Uma rede de 39 câmeras e 16 drones com tecnologia de reconhecimento facial transformou a Expofeira do Amapá em vitrine de vigilância de alta precisão. Em apenas dois dias de evento, o sistema apontou quatro visitantes com mandados em aberto, todos capturados pela polícia ainda dentro do Parque de Exposições da Fazendinha.
Na noite de abertura, sábado (8), dois homens foram detidos por débito de pensão alimentícia. No domingo (9), o cruzamento de imagens identificou um foragido por roubo e outro, novamente, por pensão. Entre eles, estava um devedor que acumulava R$ 64 mil em atraso.
Como a tecnologia identifica foragidos em segundos
Logo que o público atravessa os portões do parque, as lentes posicionadas em 39 pontos capturam cada rosto e enviam a foto a um banco de dados conectado ao Banco Nacional de Mandados de Prisão. O software, desenvolvido por uma empresa privada de segurança e adquirido pelo Governo do Amapá, verifica semelhanças de traços faciais em frações de segundo. Se encontra correspondência, dispara um alerta na central montada dentro da própria feira.
Felipe Vieira, secretário-adjunto da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), explica que a tecnologia reduz a etapa de verificação humana: “A partir desse alerta, informamos imediatamente às guarnições da Polícia Militar e às equipes da Polícia Civil no terreno, que fazem a captura”.
Precisão aumentada por drones e leitura de placas
Além das câmeras fixas, 16 drones sobrevoam corredores, tendas de exposição e as pistas da rodovia Josmar Chaves Pinto, no trecho entre Macapá e Santana. As aeronaves, equipadas com zoom óptico, ajudam a seguir suspeitos até a aproximação das equipes terrestres. O pacote inclui ainda leitura automática de placas de veículos, recurso útil para localizar carros clonados ou usados em crimes.
Quatro prisões em 48 horas
A primeira noite de funcionamento confirmou o potencial da ferramenta. Dois devedores de pensão alimentícia foram pegos assim que passaram pelos pórticos. Ambos tinham mandados judiciais emitidos após reiterados descumprimentos. No dia seguinte, um suspeito de roubo foi flagrado passeando entre os estandes e, minutos depois, mais um alvo por pensão acabou localizado. Nenhum deles ofereceu resistência, segundo a polícia, que atribui a rendição pacífica ao fator surpresa: os procurados não imaginavam ser identificados em um ambiente festivo.
O caso do devedor de R$ 64 mil chamou atenção pela soma e pela rapidez da captura. Assim que o sistema exibiu a foto e o valor pendente, agentes próximos receberam a descrição atualizada da roupa e do ponto exato em que o homem caminhava. A abordagem aconteceu antes que ele chegasse à área de shows.
Impacto na segurança da feira
Com público diário estimado em dezenas de milhares de pessoas, a Expofeira costuma exigir reforço policial. O monitoramento em tempo real reduziu rondas aleatórias e concentrou efetivos onde havia risco real, de acordo com a Sejusp. A secretaria não divulgou o número de ocorrências evitadas, mas avalia que a presença visível dos drones já funcionou como fator de dissuasão em furtos e brigas.
Projeto de expansão: 500 câmeras em todo o estado
Animado pelo resultado inicial, o governo amapaense planeja instalar cerca de 500 câmeras com inteligência artificial em pontos estratégicos de todas as regiões. O objetivo é estender o reconhecimento facial a áreas comerciais, bairros residenciais e rotas de grande fluxo, coibindo roubos a lojas, casas e veículos.

Imagem: Internet
Segundo Felipe Vieira, a expectativa é combinar o novo lote de equipamentos com centrais integradas de dados e patrulhamento: “Vamos conectar delegacias, batalhões e guardas municipais, criando uma malha que responda de forma unificada às ocorrências”. O investimento previsto não foi detalhado, mas parte do financiamento deve vir de convênios federais de segurança pública.
Debate sobre privacidade e eficácia
A adoção de reconhecimento facial em espaços abertos costuma levantar discussões sobre privacidade. Organizações civis temem usos indevidos dos registros biométricos e eventuais falsos positivos. A Sejusp afirma que só armazena imagens vinculadas a mandados ativos e que o sistema não guarda dados de quem não consta na lista de procurados. Ainda assim, especialistas pedem regulamentação clara, auditoria de algoritmos e canais de contestação para cidadãos identificados por engano.
Expofeira como laboratório de vigilância
A feira agropecuária já serviu de cenário-teste para outros projetos de segurança nos últimos anos, mas nenhum com alcance tão amplo. Ao oferecer estrutura fixa, grande concentração de público e perímetro delimitado, o evento se tornou ambiente ideal para medir desempenho de câmeras, drones e fluxo de informações.
Nos bastidores, agentes relatam que a integração entre tecnologia e policiamento convencional exigiu treinamentos rápidos. Guarnições receberam tablets com acesso à central, mapas em tempo real e alertas sonoros a cada correspondência facial. O sucesso das primeiras prisões reforçou a adesão do efetivo às novas rotinas.
Próximas feiras e eventos monitorados
Com o término da Expofeira, a estrutura deverá ser reutilizada em festivais culturais e competições esportivas no segundo semestre. A Sejusp prevê calendário itinerante, deslocando parte das câmeras e drones para cidades onde o fluxo de visitantes aumenta sazonalmente. A expectativa é que, ao combinar vigilância móvel e fixa, o estado alcance cobertura contínua de áreas críticas ao longo do ano.
Perspectivas para a segurança no Amapá
A captura de quatro foragidos em 48 horas na Expofeira sinaliza mudança no padrão de policiamento local. A meta de expandir o reconhecimento facial a 500 pontos promete vigilância mais ampla, mas também exigirá protocolos rígidos de proteção de dados e revisão periódica dos algoritmos. Se bem-sucedida, a experiência poderá posicionar o Amapá como referência nacional em uso de inteligência artificial para segurança pública, equilibrando prevenção de crimes e respeito a direitos individuais.
