cineastas, técnicos e cinéfilos respiram aliviados: o tapete vermelho do Cine Brasília, pelo menos por este ano, continuará sendo estendido.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.