O governador Elmano de Freitas (PT) entrou oficialmente na disputa pela reeleição no Ceará, mas a chapa encabeçada por ele saiu da convenção partidária com uma lacuna relevante: a segunda candidatura ao Senado permanece em aberto. Enquanto o ex-governador Cid Gomes (PSB) foi sacramentado como um dos nomes para a Casa Alta, dirigentes petistas e aliados evitaram revelar quem ocupará a outra vaga, gerando expectativa e barganha entre os partidos que integram ou negociam a coligação.
O impasse foi escancarado diante de milhares de militantes no Centro de Eventos, em Fortaleza, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou a composição parcial, mas admitiu que “ainda falta tornar visível” o segundo postulante ao Senado. Nos bastidores, o espaço é disputado por legendas interessadas em ampliar participação no futuro governo, entre elas a Rede, que defende a deputada federal Luizianne Lins, cujo nome apareceu em cartazes erguidos por apoiadores durante o ato.
Chapa majoritária ganha forma, mas não fecha
Além de Elmano, a convenção homologou a atual vice-prefeita de Fortaleza, Gabriella Aguiar (PSD), como companheira de chapa para o cargo de vice-governadora. A escolha consolida a aliança entre PT e PSD, considerada estratégica para alcançar o interior cearense – área de influência da família Aguiar. Já a presença de Cid Gomes, filiado ao PSB, atende a um arranjo costurado diretamente pelo Palácio do Planalto, que vê no ex-governador um articulador capaz de fortalecer a base governista no Senado, onde o Executivo enfrenta resistência a projetos de interesse nacional.
Apesar de avanços, a estratégia de deixar uma vaga ao Senado em aberto não se resume a indecisão. Dirigentes afirmam que a manobra permite prolongar conversas com siglas que ainda balançam entre apoiar Elmano ou lançar nomes próprios. Esse período de “janela” também pressiona grupos internos do PT que desejam influenciar a composição final. A definição, prometem, sairá “nos próximos dias”, mas sem descartar surpresas de última hora.
Presidente Lula reforça palanque e critica Senado “apodrecido”
Convidado de honra, Lula subiu ao palco para referendar a recondução de Elmano e destacar investimentos federais no estado, como obras de mobilidade e programas sociais. Em tom de campanha, atacou a configuração atual do Senado, que classificou como “metade apodrecida”, e pediu votação expressiva para a chapa cearense. “Precisamos de senadores comprometidos com o povo. Já temos o Cid; falta aparecer o outro”, afirmou, arrancando aplausos.
A fala presidencial evidencia a preocupação do Planalto com a correlação de forças em Brasília. Duas das três cadeiras cearenses estarão em disputa em 2026. Uma pertence hoje a Eduardo Girão (Novo), que estuda concorrer ao Governo do Estado e, se confirmar, abrirá mão da reeleição. A segunda é ocupada por Cid Gomes, que tenta novo mandato de oito anos após rompimento político com o irmão, o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), também pré-candidato ao Executivo local.
Cid em lado oposto a Ciro
A presença de Cid no palanque de Elmano formaliza a divisão no clã Ferreira Gomes. Enquanto o senador se aproxima do PT e de Lula, Ciro articula bloco oposicionista para tentar retomar o comando do Palácio da Abolição. A cisão deve polarizar o debate estadual e colocou os irmãos em lados distintos de um mesmo tabuleiro pela primeira vez em décadas.
Luizianne Lins desponta entre os cotados
Embora nenhuma sigla admita candidatura fechada, o nome de Luizianne Lins, ex-prefeita de Fortaleza, ganhou força durante a convenção. Filiada à Rede, mas historicamente ligada ao PT, ela tem base popular consolidada na capital e poderia ampliar a votação da chapa no segmento progressista. A deputada, contudo, não comentou publicamente a possibilidade. Interlocutores dizem que aceitaria se houver “garantia de autonomia” para conduzir pautas de gênero e direitos humanos.
Outras opções circulam nos bastidores, como representantes do MDB e do PP, partidos com bancadas robustas na Assembleia Legislativa. O objetivo seria atrair tempo de televisão e estrutura de campanha. Há ainda quem defenda um nome sem mandato eletivo, para reduzir atritos entre deputados federais que buscarão reeleição simultaneamente.

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Calendário e prazos
Os partidos têm até o fim da primeira quinzena de agosto para registrar coligações e chapas completas no Tribunal Regional Eleitoral. Após essa data, qualquer alteração demandará aval da Justiça Eleitoral. Por isso, líderes partidários se reúnem quase diariamente na tentativa de alcançar consenso. A indefinição prolongada acende alerta em aliados que veem risco de desgaste junto ao eleitorado caso o vazio permaneça até o limite legal.
Motivações para deixar vaga em aberto
- Negociação de apoio: ao oferecer um posto majoritário, Elmano aumenta poder de barganha com legendas ainda volúveis.
- Equilíbrio regional: a escolha poderá contemplar região do estado ainda sem representação na chapa, ampliando capilaridade.
- Diversidade de gênero: dirigente do PT admite preferência por viabilizar candidatura feminina, caso Luizianne ou outro nome aceite.
- Congresso fortalecido: Planalto quer senadores alinhados para aprovar projetos estratégicos; vaga ajuda a calibrar composição política.
Perfil dos já confirmados
Elmano de Freitas
Aos 56 anos, o advogado natural de Baturité foi eleito governador em 2022 após dois mandatos como deputado estadual. Durante a gestão, priorizou programas de redução da pobreza e ampliação da rede de saúde regional. No discurso, prometeu acelerar obras de infraestrutura hídrica e reforçar o ensino técnico.
Gabriella Aguiar
Vice-prefeita de Fortaleza desde 2020, Gabriella, 37, é formada em administração pública e tem atuação voltada a políticas urbanas e de inovação. Sua escolha equilibra a chapa com presença feminina e agrega apoio do PSD, partido do ex-senador Domingos Neto.
Cid Gomes
Ex-governador (2007-2014) e senador desde 2019, Cid procura novo mandato após protagonizar divergências internas no PDT, o que resultou em sua migração para o PSB. Como aliado direto de Lula, deve concentrar esforços em obter recursos federais para obras no Nordeste.
Peso eleitoral do Senado para o Ceará
Com 45% do eleitorado concentrado na Região Metropolitana de Fortaleza, o estado costuma eleger senadores que dialogam tanto com o agronegócio quanto com pautas sociais. Em 2022, a votação de Camilo Santana (PT) para o Senado superou a marca de 3,4 milhões de votos, sinalizando força do grupo hoje no poder. Para 2026, analistas apontam que a chapa governista precisará repetir desempenho expressivo, já que adversários tendem a criar palanques competitivos, especialmente se Girão confirmar migração para a disputa ao governo.
Próximos passos
A partir da convenção, Elmano intensificará viagens pelo interior para inaugurar obras e apresentar propostas. Paralelamente, o comitê jurídico da coligação avalia possíveis contestações à elegibilidade de adversários, prática recorrente no período pré-eleitoral. O anúncio do segundo candidato ao Senado, contudo, é visto como peça-chave para destravar doações e formalizar comitês regionais, razão pela qual líderes admitem resolver o enigma “o quanto antes”.
Até lá, o suspense dá fôlego extra às articulações e alimenta a narrativa de unidade em construção, fator explorado por Elmano para comparar sua base plural ao que chama de “alianças de ocasião” dos rivais. Se a aposta surtir efeito, o governador encara a campanha com a robustez de três siglas de médio porte adicionais na coligação; caso contrário, entra no pleito ciente de que a vaga vazia poderá se converter em brecha para ataques oposicionistas.
