Uma série de críticas diretas e tentativas de expor pontos fracos marcou o debate entre os quatro principais concorrentes ao Palácio Piratini. Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB) se enfrentaram na sede da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, num encontro promovido pela Band na noite de domingo (9).
Em vez de concentrar-se em propostas, o quarteto gastou boa parte dos quatro blocos rebatendo acusações sobre desempenho administrativo, indicadores educacionais e a fatídica dívida do estado com a União. O resultado foi um embate ágil, com interrupções frequentes e pouca conciliação — cenário que evidenciou o tom polarizado da disputa marcada para 4 de outubro, data do primeiro turno.
Embates iniciais: saldo do primeiro debate reaparece
Logo na primeira rodada, que permitia tema livre, ressurgiram mágoas do encontro anterior realizado por uma rádio local. Maranata acusou Juliana Brizola de “menosprezar” Guaíba, município que administrou até deixar a prefeitura para concorrer ao governo. A pedetista devolveu dizendo que o tucano “abandonou o cargo” e que a cidade encerrou 2025 gastando além do que arrecadou. O ex-prefeito contestou, sustentando que entregou as contas equilibradas e que a vice-prefeita se comprometeu a continuar o projeto.
A troca de farpas fixou o tom do resto da noite: cada vez que um candidato perguntava, o foco recaía em fragilidades previamente mapeadas pelos adversários. A dinâmica de confronto direto, repetida em dois dos quatro blocos, reforçou a disputa por quem qualificaria ou desqualificaria melhor a experiência de gestão alheia.
Educação vira campo de batalha
O desempenho do ensino médio na rede estadual dominou um dos momentos mais tensos. Gabriel Souza, que integrou o governo anterior, pediu a Luciano Zucco que justificasse a crítica de “maquiagem” no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). O militar da reserva e deputado estadual argumentou que o avanço de posição do RS se deveu sobretudo ao aumento do fluxo de aprovação, e não da aprendizagem efetiva.
Sob pressão, Zucco citou o sistema de progressão parcial — que permite ao aluno seguir para o ano seguinte devendo até quatro disciplinas — como responsável por inflar os números. Gabriel reagiu: afirmou que apenas 1% dos mais de 700 mil estudantes está nessa situação e que o estado ocupa a vice-liderança nacional em aprendizagem. Disparou ainda que grande parte das escolas privadas opera modelo semelhante, batizado ali de “dependência”.
Avaliação de métodos e tempo de recuperação
Zucco insistiu na crítica à progressão parcial, questionando como professores encontrariam “tempo de sala” para repor conteúdos a turmas de 30 alunos. O emedebista respondeu que a recuperação ocorre dentro de jornadas pedagógicas planejadas, e que o aluno retido por falta de nota permanece sem avançar se não alcançar a média após exames específicos.
Economia e dívida: quem tem a melhor estratégia?
Ao entrar em temas escolhidos pela organização do debate, a dívida gaúcha ganhou destaque. Zucco questionou Maranata sobre como pretende renegociar o passivo bilionário se aderir ao Programa de Promoção do Equilíbrio Fiscal (Propag), instrumento federal que substitui o Regime de Recuperação Fiscal. O tucano se disse habilidoso para dialogar “da esquerda à direita” e lembrou que, como prefeito, captou verbas em gestões de Lula e Jair Bolsonaro.

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Zucco, que lidera a oposição na Assembleia, defendeu a formação de um bloco com governadores de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro para pleitear um novo pacto federativo. Segundo ele, só uma articulação coletiva forçaria o futuro presidente da República a revisar juros e prazos.
Risco de retrocesso ou continuidade?
Neste ponto, Gabriel Souza se apresentou como garantidor da “agenda de modernização” adotada pela atual administração estadual. Citou privatizações, ajustes fiscais e reformas administrativas como conquistas que não poderiam retroceder. Juliana Brizola rebateu, dizendo que é “candidata do diálogo” e que pode conversar tanto com o presidente Lula quanto com o governador Eduardo Leite para viabilizar investimentos.
Formato do encontro
- Bloco 1 – duas rodadas de perguntas entre candidatos, tema livre;
- Bloco 2 – questões pré-definidas pela produção sobre seis áreas: economia, segurança, cultura/educação, sustentabilidade, saúde e projetos especiais; cada participante escolhia quem comentaria a resposta;
- Bloco 3 – nova rodada de confronto direto com tema livre;
- Bloco 4 – considerações finais.
Essa estrutura estimulou ataques pontuais mais que discursos longos. Mesmo assim, algumas propostas apareceram: ampliação de escolas cívico-militares defendida por Zucco; programa estadual de saúde da família prometido por Juliana; carteira de projetos de infraestrutura com parcerias público-privadas anunciada por Maranata; e expansão do ensino em tempo integral ressaltada por Gabriel.
Próximos passos da campanha
O cronograma eleitoral prevê novos debates televisivos até o encerramento da propaganda em 1.º de outubro. Caso nenhum candidato alcance 50% + 1 voto válido, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro. A expectativa é de que o tom belicoso visto na Fiergs se mantenha, já que todas as pesquisas indicam corrida apertada pelo segundo lugar.
Concluído o encontro, aliados de cada campanha classificaram a performance de seus candidatos como “vitoriosa” — narrativa previsível nas horas seguintes a um debate. Nos bastidores, porém, as equipes admitem que o saldo real será medido a partir desta semana, quando pesquisas internas avaliarão se os ataques corroeram a intenção de voto de alguém ou apenas reforçaram convicções pré-existentes do eleitorado gaúcho.
