Aos 77, Zé Ramalho reúne gerações e festeja 50 anos de carreira no João Rock 2026

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    Nem as atrações mais jovens do João Rock 2026 conseguiram ofuscar a comoção provocada por Zé Ramalho na noite de sábado (1º), em Ribeirão Preto (SP). Diante de um palco lotado e visivelmente emocionado, o paraibano de 77 anos transformou seus 50 anos de estrada em um espetáculo enxuto, conduzido por poucos instrumentos, mas repleto de momentos simbólicos que resumem meio século de poesia convertida em canções.

    Em pouco mais de uma hora, o cantor mostrou por que permanece atual: fez o público alternar silêncio reverente e coro uníssono, variando entre o tom quase místico de “Avôhai” e a explosão coletiva provocada por “Chão de Giz”. O set list costurou épocas, levou fãs a ligar a lanterna do celular em baladas românticas e ainda criou clima de carnaval fora de época com “Frevo Mulher”.

    Repertório que atravessa décadas

    Acompanhado apenas de sax, teclado, baixo e bateria, Zé Ramalho subiu ao principal palco do festival bradando que aquele era “o festival da alegria, da amizade e do fervor”. Entre as primeiras faixas, “Kriptônia” (1983) e “Beira-Mar” (1979) mostraram a disposição do artista em passear pelos primeiros discos sem parecer datado. O violão em Mi maior que anunciou “Táxi Lunar” foi recebido com euforia, reunindo de adolescentes a veteranos que viram o paraibano despontar ainda nos anos 1970.

    Quando o músico emendou “Entre a Serpente e a Estrela”, tema da novela Pedra sobre Pedra (1992), os celulares acenderam em massa e formaram um mar de luzes. O auge da comoção viria logo depois, com “Eternas Ondas” (1981) e a sequência quase litúrgica de “Avôhai”, cuja letra escrita em 1976 segue despertando debates sobre seu significado. Metade da plateia gravava, a outra metade parecia em transe, entoando a expressão “velho indivisível” como um mantra coletivo.

    Clássicos que não podiam faltar

    • “Vila do Sossego”, conhecida também na voz de Cássia Eller, arrancou um coro afinado e aplausos prolongados.
    • “Chão de Giz” transformou o gramado em um grande karaokê, com acompanhamento espontâneo de percussão nas palmas do público.
    • “Vida de Gado” (popularizada pelo refrão “ê, vida de gado”) fez até quem estava apenas de passagem parar para cantar.

    Ao perceber o engajamento, o artista acelerou levemente “Frevo Mulher”, imprimindo um ritmo de baile carnavalesco que deslocou o festival de rock para as ladeiras de Olinda por alguns minutos. A gravação em vídeo tornava-se quase obrigação naquele ponto do show, tamanho era o entusiasmo de quem pulava, cantava e filmava ao mesmo tempo.

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    Despedida com surpresa

    Após apresentar a banda e agradecer ao público paulista, Zé Ramalho parecia pronto para encerrar quando sacou um trunfo inesperado: “Sinônimos”. A composição lançada por ele nos anos 1990 ganhou enorme popularidade na voz de Chitãozinho & Xororó e, ao ser tocada ali, serviu de elo entre o forró eletrônico, o sertanejo dos anos 2000 e o folk nordestino que sustenta a obra do paraibano. O bis não veio, mas foi pedido em coro, prova de que o artista poderia ter se estendido sem perder fôlego da plateia.

    Show “orgânico” em meio a superproduções

    O contraste entre a estrutura minimalista de luz e vídeo de Zé Ramalho e os telões grandiosos utilizados por outras atrações chamou atenção. No palco João Rock, bastaram projeções estáticas, o violão marcado em cordas de aço e a voz rouca característica para manter a audiência conectada. O sax pontuava solos curtos, o teclado sustentava camadas harmônicas discretas, e a cozinha formada por baixo e bateria prendia a atenção na cadência nordestina típica do artista.

    Produtores do festival estimam que cerca de 40 mil pessoas tenham assistido ao show completo, número que confirma o magnetismo do cantor após cinco décadas de lançamentos. Não houve efeitos pirotécnicos, dançarinos ou trocas de figurino: a narrativa foi toda construída na combinação de melodia, letra e lembranças coletivas evocadas por cada acorde.

    Gerações lado a lado

    Em meio à programação dominada por bandas emergentes do rock nacional, a maioria com integrantes abaixo dos 30 anos, a presença de Zé Ramalho funcionou como ponto de convergência etária. Pais, filhos e até avós dividiam espaço no gramado, alguns usando camisetas com a estampa do álbum “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu” (1979), outros carregando bandeiras do arco-íris em referência à mística presente na obra do cantor.

    A publicitária Juliana Souza, 29, resumiu a sensação generalizada: “Eu vim para ver as bandas novas, mas saí encantada com a potência que ele ainda tem no palco. É como assistir à história da música brasileira viva, sem precisar de grandes artifícios”. Ao lado dela, o engenheiro Sérgio Ramalho, 62, que não tem parentesco com o artista, completou: “Ouvir ‘Avôhai’ ao vivo depois de tanto tempo é renascer. Trouxe meu neto de 15 anos para entender de onde surgiu tudo isso que ele ouve hoje”.

    Meio século traduzido em uma hora

    Para celebrar oficialmente as cinco décadas de carreira, Zé Ramalho preparou uma turnê que já passou por capitais do Nordeste e ainda deve percorrer outras regiões do país. A parada em Ribeirão Preto foi a primeira em um grande festival este ano, oportunidade que reforçou a relevância de seu legado entre nomes contemporâneos. Se em 1976 ele se lançava como cronista da alma sertaneja, em 2026 mostra-se também cronista de memórias urbanas, mantendo intacto o olhar crítico e a linguagem metafórica que o consagraram.

    Ao final, ficou a impressão de que a celebração dos 50 anos era menos sobre olhar para trás e mais sobre a vitalidade de um repertório que segue ganhando novos significados. Quem saiu do Parque Permanente de Exposições, local do João Rock, levou para casa a certeza de ter participado de um capítulo especial da história da MPB – escrito por um artista que, do alto dos seus 77 anos, ainda plantou a semente para mais futuras colheitas musicais.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.