Brasil caminha para novo recorde de tornados e especialistas explicam por que o fenômeno é tão comum no país

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    O funil de vento que devastou Giruá, no noroeste gaúcho, na última terça-feira (28) pode ser apenas o prenúncio de um ano histórico. Até julho, o Brasil contabilizava 81 tornados em 2026, número muito próximo do recorde anual de 92 fenômenos registrado em 2025. A tendência, segundo meteorologistas, é de que a temporada atinja seu ápice entre o fim do inverno e a primavera, justamente quando um El Niño forte deixa a atmosfera ainda mais favorável a tempestades severas na Região Sul.

    A combinação de ar quente e úmido vindo da Amazônia com frentes frias procedentes da Patagônia torna o país, especialmente o Sul, o segundo território do mundo com maior incidência de tornados, atrás apenas dos Estados Unidos. O dado, frequentemente corroborado por pesquisas acadêmicas e pelos levantamentos da Plataforma de Registro e Observadores de Tempestades Severas (Prevots), chama atenção para a necessidade de monitoramento permanente e estratégias de redução de risco.

    Como se forma um tornado

    Tornados nascem dentro de tempestades de grande porte, muitas vezes do tipo supercélula — nuvens que giram em torno do próprio eixo. O processo começa com correntes ascendentes muito fortes. Quando o vento muda de direção e velocidade nos primeiros mil metros de altitude, cria um cilindro de ar giratório na horizontal. Esse tubo, ao ser “puxado” para cima pelos correntes internas da nuvem, inclina-se, fica vertical e passa a rodar cada vez mais rápido, formando o característico funil.

    Quando o vórtice encosta no solo, o tornado está configurado e pode gerar rajadas equivalentes a 300 km/h, como as estimadas em Giruá. Mesmo de curta duração, esses ventos concentram energia suficiente para destelhar casas, partir torres de transmissão e atirar veículos a dezenas de metros.

    Por que o oeste do Sul concentra a maioria dos casos

    A área mais favorável à formação de tornados no Brasil compreende o oeste do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, estendendo-se ao sul do Mato Grosso do Sul. O principal “combustível” é o chamado jato de baixos níveis: um corredor de ar quente e úmido da Amazônia que flui a cerca de 1 500 m de altitude. Quando esse jato encontra o ar frio que avança pelo interior da Argentina e do Uruguai, o contraste térmico intensifica a velocidade dos ventos em camadas superiores, ingrediente essencial para criar tempestades rotativas.

    Relevo também favorece instabilidade

    A topografia da região, marcada por vales e planaltos, canaliza o fluxo atmosférico e potencializa os movimentos ascendentes dentro das nuvens. Como resultado, a fronteira sudoeste do país registra a maior frequência de tornados intensos em toda a América do Sul.

    Registros aumentam: fenômeno novo ou mais bem observado?

    Nos últimos anos, a quantidade de eventos catalogados subiu de forma expressiva. Especialistas atribuem parte desse crescimento à popularização de celulares com câmera, que permitem flagrar funis que antes passavam despercebidos. Além disso, a população está mais espalhada e conectada, ampliando o número de testemunhas.

    Para Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), não há evidências de que o número absoluto de tornados tenha disparado; o que existe é um salto na documentação. Já Francisco de Assis Diniz, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), defende que a intensificação das ondas de calor e dos temporais — reflexo de um planeta mais quente — também contribui para multiplicar esses fenômenos.

    Mudanças climáticas entram no debate

    Ernani de Lima Nascimento, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e voluntário da Prevots, vê um cenário híbrido: mais câmeras e, simultaneamente, um deslocamento do contraste de massas de ar para latitudes mais ao sul, efeito esperado do aquecimento global. Esse choque térmico reforçado favorece o aparecimento de nuvens com rotação e, consequentemente, de tornados.

    Desafios para prever e alertar

    Prever onde e quando um tornado tocará o chão ainda é impossível com grande antecedência. Modelos numéricos indicam, com horas de margem, apenas que haverá condições propícias à formação de tempestades perigosas em determinada área. O alerta específico costuma vir quando o radar identifica uma supercélula já desenvolvida, o que concede, no máximo, 15 a 30 minutos para que as cidades no trajeto emitam sirenes e orientem a população.

    A lacuna de infraestrutura complica o trabalho. Radares meteorológicos de tecnologia Doppler, capazes de detectar rotação interna em nuvens, são escassos fora das capitais. Além disso, falta um banco de dados continental padronizado que integre as ocorrências e permita análises históricas mais robustas.

    Expectativa para o restante de 2026

    O aquecimento anômalo do Pacífico característico do El Niño costuma elevar a frequência de tempestades severas no Sul do Brasil. Com a fase mais crítica prevista entre o fim de agosto e novembro, meteorologistas já anunciam vigilância redobrada. Uma frente fria de forte intensidade é aguardada para o início de agosto, aumentando o risco de vendavais e novos tornados na faixa que vai do norte argentino ao oeste paranaense.

    Com 81 ocorrências confirmadas antes mesmo da primavera, dificilmente o recorde de 2025 permanecerá de pé. A previsão é sustentada pelos dados da Prevots, que reúne relatos de meteorologistas voluntários desde 2018. A plataforma inclui também episódios de granizo, rajadas extremas e chuva volumosa.

    Impactos sociais e econômicos

    O tornado de Giruá feriu quatro pessoas e danificou dezenas de residências em três municípios gaúchos. Situações semelhantes têm se repetido: em novembro de 2025, Rio Bonito do Iguaçu (PR) contabilizou 750 feridos após a passagem de um vórtice que destruiu escolas, postos de saúde e linhas de energia. Os prejuízos em infraestrutura, agricultura e serviços públicos reforçam a urgência de planos de contingência municipais.

    O que pode ser feito

    • Ampliar a rede de radares meteorológicos, priorizando áreas rurais do Sul e Centro-Oeste.
    • Capacitar defesas civis locais para interpretar rapidamente sinais de tempestades rotativas.
    • Incorporar sistemas de alerta por SMS e aplicativos que utilizem geolocalização.
    • Estimular pesquisas sobre climatologia de tornados em universidades e órgãos federais.
    • Investir em construção de abrigos e protocolos de evacuação em escolas e indústrias.

    A intensificação de episódios extremos exige integração entre academia, poder público e comunidade. Embora o fenômeno seja inevitável, o impacto pode ser mitigado com ciência, planejamento e informação de qualidade.

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    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.