Fumaça densa, sirenes e uma correria de última hora mudaram o fim de tarde de domingo (9) no bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte. Um incêndio consumiu um antigo imóvel da operadora Oi, ocupado por pessoas em situação de rua, e obrigou a evacuação emergencial do prédio residencial ao lado, onde vivem seis famílias. Por orientação do Corpo de Bombeiros, os moradores foram aconselhados a não dormir em casa até uma vistoria confirmar que não há riscos de intoxicação ou de colapso estrutural.
A ocorrência mobilizou sete viaturas e 25 militares. Além da retirada de todos que estavam no prédio em chamas, uma mulher foi socorrida em estado grave após inalar grande quantidade de fumaça e levada ao Hospital João XXIII. As chamas foram controladas no início da noite, mas a Defesa Civil anunciou que só fará inspeção minuciosa quando a temperatura interna cair e a visibilidade melhorar.
Como o fogo começou e a operação de salvamento
Segundo o capitão Sérgio Magalhães, que coordenou os trabalhos, os primeiros indícios apontam que o incêndio começou em um colchão usado por ocupantes do prédio abandonado para queimar cobre. A prática, comum entre pessoas que revendem o metal, costuma liberar gás tóxico e aumentar o risco de propagação das chamas. “Quando chegamos, ouvimos barulho lá dentro. Precisamos arrombar a porta principal e encontramos gente tentando escapar pelas janelas”, relatou o oficial.
O imóvel abandonado fica na esquina da Avenida Prudente de Morais com a Rua Marabá, uma das regiões mais movimentadas da capital mineira. Vizinhos contam que, há cerca de um mês, o local se transformou em alvo de furtos de cabos e equipamentos eletrônicos. Essa interferência constante teria deixado a construção ainda mais vulnerável, com objetos inflamáveis espalhados e parte da rede elétrica depredada.
Resgate sob fumaça intensa
A maior dificuldade enfrentada pelos bombeiros foi a baixa visibilidade dentro do prédio. A fumaça preta tomou os andares inferiores rapidamente, obrigando o uso de equipamentos de respiração autônoma. Foi nesse cenário que a equipe encontrou a mulher intoxicada, desacordada. Ela recebeu oxigênio ainda no local antes de ser transferida de ambulância.
Outras pessoas que ocupavam o edifício conseguiram sair por conta própria ou foram guiadas pela equipe de salvamento. Não houve registro de vítimas com queimaduras graves, mas todos foram avaliados pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) por conta da inalação de gases tóxicos.
Evacuação preventiva do prédio vizinho
Assim que as chamas ganharam força, a preocupação se voltou para o prédio residencial geminado, separado do foco do incêndio apenas por uma parede. A proximidade e a nuvem de fumaça obrigaram o Corpo de Bombeiros a retirar rapidamente os moradores. Ao todo, seis apartamentos foram esvaziados.
“Optamos por uma medida preventiva. A fumaça é tão perigosa quanto o fogo, principalmente durante a noite, quando as pessoas estão dormindo e demoram mais para perceber qualquer sintoma de intoxicação”, explicou o capitão Magalhães. Até o fechamento desta reportagem, não havia previsão oficial de quando os moradores poderiam voltar.
Estrutura do residencial segue intacta
De acordo com avaliação inicial dos bombeiros, o calor não foi suficiente para comprometer a estrutura do prédio vizinho, construído em alvenaria convencional. Ainda assim, peritos da Defesa Civil deverão inspecionar vigas, lajes e paredes para descartar risco de infiltração de fumaça ou dilatação de materiais.
No imóvel incendiado, a preocupação é maior. O prédio da Oi está sem manutenção há anos; parte da fachada apresenta rachaduras e janelas quebradas. A corporação não descarta a necessidade de interditar o local.
Próximos passos da Defesa Civil
A Defesa Civil municipal informou que tentaria entrar no prédio ainda à noite, mas acabou adiando a vistoria porque o interior permanecia quente e dominado pela fumaça. “A avaliação completa só ocorrerá quando a temperatura reduzir a níveis seguros e a visibilidade permitir a identificação de fissuras ou focos residuais”, explicou o órgão em nota.
