A empresária Pollyanna Duarte, dona de uma rede de maquiagem em Teresina, viveu duas invasões em menos de uma semana na unidade instalada na Praça Rio Branco, coração comercial da capital. Nas duas ocasiões, ladrões arrancaram equipamentos de ar-condicionado, provocaram avarias na estrutura e deixaram um prejuízo estimado em R$ 20 mil. O episódio gerou uma enxurrada de queixas nas redes sociais de outros comerciantes e reacendeu a discussão sobre a eficiência do policiamento ostensivo na região.
A indignação aumentou depois do furto mais recente, por volta das 21h da última quarta-feira (29). Mesmo contando com vigia particular, a empresária relata que a Polícia Militar levou cerca de duas horas para chegar ao endereço após o chamado. Nesse intervalo, o segurança rendeu um suspeito, mas acabou intimidado por um grupo que apareceu em seguida e conseguiu libertar o detido. “A sensação é de abandono; enquanto trabalhamos para construir, eles agem livres para destruir”, desabafou a comerciante.
Reincidência assusta lojistas e força migração de negócios
O ataque desta semana não foi o primeiro a desestabilizar o empreendimento de Pollyanna. Há poucos meses, ela decidiu encerrar as atividades de uma segunda loja situada na mesma rua do Centro e transferi-la para a Zona Leste, bairro considerado mais seguro e de maior poder aquisitivo. “Fechei porque não aguentava mais as perdas. Agora o problema voltou a bater na porta”, contou à reportagem.
As imagens divulgadas pela empresária mostram portas danificadas, fios expostos e um buraco aberto na parede por onde os criminosos retiraram as condensadoras. Além da substituição dos equipamentos, ela terá de arcar com obras de alvenaria e elétrica. Esse custo extra pesa ainda mais depois do baque financeiro provocado pela pandemia, período em que o comércio de rua no Centro já havia perdido tráfego de clientes para shoppings e vendas on-line.
Relatos em cadeia
- Nos comentários do vídeo publicado pela empresária, comerciantes mencionaram arrombamentos de vitrines, roubos de cabos e até invasões noturnas completas, quando estoques inteiros de confecção foram levados.
- Para evitar novos contratempos, algumas lojas passaram a fechar mais cedo e instalar grades internas, medida que reduz a exposição de produtos, mas também afeta o apelo visual das vitrines.
- Há quem tenha contratado alarmes com monitoramento 24 horas, porém o serviço só é eficaz se houver ação rápida da polícia ou de rondas particulares, algo nem sempre garantido.
Operação policial prende seis suspeitos, mas dúvidas persistem
Na manhã de quinta-feira (30), menos de 24 horas após o segundo furto na loja de Pollyanna, equipes da Polícia Militar localizaram seis homens em uma residência do Centro. No imóvel, foram encontrados um condensador de ar-condicionado inteiro e duas unidades parcialmente desmontadas, além de fiação elétrica. De acordo com a PM, todos os detidos já eram conhecidos por crimes contra o patrimônio na mesma área comercial.
Entre os conduzidos está o proprietário da casa, identificado apenas pelas iniciais A.G.C., apontado como receptador qualificado por intermediar a venda dos aparelhos roubados. O grupo foi levado à Central de Flagrantes e autuado por furto qualificado (concurso de pessoas), receptação qualificada e associação criminosa. A corporação não detalhou se os equipamentos recuperados pertencem ao estabelecimento de Pollyanna ou a outras vítimas recentes.
Nota oficial
Em comunicado, a Polícia Militar do Piauí informou ter reforçado o patrulhamento com viaturas e motocicletas nas vias de maior incidência de ocorrências. A corporação lembrou que, além do telefone 190, cada viatura possui um número de celular embarcado disponível no site institucional para contato direto com as equipes. O texto não menciona prazos ou metas específicas para reduzir os furtos, mas garante monitoramento constante das estatísticas criminais.
Impacto na economia do Centro histórico
O Centro de Teresina concentra parte significativa do comércio popular, serviços bancários e repartições públicas. Entretanto, nos últimos anos, a área perdeu vitalidade após o fechamento de cinemas, a transferência de lojas para bairros periféricos e a expansão de centros de compras em regiões mais valorizadas. A percepção de insegurança contribui para o esvaziamento, criando um ciclo vicioso: menos fluxo de pessoas resulta em ruas desertas à noite, facilitando a ação de criminosos.
Especialistas em desenvolvimento urbano apontam que a revitalização de centros históricos depende de planejamento integrado: iluminação eficaz, câmeras conectadas a centrais em tempo real, policiamento de proximidade, programas sociais e incentivos fiscais para pequenos negócios. Sem essas ferramentas, micro e pequenos empreendedores arcam sozinhos com medidas de segurança que encarecem a operação e reduzem a competitividade.

Imagem: Internet
Testemunho de quem ficou
O comerciante Manoel Ferreira, proprietário de uma relojoaria há 35 anos na Rua 13 de Maio, diz que nunca cogitou mudar de endereço, mas reconhece que a situação piorou: “Antes havia guardas no calçadão o dia inteiro. Hoje vejo uma viatura ou outra passando, mas sem parada fixa. Minha saída foi investir em porta de aço tripla e seguro, que consome quase todo o lucro extra do mês”.
De acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) da capital, a manutenção de comércio tradicional na região central reduz custos de mobilidade para a população de baixa renda e mantém viva a história arquitetônica. A entidade afirma ter protocolado diversos pedidos de patrulhamento específico para horários de abertura e fechamento de lojas, os períodos considerados mais críticos.
Medidas sugeridas por especialistas
Consultores de segurança listam ações consideradas prioritárias para conter a escalada de furtos:
- Integração entre vigilância eletrônica privada e Centro Integrado de Comando da PM, acelerando a resposta ao alarme;
- Reativação de postos fixos da Guarda Municipal em cruzamentos estratégicos;
- Permanência de rondas a pé em horários noturnos, aumentando a sensação de presença do Estado;
- Criação de um banco de dados de receptadores, dificultando a venda de produtos furtados;
- Campanhas educativas direcionadas a catadores de material reciclável, para coibir a compra de fios de cobre sem procedência.
A curto prazo, contudo, lojistas continuam recorrendo a soluções individuais: grades, alarmes, seguros e alteração da rotina de funcionamento. Enquanto não se consolida uma estratégia de segurança pública abrangente, o Centro de Teresina segue vulnerável, tornando cada noite uma incerteza para quem mantém portas abertas.
Reação nas redes
A publicação de Pollyanna já ultrapassava dez mil visualizações até a tarde de sexta-feira. Nos comentários, consumidores manifestaram apoio e lamentaram a possibilidade de mais uma loja abandonar o Centro. Outros relataram episódios semelhantes em paradas de ônibus e estacionamentos. A hashtag #CentroSeguroJá passou a circular entre entidades de classe como forma de pressionar autoridades.
Para quem depende do comércio local, a esperança é que prisões como a da última quinta-feira sejam o início de um esforço permanente, não apenas respostas pontuais a casos que ganham repercussão. Até lá, os comerciantes seguem contabilizando prejuízos e adaptando-se a uma rotina de grades, câmeras e receio constante.
