O cerco ao caixa do Comando Vermelho se fechou nesta semana com a deflagração da Operação Replay, que apreendeu bens avaliados em R$ 38 milhões e cumpriu ordens de prisão em Mato Grosso, Santa Catarina e Rio de Janeiro. O alvo principal é o grupo que, segundo a Polícia Civil, continuava movimentando grandes somas mesmo após a prisão do tesoureiro da facção, Paulo Witer Farias Paelo, o “W.T.”, em 2024.
Coordenada pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), a ofensiva alcançou 15 suspeitos responsáveis por lavar dinheiro, camuflar patrimônio e manter a engrenagem financeira do CV funcionando de dentro e fora dos presídios. Até o fim da tarde de sexta (31), parte dos investigados já estava atrás das grades, enquanto outros permaneciam procurados.
Estrutura financeira na mira
De acordo com a Draco, a facção descentralizou tarefas para reduzir riscos. Mesmo recolhido na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, “W.T.” teria seguido enviando ordens por meio de aparelhos celulares ilegais para comparsas em liberdade, orientando sobre compra de imóveis, aquisição de veículos de luxo e circulação de valores em contas de laranjas.
As investigações apontam que o esquema era sustentado por um time de confiança, cada qual com papel definido: operadores externos, responsáveis por transações bancárias; advogados, encarregados de dar aparência lícita a bens; familiares, que atuavam como procuradores; e esportistas amadores, usados como fachada para justificar renda.
Quem são os 15 alvos
- Paulo Witer Farias Paelo – “W.T.” (tesoureiro da organização)
- Emerson Ferreira Lima – “Gordão” ou “GD”
- Alex Júnior Santos de Alencar – “Soldado”
- Wellen de Amorim Gomes
- Aldemir de Assis Campos – “Tucão”
- Giselly Breier Streck
- Katani Adorno Bocardi (esposa de “Gordão”)
- Thawany Nunes Silva de Bulhões (companheira de “W.T.”)
- Dayane Karol Moreira da Silva (advogada)
- Jhonatan Alves Ventura
- Brunno Passos da Silva – “Brunninho”
- Paulo Vinicius Gabriel de Araújo
- Wires Alves Guerra
- Nagilda Cândida Ferreira Lima
- Fernando Wagner Moraes Amorim
Papéis detalhados pela investigação
“W.T.” – Ainda preso, é apontado como o comandante do setor financeiro. Usava celulares clandestinos para autorizar investimentos e ordenar depósitos.
Katani Adorno Bocardi – Capturada no Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, logo após chegar de Paris. Segundo a Draco, era peça-chave na movimentação de recursos e atuava em parceria direta com “W.T.”.
Dayane Karol Moreira da Silva – Advogada suspeita de regularizar escrituras e documentos de imóveis em nome de terceiros, dando verniz legal ao patrimônio.
Alex Júnior Santos de Alencar (“Soldado”) – Jogador de futebol amador, considerado um dos principais operadores externos do tesoureiro.
Brunno Passos da Silva (“Brunninho”) – Outro atleta amador investigado por executar ordens financeiras, inclusive pagamento de fornecedores do grupo criminoso.
Prisões, voos internacionais e monitoramento
A detenção de Katani Bocardi chamou atenção pela logística. A Polícia Federal passou a segui-la ainda no desembarque em São Paulo depois de uma viagem de turismo à Europa. Ao posar em solo mato-grossense, agentes da Draco deram voz de prisão, cumprindo mandado expedido pela Justiça Estadual. O marido dela, Emerson “Gordão”, fora capturado um dia antes.
Para a polícia, o casal mantinha contas de fachada que recebiam depósitos fracionados, estratégia voltada a escapar dos sistemas de alerta do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Parte do dinheiro era aplicada em imóveis de alto padrão no litoral catarinense, disfarçados em nome de laranjas.

Imagem: esqua de lavag de dinheiro é presa
Como a facção driblava o sistema bancário
- Depósitos de pequeno valor em diversas contas, evitando informar origem.
- Compra de carros de luxo pagos à vista e revendidos rapidamente, gerando notas fiscais limpas.
- Aquisição de casas de veraneio registradas em nome de parentes ou terceiros.
- Uso de contratos fictícios de patrocínio esportivo para justificar entrada de capital.
- Emissão de procurações para advogados regularizarem a papelada em cartórios.
Bens bloqueados chegam a R$ 38 milhões
Por decisão judicial, cerca de R$ 20 milhões em imóveis e veículos de luxo foram sequestrados, entre eles mansões em Balneário Camboriú e apartamentos em condomínios fechados de Cuiabá. Outros R$ 18 milhões em contas bancárias, aplicações financeiras e criptomoedas passaram a ficar indisponíveis, totalizando R$ 38 milhões fora do alcance da facção.
Investigadores afirmam que o bloqueio foi calculado para atingir o “coração” da organização: a reserva de caixa usada tanto para pagar a defesa de integrantes quanto para financiar novas remessas de droga.
Efeito dominó nas finanças do CV
Especialistas no combate ao crime organizado avaliam que ações focadas no patrimônio enfraquecem a capacidade de recrutamento da facção. Sem dinheiro fácil para sustentar detentos e familiares, cresce a resistência interna, e o poder de barganha do bando diminui. A Draco pretende agora rastrear eventuais novos caminhos de lavagem de dinheiro que possam ter surgido após o bloqueio.
Das arquibancadas às celas: origem da Operação Replay
A ofensiva desta semana nasceu como desdobramento de três investigações anteriores — Apito Final, Fair Play e Tempo Extra —, todas voltadas a fraudes em campeonatos amadores de futebol e apostas ilegais. Em cada fase, a Polícia Civil se deparou com indícios de que lucros de eventos esportivos financiavam o Comando Vermelho.
Com o avanço das diligências, os investigadores perceberam que a facção tinha muito mais que um esquema de apostas: controlava cadeia completa de lavagem, da geração do dinheiro sujo até a conversão em ativos formais. A partir daí, nasceu a Operação Replay, nome escolhido para simbolizar a revisão, em câmera lenta, dos passos financeiros do grupo.
Próximos passos da investigação
Os delegados responsáveis, porém, evitam detalhar quais novos mandados podem ser expedidos. Há suspeita de que empresas de fachada ainda não identificadas sigam ativas, bem como contas em plataformas digitais no exterior. O compartilhamento de dados com a Receita Federal e o Banco Central deve ampliar a malha fina sobre transações suspeitas.
A defesa dos investigados foi procurada, mas não se manifestou até o fechamento desta edição. A Draco afirma que o inquérito corre sob sigilo para não comprometer diligências ainda em andamento.
