Quatro participantes de um acampamento católico morreram e um quinto segue internado depois de receberem descarga elétrica durante a montagem da área de alojamento, em um sítio na zona rural de Itupiranga, sudeste do Pará. As vítimas – todas ligadas à Diocese de Marabá – preparavam o II Acampamento Espírito Empreendedor Juvenil quando a armação de metal tocou cabos de alta tensão, provocando o choque fatal.
O acidente gerou comoção entre fiéis e moradores da região; missas de corpo presente e velórios reuniram centenas de pessoas em Marabá, cidade natal dos campistas. A Polícia Civil instaurou inquérito e aguarda laudos periciais prometidos para até dez dias, prazo que deve indicar se houve falha humana, técnica ou responsabilidade criminal.
Como o acidente aconteceu
Segundo relatos colhidos pelos investigadores, a equipe de voluntários erguia uma grande barraca para acomodar participantes quando parte da estrutura metálica foi levantada acima da copa das árvores e encostou em fios da concessionária de energia. O sítio fica na vicinal 14, às margens da rodovia BR-230, próximo à Vila Cajazeiras, a cerca de 630 km de Belém.
Não há, até o momento, confirmação sobre aterramento adequado, distância mínima de segurança ou qualquer isolamento no ponto de contato. Informações preliminares indicam que o choque ocorreu de forma instantânea, impossibilitando reação das vítimas que seguravam a viga. Testemunhas afirmam ter ouvido forte estalo e visto faíscas antes de os voluntários caírem desacordados.
Ausência de laudo técnico
Os peritos do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves recolheram fios, a parte da barraca e examinaram o solo. O laudo deverá apontar condições da instalação elétrica, distância dos cabos em relação ao solo e se havia sinalização de risco. Só depois do documento a polícia definirá se indiciará responsáveis pela organização do evento ou pelo fornecimento de energia.
Quem eram as vítimas
- Itokakotyiti Sompré, 17 anos, estudante secundarista e representante indígena em grupos juvenis da diocese;
- Saimon Gomes Lustosa Lopes, 17 anos, músico do ministério de louvor da Catedral Nossa Senhora do Perpétuo Socorro;
- José Markenedes Costa Oliveira, 39 anos, coordenador de projetos sociais ligados à paróquia;
- João Vitor Alves da Silva, 26 anos, universitário de engenharia civil e monitor de acampamentos anteriores.
Todos residiam em Marabá e viajavam regularmente para comunidades do interior em ações pastorais. Eles foram velados em cerimônias separadas, mas com participação conjunta de padres, familiares, amigos e movimentos leigos. O clima, segundo o pároco local, era de “dor profunda, mas também de fé na ressurreição”.
Sobrevivente permanece internado
O quinto envolvido, nome não divulgado a pedido da família, chegou ao hospital em estado grave, com queimaduras elétricas e parada cardiorrespiratória revertida pelos médicos. Na última atualização, encontrava-se consciente, em recuperação em unidade de terapia intensiva, sem previsão de alta. A polícia colheu seu depoimento preliminar, mas detalhamentos só ocorrerão após melhora clínica.
Etapas da investigação
A Delegacia de Itupiranga abriu procedimento por homicídio culposo – quando não há intenção de matar – e lesão corporal. O delegado responsável solicitou:
- Laudo de necropsia de todas as vítimas;
- Perícia na estrutura metálica e na rede elétrica;
- Oitiva de organizadores, proprietários do sítio e equipe de eletricistas da concessionária;
- Verificação de licenças, alvarás e seguro do evento religioso.
Se ficar comprovado que o local não oferecia condições mínimas de segurança ou que houve negligência na distância em relação aos cabos, o inquérito poderá evoluir para indiciamento por homicídio doloso eventual. Caso contrário, a tragédia será tratada como acidente fortuito.
Prazo de dez dias para os laudos
Peritos informaram que devem concluir os documentos em até dez dias corridos. O resultado será encaminhado simultaneamente ao Ministério Público e ao delegado. A promotoria pode solicitar diligências extras, dependendo da consistência das conclusões técnicas.

Imagem: Internet
Reação da comunidade católica
Imediatamente após o anúncio das mortes, a Regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota de pesar, classificando os jovens como “servidores que partiram enquanto sonhavam”. A arte que acompanha o texto retrata as quatro vítimas sendo acolhidas por Jesus e Nossa Senhora de Nazaré, símbolo máximo de devoção na Amazônia.
O II Acampamento Espírito Empreendedor Juvenil, que reuniria cerca de 150 participantes a partir desta sexta-feira, foi cancelado. Grupos de oração e vigílias substituíram a programação original. Em declaração emocionada, o pároco da catedral afirmou: “Sentimo-nos com corações estraçalhados; perdemos líderes entusiasmados e evangelizadores natos”.
Mobilização solidária
Movimentos de jovens católicos de outras dioceses do Pará, do Tocantins e do Maranhão enviaram mensagens de condolências. Redes de doadores organizaram coleta de sangue para repor o estoque utilizado no atendimento ao sobrevivente. Paróquias também se comprometeram a subsidiar custos com psicólogos para familiares.
Questões de segurança em eventos religiosos
Em regiões rurais do Pará, retiros católicos e evangélicos costumam ocorrer em fazendas ou sítios adaptados temporariamente para receber dezenas de pessoas. Nem sempre há vistoria prévia do Corpo de Bombeiros, principalmente quando a duração é inferior a 48 horas. Especialistas em engenharia elétrica lembram que:
- Estruturas metálicas devem manter distância mínima de três metros de redes de média tensão;
- É obrigatório o uso de equipamentos de proteção individual durante montagem;
- Agentes de segurança ou voluntários treinados precisam conduzir a verificação de risco antes de erguer tendas próximas a fiações.
No caso de Itupiranga, ainda não se sabe se houve pedido de inspeção. A corporação informou que só foi acionada após o incidente, quando as vítimas já estavam sem vida no local.
Próximos passos
Enquanto a investigação corre, a Diocese de Marabá articula reunião com autoridades municipais para discutir protocolo de segurança para futuros encontros. A ideia é criar checklist obrigatório que inclua avaliação de engenheiro, comunicado à concessionária de energia e presença de brigada voluntária.
A comunidade, abalada, aguarda respostas. Para familiares, o principal desejo é que a tragédia sirva de alerta e impeça novos acidentes. “Eles estavam ali para servir; que suas mortes não sejam em vão”, disse um dos pais, durante o sepultamento, sob aplausos e cânticos religiosos que ecoaram pelo cemitério municipal de Marabá.
