Um altar de madeira erguido às pressas no meio da estrada que liga Sorocaba a Porto Feliz transformou‐se, ao longo de um século, em um dos símbolos da devoção caipira paulista. A Capela do Bom Jesus da Cana Verde, no quilômetro 10 da Rodovia Emerenciano Prestes de Barros, abre nesta quinta-feira (30) as comemorações de seu centenário, marcado por missas, quermesse e um achado raro: uma pedra d’ara de 1926 contendo relíquias de Santa Celestinha e Santa Vitória.
Guardada por gerações de famílias do bairro Indaiatuba, a pequena igreja nasceu do esquecimento de um tropeiro e sobreviveu graças ao trabalho voluntário de festeiros, capitães de mastro e alferes de bandeira. Agora, com a data redonda, a comunidade quer registrar essa memória em livro, restaurar o acervo e consolidar o espaço como patrimônio religioso da Arquidiocese de Sorocaba.
Origem: um quadro esquecido à beira da estrada
Em 1926 o tropeiro Feliciano Bueno fazia a rota de muares entre Sorocaba e Porto Feliz quando decidiu pernoitar em um rancho coberto de palha. Na pressa de retomar a viagem, deixou para trás a recente aquisição de uma feira: um quadro de 50 cm por 80 cm com a imagem do Bom Jesus da Cana Verde. Distraiu-se em um jogo de cartas, montou no cavalo e seguiu sem notar a ausência do objeto.
Dono das terras, Francisco de Souza Moraes encontrou a tela e a pendurou em um esteio do rancho. Quando Feliciano retornou, sentiu-se constrangido em retirar a peça já transformada em símbolo de devoção local e a ofereceu como presente. O gesto motivou os moradores a organizar rezas todo primeiro domingo do mês, tradição que ganharia força com a criação de cargos ainda mantidos pelos descendentes: o festeiro, responsável pela celebração; o capitão do mastro, que conduz a haste onde a bandeira é içada; e os alferes, encarregados de buscar prendas para o leilão.
Da palha ao alvenaria: três construções em cem anos
O primeiro oratório de pau-a-pique e sapé ergueu-se rapidamente em volta do quadro. Com o aumento do número de fiéis, a estrutura foi reconstruída duas vezes. A primeira reforma priorizou conforto e segurança; a segunda, iniciada nas décadas finais do século XX, ampliou o salão e modernizou a cozinha para atender às quermesses semanais de sábado.
Hoje, a capela acomoda dezenas de famílias que participam de missas celebradas por padres convidados e pelo diácono Pedro Israel Paifer, o “Pedrinho”. Segundo José Aparecido Machado Simões, 74 anos, a oralidade guarda relatos de graças alcançadas desde a fundação. “Estamos trabalhando no registro escrito para que o que aconteceu aqui não se perca”, afirma o aposentado, neto de um dos primeiros festeiros.
Descoberta da pedra d’ara
No processo de organização do acervo para o centenário, voluntários localizaram em uma caixa de madeira, atrás do altar, uma pedra d’ara — bloco marmóreo com cavidade para relíquias destinado à celebração da Eucaristia. No lacre de chumbo foram identificados fragmentos atribuídos a Santa Celestinha e Santa Vitória, além da assinatura do então bispo Diocesano, dom José Carlos Aguirre, datada de 16 de agosto de 1926.
A descoberta reforça a importância histórica do templo, pois indica que, poucas semanas após a oração inaugural, a comunidade já contava com o reconhecimento oficial da Igreja. A pedra será exposta ao público durante os festejos e, em seguida, devolvida ao altar, onde permanecerá lacrada.
Programação do centenário
Festa popular
- Quinta-feira (30) – Missa às 19h30 seguida de barracas de pastel e espetinho.
- Sexta-feira (31) – Missa às 19h30 e, na sequência, bingo beneficente.
- Sábado (1º de agosto) – Celebração às 18h e tradicional leilão de prendas durante a quermesse.
- Domingo (2 de agosto) – Missa solene às 10h, procissão com andor adornado de margaridas, almoço comunitário ao meio-dia e leilão de prendas vivas às 15h.
Novena e dia solene
De 8 a 16 de agosto, sempre às 18h30 nos fins de semana e às 19h30 nos dias úteis, a comunidade realiza a Novena do Centenário sob o tema “Sobre esta Rocha: 100 anos de fé na Comunidade Bom Jesus da Cana Verde”. Sacerdotes de diversas paróquias da região presidirão as celebrações, incentivando a arrecadação de alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade.

Imagem: Internet
O ponto alto ocorre no domingo, 16 de agosto, às 10h, quando o arcebispo metropolitano de Sorocaba, dom José Roberto Fortes Palau, presidirá a Missa Solene. A data coincide exatamente com o dia e o mês da assinatura de dom Aguirre na pedra d’ara, criando um elo simbólico entre a fundação da capela e seu primeiro centenário.
A força dos cargos tradicionais
A manutenção da festa depende de funções transmitidas de pai para filho. O festeiro organiza a parte litúrgica, agenda os padres e reúne voluntários para limpar o espaço. O capitão do mastro percorre sítios próximos em busca de uma árvore adequada para erguê-lo, gesto que representa a ligação entre o céu e a terra. Já os alferes se encarregam de visitar comerciantes e produtores rurais em busca de prendas para o leilão — desde bolos caseiros até bezerros, elemento decisivo para financiar a manutenção da igreja.
“Tudo se faz no mutirão”, relata a agricultora Maria de Lourdes Paifer, 62 anos, alferes há três décadas. “Quando o sino toca anunciando a chegada do capitão, ninguém nega ajuda.” O sistema comunitário garantiu luz elétrica, pintura nova e troca do telhado sem que a capela precisasse recorrer a dinheiro público.
Patrimônio imaterial e futuro
Em paralelo à festa, a Paróquia São Bento protocolou junto ao Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio (CMDP) de Sorocaba um pedido para reconhecer a Capela do Bom Jesus da Cana Verde como bem cultural de natureza imaterial. A intenção é proteger as expressões de fé, música de viola, culinária típica e rituais de levantamento de mastro que caracterizam o evento.
Também está em estudo a criação de um pequeno museu anexo, onde ficarão expostos documentos, fotografias antigas e objetos litúrgicos, incluindo a primeira imagem do Bom Jesus conservada desde 1926. Alunos de escolas municipais participarão de visitas guiadas, aproximando a nova geração da história que se desenvolveu a poucos quilômetros do centro urbano.
Depoimento de fé
Para José Aparecido, o centenário não marca um ponto final, mas sim o início de nova etapa. “Quem chega aqui vê uma capelinha simples, mas por trás dela existe o suor de muita gente. Nossos avós ergueram paredes de barro; nós, agora, precisamos erguer pontes para que a tradição continue viva”, resume.
Enquanto o sino antigo repica convocando fiéis e curiosos, a Capela do Bom Jesus da Cana Verde prova que a devoção, quando sustentada pelo esforço coletivo, atravessa gerações, supera o esquecimento de um tropeiro e transforma um rancho de palha em referência espiritual para todo o interior paulista.
