Em meio à escalada dos casos de sarampo em São Paulo, Simone Tebet (PSB), candidata ao Senado pelo estado, acusou Eduardo Bolsonaro (PL) de incentivar o negacionismo científico ao divulgar nas redes sociais um vídeo em que celebra ter dispensado a filha das vacinas obrigatórias em uma escola do Texas, nos Estados Unidos. Para Tebet, a postura do ex-deputado reforça um “padrão” da família Bolsonaro de atacar a ciência e, por tabela, minar a confiança nas instituições democráticas.
“É da essência, é do DNA deles: quando se enfraquece a ciência, enfraquece-se também a democracia”, disparou Tebet neste domingo (9), nos bastidores do primeiro debate entre candidatos ao governo de São Paulo, promovido pela TV Bandeirantes. A declaração veio no mesmo dia em que autoridades estaduais confirmaram 23 ocorrências de sarampo em 2026, sete delas na capital paulista, reavivando o alerta sanitário para uma doença que voltara a ser considerada eliminada no país.
Vídeo de Eduardo Bolsonaro exalta isenção vacinal nos EUA
Na gravação publicada sábado (8), Eduardo Bolsonaro aparece em frente a uma agência de correios norte-americana relatando ter assinado um termo que livra a filha da obrigatoriedade vacinal para ingressar na escola texana. O parlamentar, que atualmente não ocupa cargo eletivo, aproveita para criticar o que chama de “imposição” do governo Lula no Brasil e questiona quem arcaria com eventuais efeitos adversos dos imunizantes.
O conteúdo foi replicado por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e repercutiu negativamente entre especialistas em saúde pública, que associam declarações do tipo à queda da cobertura vacinal no país. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) já havia alertado em relatórios recentes que o Brasil precisa retomar índices superiores a 95% para manter doenças como o sarampo sob controle.
‘CPI da Covid mostrou o custo do negacionismo’, diz senadora
Tebet, que ganhou projeção nacional durante a CPI da Covid em 2021, lembrou que a comissão expôs elos entre a desinformação sobre vacinas e o agravamento da mortalidade pela doença. “Nós vimos, na CPI, quanta dor poderia ter sido evitada se o governo tivesse confiado na ciência. Agora repetem a mesma cartilha com o sarampo”, afirmou.
Para a senadora, o comportamento de Eduardo não é pontual: “Quando eles atacam a vacina, atacam também o processo eleitoral, deslegitimam urnas, estimulam teorias conspiratórias. É a mesma lógica de corrosão institucional.”
Tarcísio defende campanha de imunização
Presente ao debate televisivo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição e aliado de Bolsonaro em 2022, distanciou-se publicamente das falas do ex-deputado. “A vacina do sarampo é consagrada e segura. Recomendo que todos procurem os postos”, declarou, antes do início do confronto televisivo com Fernando Haddad (PT).
Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, São Paulo passou a oferecer dose de reforço para habitantes entre seis meses e 59 anos em três municípios com maior incidência: São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo. A estratégia busca conter a circulação do vírus, que voltou a registrar transmissão sustentada após cinco anos sem surtos relevantes.
Queda na cobertura preocupa especialistas
Dados do Programa Nacional de Imunizações indicam que, em 2015, a primeira dose da tríplice viral (que previne sarampo, caxumba e rubéola) alcançava 96% das crianças brasileiras; em 2025, o índice caiu para 84%. A Organização Mundial da Saúde associa a recidiva do sarampo exatamente a esse hiato de cobertura, agravado por discursos antivacina nas redes sociais.
Para a epidemiologista Ana Figueiredo, da USP, o vídeo de Eduardo Bolsonaro “pode reforçar dúvidas em pais que já se mostram hesitantes”: “Quando uma figura pública mostra orgulho de não vacinar o próprio filho, isso gera efeito cascata. É um desserviço sanitário.”
Impacto político em ano eleitoral
Embora o pleito nacional só ocorra em 2026, a pré-campanha já movimenta os bastidores em São Paulo. Tebet, que foi ministra do Planejamento até abril e se filiou ao PSB para disputar a vaga de Mara Gabrilli (PSD) no Senado, tenta construir palanque junto à federação PT-PV-PCdoB, que lançou Haddad ao governo estadual. Sua presença no debate — a convite do PT — simboliza esse alinhamento.
No campo bolsonarista, Eduardo mantém influência apesar de ter perdido a reeleição em 2022. O ex-deputado é cotado para disputar vaga na Câmara Alta em 2026, mas calculistas do PL temem que episódios como o da vacina possam afastar eleitores de centro. Um dirigente do partido ouvido reservadamente admitiu que “o tema saúde é sensível” e que o foco deveria ser segurança pública, área de maior aderência do ex-presidente.

Imagem: Internet
Democracia e saúde entram no mesmo debate
Especialistas em comunicação política observam que a recusa vacinal passou a operar como marcador ideológico. “No Brasil, as vacinas sempre foram política de Estado, acima de disputas partidárias. O que vemos agora é a imunização virar bandeira identitária”, explica o cientista político Vitor Rodrigues, da FGV.
Rodrigues nota que declarações antivacina costumam vir acompanhadas de críticas ao Poder Judiciário, à imprensa e às urnas eletrônicas — padrão reproduzido por Eduardo Bolsonaro. “É a mesma narrativa do ‘contra tudo que está aí’, importada do trumpismo norte-americano”, diz.
Ministério da Saúde reforça alerta
Diante do surto paulista, o Ministério da Saúde reiterou a recomendação de que crianças de seis meses recebam a chamada “dose zero”, uma medida de emergência que não substitui o esquema regular aos 12 e 15 meses. Adultos até 59 anos devem completar ou atualizar o cartão de vacinação.
A pasta informou que enviou 1,5 milhão de doses extras da tríplice viral para São Paulo e iniciou campanha de comunicação para combater fake news. Entre as ações, vídeos curtos explicam que a vacina é segura, gratuita e disponível em todas as Unidades Básicas de Saúde.
Perspectivas para conter o avanço
Autoridades estaduais acreditam que, com a mobilização intensiva, a curva de casos possa ser contida nas próximas semanas. O infectologista Renato Krieger, do Hospital Emílio Ribas, pondera que o sarampo é altamente contagioso e exige cobertura vacinal superior a 95% para bloqueio de surtos. “Se não recuperarmos rapidamente esses índices, outras enfermidades preveníveis, como poliomielite, também podem retornar”, alerta.
Reações nas redes e próximos passos
Horas após a fala de Tebet, Eduardo Bolsonaro voltou ao X (antigo Twitter) para minimizar a repercussão, dizendo defender a “liberdade dos pais” e acusando a senadora de politizar o tema. Tebet retrucou que “liberdade não é sinônimo de colocar vidas em risco” e prometeu insistir no assunto ao longo da campanha.
Nos bastidores, aliados de Eduardo avaliaram que a discussão desviou o foco da agenda que o bolsonarismo pretendia destacar — segurança nas escolas — e planejam reorientar a comunicação nos próximos dias. Enquanto isso, secretarias municipais da Grande São Paulo montam postos móveis em shoppings e estações de metrô para ampliar o acesso às doses.
Como se vacinar em SP
- Procure a Unidade Básica de Saúde mais próxima com carteira de vacinação e documento de identidade.
- Crianças: dose zero a partir de 6 meses, 1ª dose aos 12 meses, 2ª dose aos 15 meses.
- Adultos até 29 anos: duas doses; entre 30 e 59 anos: uma dose.
- Gestantes e pessoas imunodeprimidas devem consultar um profissional de saúde antes da aplicação.
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