A largada da campanha para o Palácio Potengi ocorreu em clima de confrontos diretos e cobranças públicas. No primeiro debate televisionado, transmitido pela Band RN na noite de domingo (9), Allyson Bezerra (União Brasil), Álvaro Dias (PL), Cadu de Lula (PT) e Robério Paulino (PSOL) passaram quase duas horas expondo fragilidades uns dos outros e defendendo seus respectivos legados, em vez de aprofundar propostas. A plateia acompanhou, sobretudo, ataques às administrações de Natal, Mossoró e do governo estadual, além de menções constantes à Operação Mederi, à “engorda” da praia de Ponta Negra e aos atrasos de salários e empréstimos consignados dos servidores.
Com formato em quatro blocos, o encontro alternou respostas individuais, perguntas livres, temas sugeridos pelo público e considerações finais. Embora a pauta oficial englobasse educação, saúde, segurança, infraestrutura e finanças, o tom pessoal predominou e transformou o debate numa antecipação de segundo turno, com Álvaro e Cadu tentando colar nos adversários etiquetas de “gestão temerária”, enquanto Allyson e Robério buscavam se descolar de velhos grupos políticos e insistiam em números de suas administrações ou em programas de longo prazo.
Embates definem a largada da corrida potiguar
A atração começou com a pergunta única “Por que quero ser governador do Rio Grande do Norte?”. Cada concorrente teve 90 segundos para expor motivações. Cadu de Lula puxou o curral, apresentando-se como “servidor público ficha limpa” e creditando à gestão Fátima Bezerra o pagamento em dia da folha e a melhora nos índices de segurança. A deixa rendeu a Álvaro Dias o primeiro contra-golpe: o ex-prefeito de Natal citou atrasos em obras do Estado, sugerindo que Cadu carrega as falhas da administração petista.
Em seguida, Robério Paulino descreveu o que chamou de “revolução na educação” e defesa do meio ambiente. Allyson Bezerra, que fechou o bloco, apelou à própria origem humilde e garantiu conhecer “os 167 municípios” do RN. Durante as réplicas, velhas alianças vieram à tona: Cadu associou Allyson ao ex-governador Robinson Faria, enquanto Álvaro foi cobrado sobre as intervenções em Ponta Negra e o Hospital Municipal de Natal, inaugurado, segundo os rivais, “sem estar pronto”.
Currículos sob fogo cruzado
- Álvaro Dias defendeu os oito anos à frente da capital, exibiu fotografias da nova faixa de areia de Ponta Negra e afirmou ter deixado “R$ 1,5 bilhão” no NatalPrev, negando rombo fiscal.
- Cadu de Lula repetiu que o governo estadual “recuperou a capacidade de investimento” e preferiu colar sua imagem à de Lula, apontando queda nos homicídios.
- Allyson Bezerra rebateu menções à Operação Mederi, alegando que a Polícia Federal “não encontrou dinheiro nem provas” de corrupção em Mossoró, e comparou a nota A de Capag do município com a nota C de Natal.
- Robério Paulino usou a docência como credencial e sugeriu elevar para 50% a rede estadual de escolas em tempo integral, além de zerar filas de UPAs por meio de prevenção.
Perguntas livres escalam temperatura do debate
No segundo bloco, com perguntas entre os próprios candidatos, o debate saiu do script. Logo na primeira rodada, Robério cobrou Álvaro pelos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de Natal. O ex-prefeito atribuiu a queda à pandemia e apresentou a Escola Municipal Padre Tiago Theisen como “maior unidade de tempo integral do Nordeste”. O psolista alegou falta de valorização docente e greve em andamento.
Cadu investiu sobre a “engorda” de Ponta Negra, citando questionamentos do Tribunal de Contas da União. Álvaro contra-atacou exaltando a recuperação de até 100 metros de areia na maré seca e chamando a obra de “cartão-postal salvo”.
Quando Allyson apontou a suposta herança de déficit em Natal, Álvaro puxou a Operação Mederi para o centro do palco. Em tom de ironia, perguntou se o rival devolveria o celular apreendido. A provocação virou mantra e foi reproduzida em quase todas as intervenções seguintes.

Imagem: Internet
Temas que dominaram as trocas de farpas
- Gestão financeira: dívidas de Natal versus equilíbrio fiscal de Mossoró e do Estado.
- Obras emblemáticas: Hospital Municipal de Natal, engorda de Ponta Negra, policlínica convertida em hospital em Mossoró.
- Servidores estaduais: atraso de empréstimos consignados, salários deixados por gestões anteriores e negociação de greves.
- Operação Mederi: investigação em Mossoró envolvendo contratação de serviços médicos.
- Alianças políticas: apoio de Allyson a Jair Bolsonaro em 2022 e relação do PT com grevistas.
Rodovias viram pauta principal do público
O terceiro bloco trouxe perguntas enviadas pelos telespectadores, concentradas na precariedade das rodovias estaduais. Foi o momento de maior apresentação de propostas objetivas:
- Álvaro Dias citou ter investido R$ 120 milhões na malha viária de Natal e prometeu repetir o modelo no interior, com financiamento público-privado para duplicar trechos estratégicos.
- Robério Paulino apontou a duplicação da BR-304 como urgente para escoar produção entre Natal e Mossoró e defendeu estudos para um porto no litoral norte, ligado por nova rodovia.
- Cadu de Lula resgatou o programa estadual que, segundo ele, recuperou 2,1 mil km de estradas, e afirmou que pretende concluir a malha total, além de apoiar o Porto Indústria Verde.
- Allyson Bezerra prometeu criar uma secretaria exclusiva de projetos, manter banco de estudos executivos e adotar concessões para manutenção permanente de vias.
Reta final: recados aos eleitores
No bloco de encerramento, cada aspirante tentou sintetizar identidade e diferenciais:
Álvaro Dias se apresentou como gestor experiente que “fará no Estado o que fez em Natal”, frisando descentralização da saúde para desafogar o Hospital Walfredo Gurgel. Robério Paulino pediu comparação de propostas e voltou a falar em “plantar milhões de árvores” contra a desertificação, associando o projeto à geração de empregos verdes. Cadu de Lula, ao lado do presidente Lula em todas as menções, disse querer “mãos limpas e equilíbrio fiscal” para que “filhos realizem sonhos sem sair do RN”. Allyson Bezerra apostou no bordão “167 municípios, 167 propostas”, reforçando o apelo à renovação e agradecendo familiares e apoiadores.
O que fica após a primeira rodada
Embora nenhum participante tenha saído nitidamente vencedor, o debate consolidou narrativas que devem guiar a campanha: a polarização entre experiência administrativa e promessa de mudança; a disputa de números sobre segurança, educação e finanças; e o peso de investigações ou obras polêmicas como munição eleitoral. A depender da repercussão nas próximas pesquisas, os quatro concorrentes podem calibrar o discurso — mais propositivo ou mais combativo — para os próximos encontros já agendados com outras emissoras e entidades civis.