Dependendo do laudo, podem ser adotadas três medidas: liberação sem restrição, interdição parcial de áreas de maior risco ou interdição total. Caso a terceira opção seja necessária, o prédio abandonado poderá ser demolido ou receber reforço estrutural antes de qualquer reocupação legal.

Imagem: Internet
Responsabilidade sobre o imóvel
O edifício pertence à operadora de telefonia Oi e estava oficialmente fora de uso. Procurada, a empresa ainda não se manifestou sobre segurança, manutenção e possível assistência aos moradores vizinhos que tiveram de deixar suas casas.
Histórico recente de furtos e ocupação irregular
Moradores do entorno afirmam que o prédio abandonado tornou-se ponto de abrigo para pessoas em situação de rua e alvo de furtos constantes desde julho. Cabos de cobre e aparelhos de ar-condicionado teriam sido removidos do local, deixando fios expostos e aumentando a probabilidade de curto-circuito. O relato coincide com o cenário encontrado pelos bombeiros: muito material metálico queimado e restos de fios.
A presença de lixo, colchões improvisados e madeira armazenada sem qualquer cuidado transformou o imóvel em barril de pólvora. Especialistas consultados pela reportagem lembram que prédios fechados, sem zeladoria, tendem a acumular problemas: infiltrações, ligações clandestinas de energia e vulnerabilidade a incêndios.
Comunidade pede solução definitiva
Logo após o incêndio, vizinhos se reuniram em frente ao cordão de isolamento e protestaram contra o abandono do prédio. “Já avisamos várias vezes que isso ia acontecer. É um perigo para quem mora e trabalha aqui”, reclamou a fisioterapeuta Ana Paula Dias, que tem clínica na mesma rua. Moradores prometem levar o caso ao Ministério Público de Minas Gerais para cobrar providências da empresa proprietária e da prefeitura.
Riscos de saúde após a exposição à fumaça
Segundo o pneumologista Marcelo Diniz, a inalação de fumaça de queima de cobre e material sintético pode desencadear problemas respiratórios graves, como bronquite química e intoxicação por metais pesados. “Mesmo que a pessoa se sinta bem nas primeiras horas, o efeito inflamatório pode aparecer depois. Quem esteve perto do incêndio deve procurar avaliação médica se surgir tosse persistente, falta de ar ou dor de cabeça intensa”, alertou o médico.
O Corpo de Bombeiros reforça que moradores próximos devem manter portas e janelas fechadas, usar máscara ao sair de casa e evitar circular pela área até a liberação oficial.
Balanceamento dos custos e futuro da área
A legislação municipal determina que imóveis desocupados em situação de abandono recebam autuação e multa. Caso o responsável não regularize as condições de segurança, a prefeitura pode executar obras emergenciais e cobrar depois. Em situações extremas, é possível decretar utilidade pública e promover desapropriação.
Enquanto a apuração avança, comerciantes e moradores do bairro Santo Antônio temem novos incidentes. A região reúne prédios residenciais, clínicas médicas e escolas, aumentando o impacto caso outro incêndio ocorra em horário de grande circulação.
Registros oficiais da ocorrência
- Data: domingo, 9 de agosto
- Horário do acionamento: 16h15
- Endereço: Avenida Prudente de Morais, esquina com Rua Marabá
- Efetivo: 25 bombeiros e sete viaturas
- Vítimas: uma mulher em estado grave por inalação de fumaça
- Edifícios afetados: prédio abandonado da Oi e residencial vizinho com seis apartamentos
Nos próximos dias, novos laudos devem definir se as famílias poderão retornar e qual será o destino do prédio incendiado. Enquanto isso, a Defesa Civil mantém a área parcialmente isolada, e o Corpo de Bombeiros permanece de prontidão para agir caso surjam novos focos.
