O retorno tranquilo de uma família a casa, na noite de sábado (8), terminou em pânico quando uma onça-pintada pulou a cerca do quintal e atacou o cachorro da residência em Corumbá, cidade sul-mato-grossense que faz fronteira com a Bolívia. O felino surgiu menos de cinco minutos depois de os moradores chegarem, dominou o animal doméstico e o arrastou para uma área de mata, num episódio captado por câmeras de segurança.
O ataque, registrado próximo à Rodovia Ramon Gomes — corredor movimentado que liga o município ao território boliviano — reacendeu o receio da população, já exposta a sucessivas aparições de grandes felinos dentro do perímetro urbano desde o primeiro semestre. A Polícia Militar Ambiental (PMA) foi acionada, mas, até a publicação desta reportagem, não informou quais medidas adotará.
Felino invade área residencial a poucos metros da rodovia
As imagens de circuito interno mostram a onça-pintada avançando em posição rasteira, passando sob a cerca e surpreendendo o cão. Outros animais do quintal tentam escapar, mas o predador concentra o ataque na presa principal e some na escuridão com o corpo entre os dentes. O ponto da ocorrência fica a curta distância de uma escola pública e de um posto da Polícia Rodoviária Federal, reforçando a ideia de que o animal circulou por locais frequentados diariamente por crianças e motoristas.
Assustados, os proprietários relataram que tinham acabado de estacionar o carro após uma confraternização na igreja. Ao ouvirem o latido repentino e o barulho da cerca, perceberam a silhueta do felino já no pátio. O choque foi potencializado pela lembrança de que, nos últimos meses, onças têm sido vistas com maior frequência nos bairros próximos ao Rio Paraguai.
Medo se espalha: três registros em menos de dois meses
Segundo os moradores, este foi o terceiro flagrante de onça-pintada circulando tão perto das casas desde junho. Ainda em maio, um episódio mobilizou a cidade quando outra onça, que rondava as regiões do Dom Bosco e do Mirante da Capivara, matou uma cadela antes de ser capturada. O animal — batizado informalmente de “Corumbella” — foi sedado e transportado de helicóptero do Exército até a Serra do Amolar, em operação que envolveu 35 integrantes do grupo técnico Onças Urbanas Corumbá-Ladário.
A sequência de encontros fortalece a sensação de vulnerabilidade entre os habitantes da área urbana, principalmente porque muitos quintais, como o atingido neste fim de semana, mantêm animais de criação e restos de alimento que podem atrair predadores. Além disso, a proximidade de reservas naturais e a fartura de corredores verdes ao redor da cidade favorecem a circulação dos grandes felinos.
Pressão urbana encontra corredor ecológico
Corumbá está encostada no Pantanal e, ao sul, no maciço da Serra do Amolar. A transição entre a expansão urbana e o habitat pantaneiro se dá sem barreiras físicas rígidas, criando um mosaico de quintais, pastagens e fragmentos de mata que serve de passagem para a fauna. A Rodovia Ramon Gomes, onde ocorreu o ataque mais recente, corta esse cenário, funcionando, na prática, como linha de contato direto entre animais silvestres e moradores.
Especialistas ouvidos em outras ocasiões explicam que a onça-pintada costuma evitar seres humanos, mas percorre grandes distâncias em busca de comida, água e território. Situações de seca, queimadas ou redução de presas naturais aumentam a chance de contato. Embora a reportagem não tenha obtido retorno da PMA sobre as causas específicas deste avanço, a hipótese mais aceita por técnicos em ações anteriores é a de “sobreposição de ambientes”, quando o crescimento da cidade invade rotas tradicionais de deslocamento dos felinos.

Imagem: Internet
Operação de resgate virou modelo, mas demanda reação rápida
O caso de “Corumbella” tornou-se exemplo de logística para retirar onças da área urbana sem ferimentos. Na ocasião, foram usados dardos anestésicos, jaula de transporte adaptada e apoio aéreo para vencer os 150 quilômetros até a serra. O procedimento, porém, exige tempo, equipe multidisciplinar e avaliação criteriosa do estado de saúde do animal. Por isso, moradores cobram ação imediata sempre que um novo felino é visto passeando entre as casas.
Até agora, no episódio mais recente, não se sabe se haverá uma nova tentativa de captura ou apenas monitoramento. A PMA costuma orientar a população a não reagir, manter distância e ligar para o serviço de emergência ambiental quando perceber qualquer indício de onça nas proximidades, mas o protocolo oficial para Corumbá ainda não foi detalhado.
Rotina alterada e quintais remodelados
O medo já provoca mudanças no cotidiano. Algumas famílias instalaram refletores de movimento, reforçaram cercas com telas mais baixas ou recolheram animais de estimação para o interior das casas durante a noite. Pequenos produtores que moram na zona periurbana relatam prejuízos no plantel de galinhas, porcos e cabras, além da preocupação com crianças que brincam ao ar livre.
Mesmo quem vive nos bairros centrais acompanha, pelas redes sociais, a divulgação constante de vídeos e fotos de grandes felinos cruzando ruas desertas de madrugada. Em grupos de mensagens, circularam alertas para evitar trilhas às margens do rio e redobrar atenção em garagens abertas.
Autoridades avaliam próximos passos
Até a conclusão deste texto, a reportagem tentou contato com a Polícia Militar Ambiental para saber que providências serão tomadas, se há busca ativa pelo animal e quais recomendações oficiais seriam repassadas. A instituição não retornou. Em casos anteriores, a PMA realizou vistorias nos locais de avistamento, instalou armadilhas fotográficas e manteve inspeções noturnas, medidas que podem ser repetidas agora.
Por enquanto, as famílias de Corumbá convivem com a incerteza: a mesma exuberância do Pantanal, orgulho da região, traz consigo o desafio de partilhar o espaço urbano com um dos maiores predadores das Américas. Enquanto não há solução definitiva, prevalece a orientação de atenção redobrada e comunicação imediata a qualquer indício de presença de onças-pintadas na vizinhança.
