Expedição internacional encontra 31 criaturas possivelmente inéditas nas águas profundas do Ceará

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    Duas semanas em alto-mar renderam um balanço surpreendente aos cientistas que aportaram em Fortaleza: 31 organismos de aparência incomum, coletados entre 200 e 1.000 metros de profundidade, podem representar espécies jamais descritas pela ciência. A bordo do navio-laboratório Falkor, do Schmidt Ocean Institute, o grupo internacional usou câmeras 4K, scanners 3D e um submarino remoto para registrar, capturar e até sequenciar parte do material genético dos animais ainda no meio do oceano.

    As primeiras imagens mostram polvos devorando águas-vivas rubras, lulas de corpo translúcido, “vermes teia-de-fada” ágeis demais para o olhar humano e serpentes marinhas que se locomovem com minúsculos cílios luminosos. Agora, amostras de DNA e análises morfológicas decidirão se o mundo ganhou oficialmente 31 novas espécies ou se trata apenas dos primeiros flagrantes em território brasileiro de seres descritos em outras regiões.

    Missão multinacional vasculha o Atlântico Sul

    Organizada pelo instituto norte-americano, a expedição reuniu pesquisadores dos Estados Unidos, Austrália, Japão, Índia e Brasil. Renato Mitsuo Nagata, do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), integrou a equipe – apenas dois brasileiros estavam a bordo. O objetivo principal era mapear a biodiversidade da zona mesopelágica do Atlântico Sul, área ainda pouco estudada, mas considerada crucial para o equilíbrio climático por abrigar extensos estoques de carbono biológico.

    O Falkor é comparado pelos próprios pesquisadores a uma “Ferrari” dos navios de pesquisa: laboratórios completos, internet de alta velocidade via satélite e um convés configurado para operar simultaneamente robôs subaquáticos, drones aéreos e tanques de experimentação. O cronograma atual do instituto concentra esforços no litoral de Brasil, Uruguai e Argentina; novas saídas estão previstas para o ano que vem, e o time que explorou o Ceará já foi convidado a voltar.

    Vida escondida na camada mesopelágica

    O trecho vasculhado fica abaixo da zona iluminada, onde a fotossíntese deixa de ser viável, mas acima do leito oceânico. Entre 200 m e 1.000 m de profundidade, a temperatura beira o congelamento e a pressão pode chegar a cem vezes a sentida na superfície. “Se um ser humano caísse ali, o corpo pararia instantaneamente”, resume Nagata.

    Lista preliminar dos achados

    • Nove medusas de formatos e colorações inéditos na costa brasileira;
    • Sete sifonóforos, organismos coloniais aparentados a medusas e corais;
    • Sete ctenóforos, famosos pelos feixes de cílios que refletem arco-íris sob luz;
    • Quatro larváceos, parecidos com girinos que vivem em cápsulas de muco;
    • Dois rizários gigantes, organismos unicelulares visíveis a olho nu;
    • Um anfípode de carapaça semelhante à de lagostas em miniatura;
    • Um “verme teia-de-fada” cuja velocidade surpreendeu os próprios taxonomistas.

    Além da variedade, chama a atenção o tamanho de alguns exemplares. Certos ctenóforos ultrapassam os 30 cm de diâmetro, enquanto sifonóforos se estendem por vários metros, formando colônias que lembram delicados colares de contas luminosas.

    Tecnologia embarcada quebra barreiras

    Para vencer escuridão, pressão e fragilidade dos corpos gelatinosos, a equipe recorreu ao ROV Subastian, um veículo não tripulado com braços robóticos de toque suave, sensores de movimento da água e câmeras de cinema. O robô capturava imagens em 4K e, simultaneamente, emitia lasers que varriam a superfície do animal, gerando modelos tridimensionais detalhados.

    Ferramentas de ponta

    1. EyeRIS: sistema de lentes desenvolvido pelo MBARI que cria reconstruções 3D de altíssima precisão.
    2. DeePIV: laser de rastreamento que mostra como a água circula ao redor do corpo, ajudando a entender a locomoção.
    3. Câmeras super slow motion: gravam mil quadros por segundo, revelando cada batida de cílio.
    4. Oxford Nanopore: plataforma portátil que permite sequenciar longos trechos de DNA em poucas horas.
    5. Câmaras de baixa temperatura: mantêm os animais vivos e reconstituem a química das águas profundas para testes de fisiologia e visão.

    Graças a esse arsenal, os cientistas puderam observar comportamento alimentar – como o polvo que engole a água-viva –, registrar cores que desaparecem quando o animal chega à superfície e coletar amostras de tecido sem destruir o organismo, algo crucial para espécies raras.

    Por que descobrir novas espécies ainda importa

    A despeito de séculos de navegação, estima-se que mais de 80% do fundo oceânico siga inexplorado. Cada nova espécie pode carregar enzimas capazes de revolucionar a biotecnologia, pistas sobre adaptação a ambientes extremos e dados para calibrar modelos de sequestro de carbono. No caso dos organismos gelatinosos, entender como eles flutuam consumindo pouca energia inspira desde design de robôs submersíveis até pesquisas sobre materiais ultraleves.

    Há também um componente de conservação: sem saber que um animal existe, é impossível protegê-lo. A zona mesopelágica começa a ser alvo de consórcios interessados em mineração de nódulos metálicos e em pesca de recursos proteicos profundos. Mapear a biodiversidade regional cria argumento científico para regulamentações e áreas marinhas protegidas.

    Próximos passos: da coleta ao artigo científico

    Confirmar oficialmente uma nova espécie exige caminho longo. Primeiro, o barcode de DNA obtido no navio será comparado a bancos de dados globais. Depois, taxonomistas constroem descrições morfológicas minuciosas, incluindo medidas, número de tentáculos, disposição de placas calcárias ou padrões de pigmentação. Só então o nome científico é proposto em artigo revisado por pares.

    Esse processo costuma levar anos, mas alguns atalhos tecnológicos encurtam prazos. “Hoje podemos sequenciar genomas completos em três ou quatro dias, algo impensável vinte anos atrás”, destaca Nagata. Mesmo assim, há espécies cujos tecidos não resistem bem fora d’água, o que exige repetir coletas em expedições futuras para obter material fresco.

    Enquanto as publicações não saem, o Schmidt Ocean Institute disponibiliza vídeos e dados brutos em repositório aberto, fomentando colaborações mundo afora. Do lado brasileiro, a FURG articula seminários para apresentar resultados a universidades e discutir a criação de projetos de monitoramento contínuo na área explorada.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.