Um coletivo da linha 221 tombou no fim da tarde desta segunda-feira (10) no entroncamento das avenidas Jacira Reis e São Jorge, Zona Oeste de Manaus, deixando 21 passageiros feridos sem registro de vítimas em estado grave. O acidente, que arrancou uma árvore do canteiro central e mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros e do Samu, gerou cenas de pânico entre usuários que voltavam do trabalho para casa.
Relatos colhidos no local apontam que o motorista pode ter perdido o controle do veículo antes de atingir a árvore. Testemunhas falam em cansaço extremo do condutor, hipótese ainda não confirmada pelas autoridades, mas que já entra no radar da investigação policial e da Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU).
Dinâmica do capotamento
Segundo apuração preliminar dos bombeiros, o ônibus da empresa Via Verde seguia no sentido bairro-centro quando subiu parcialmente no canteiro, chocou-se contra uma sumaúma de médio porte e, com o impacto, girou sobre o próprio eixo até ficar tombado sobre a lateral esquerda. A força da colisão arrancou a árvore do solo e espalhou estilhaços pela pista, bloqueando duas faixas e provocando retenção no trânsito por mais de uma hora.
Não havia sinalização de óleo na pista nem indícios de frenagem brusca visíveis no asfalto, o que fortalece a possibilidade de falha humana ou mecânica. A Polícia Civil requisitou imagens de câmeras de segurança de comércios vizinhos para analisar a trajetória do coletivo segundos antes do choque.
Hipótese de fadiga ganha força
A doméstica Vanderleia Costa, 39 anos, sentada logo atrás da cabine, disse ter percebido o condutor visivelmente exausto momentos antes do acidente. “Eu pensei que ele tivesse cochilado. Foi tudo muito rápido”, contou, ainda com um curativo no pé direito. A suspeita é reforçada por outros passageiros que confirmaram a impressão de sonolência, mas somente a perícia — que inclui análise de tacógrafo e exame toxicológico — poderá atestar se houve, de fato, sono ao volante.
Resgate e atendimento das vítimas
O Corpo de Bombeiros deslocou três viaturas de resgate e uma de combate a incêndio, enquanto o Samu enviou duas unidades de suporte básico e uma avançada. Das 21 pessoas socorridas, 15 foram encaminhadas a prontos-socorros da rede pública com escoriações e contusões leves; as demais receberam alta no próprio local. Entre os atendidos estava uma gestante com gravidez de risco que trafegava em outro veículo, entrou em crise de ansiedade ao testemunhar o acidente e precisou de oxigênio suplementar.
A rápida atuação evitou quadro mais grave, segundo o tenente-coronel Elton Marques, que comandou a operação. “Por ter ocorrido em horário de tráfego intenso, poderíamos ter uma tragédia maior. O cinto de segurança para o motorista e a baixa velocidade na via contribuíram para não haver óbitos”, avaliou o oficial.
Motorista permanece em estado de choque
O condutor, cujo nome não foi divulgado, foi retirado do habitáculo principal com ajuda de populares logo após o tombamento. Sem ferimentos aparentes, apresentava sinais de desorientação e entrou em choque emocional, segundo paramédicos. Ele passou por exames clínicos e será ouvido oficialmente quando liberado pela equipe médica.
Relatos de quem estava dentro do ônibus
Para muitos passageiros, o percurso de rotina se transformou em lembrança traumática. “Eu nasci de novo”, repetia Vanderleia, que atribui a própria sobrevivência a um “milagre” por carregar uma Bíblia na bolsa. Ela relatou ter conseguido sair pela porta dianteira logo depois que o motorista escapou pela mesma abertura.
A industriária Janaíra Alves, 37 anos, ocupava um assento no meio do coletivo e descreveu o instante do capotamento: “O ônibus começou a virar e as pessoas foram caindo umas sobre as outras. Fiquei pendurada perto da janela até desmoronar sobre outros corpos”. Janaíra sofreu torção no tornozelo esquerdo e planeja procurar atendimento complementar pelo convênio privado.

Imagem: Internet
Além dos ferimentos físicos, o abalo psicológico marcou boa parte das vítimas. Crianças choravam, adultos gritavam por socorro e celulares deslizaram pelo piso, hoje recoberto de estilhaços de vidro e lama. Bombeiros relataram casos de passageiros em estado de pânico, exigindo suporte de profissionais de saúde mental acionados pelo Serviço de Assistência à Saúde do Trabalhador.
Empresa é cobrada por esclarecimentos
A Via Verde, concessionária responsável pela linha 221, foi notificada pela SMTU para apresentar o histórico de manutenção do veículo e a escala de trabalho do motorista nas 48 horas anteriores. Até o fechamento desta edição, a companhia não havia divulgado nota pública, limitando-se a informar que “colabora com as autoridades competentes”.
No sistema municipal de transporte, a linha 221 liga bairros da Zona Oeste ao centro histórico, percorrendo importantes corredores como Constantino Nery e Djalma Batista. Em 2025, segundo dados do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana, o itinerário transportou média diária de 18 mil passageiros, o que coloca o acidente desta segunda-feira entre os mais graves envolvendo ônibus urbanos em Manaus na última década.
Procedimentos de investigação
A Delegacia Especializada em Acidentes de Trânsito abriu inquérito para apurar causa, circunstâncias e eventual responsabilidade criminal. Peritos coletaram informações do tacógrafo, aparelho que registra velocidade e tempo de direção, e requisitaram exame clínico detalhado no condutor, abrangendo dosagem alcoólica, substâncias psicoativas e distúrbios de sono. A Via Verde deve entregar, ainda, a planilha de jornadas e relatórios de manutenção preventiva do coletivo envolvido.
Impacto no trânsito e na comunidade
O bloqueio parcial das avenidas Jacira Reis e São Jorge afetou cinco linhas de ônibus e obrigou motoristas de aplicativos a desviar pelas ruas laterais do bairro São Jorge, aumentando o tempo de deslocamento em até 40 minutos, segundo a central de tráfego do Instituto Municipal de Engenharia e Fiscalização. Moradores relataram ruído potente e vibração nas casas próximas, comparando o som do impacto ao de “explosão”.
À noite, equipes de limpeza removeram destroços e recolocaram a árvore caída em um caminhão da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana. A previsão é que o trecho seja totalmente liberado ainda na madrugada de terça (11), após inspeção do Departamento Municipal de Obras.
Prudência e rotina ameaçada
Apesar de não haver mortos, o episódio reacendeu o debate sobre condições de trabalho de motoristas do transporte coletivo em Manaus. Sindicalistas afirmam que a categoria enfrenta jornadas que ultrapassam dez horas diárias. O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros, no entanto, sustenta que a legislação trabalhista é respeitada e que motoristas recebem treinamento anual de direção defensiva.
Para passageiros como Vanderleia e Janaíra, o retorno à normalidade virá lentamente. “Pretendo evitar a linha por um bom tempo, mas é a única que me leva direto para o bairro”, admite Vanderleia, enquanto faz o sinal da cruz diante dos escombros do coletivo. A imagem do ônibus tombado e da árvore arrancada deve permanecer como lembrança do dia em que, para 21 manauaras, a volta para casa quase terminou em tragédia.
