Capital Moto Week confirma status Lixo Zero e transforma quase todo o lixo do festival em novos recursos

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    Nem só de roncos de motor vive o Capital Moto Week. Ao chegar à reta final da edição deste ano, no Parque Granja do Torto, em Brasília, o maior encontro de motociclistas da América Latina confirma pela quinta vez seguida a certificação Lixo Zero: 91,9% do material que seria aterrado ganhou destino produtivo, seja por reciclagem, compostagem ou reaproveitamento energético.

    O resultado mobiliza 250 trabalhadores de cooperativas, envolve fornecedores em políticas de logística reversa e ajuda a sustentar a meta de compensar todo o carbono gerado pelo evento. Se a conta se mantiver até o encerramento, no sábado (1º), a organização calcula que mais de um milhão de visitantes terão passado por uma verdadeira cidade temporária onde quase nada vira “lixo”.

    Estratégia começa meses antes da primeira moto acelerar

    Planejar a cadeia de resíduos começa muito antes de abrir os portões. A organização mapeia a quantidade estimada de público, o perfil dos expositores e a natureza dos materiais que cada setor costuma descartar. Com esses dados em mãos, define o número de pessoas necessárias para a triagem, pontos de coleta, rotas internas de transporte e destinos finais.

    Materiais problemáticos, como papéis metalizados ou plásticos de difícil reciclagem, são desestimulados logo na contratação de fornecedores. Empresas que trabalham na “Cidade da Moto” recebem um guia de boas práticas ambientais e, se descumprirem as regras, podem pagar multa ou até mesmo perder o credenciamento para as próximas edições.

    Catadores participam da concepção e da operação

    Ao contrário de muitos eventos que contratam cooperativas somente para recolher o que já foi descartado, o Moto Week coloca catadores na elaboração da estratégia. Segundo Juliana Jacinto, CEO do festival, isso garante rastreabilidade dos materiais, melhora a eficiência da separação e fortalece a geração de renda.

    Os 250 cooperados atuam em dois turnos no Galpão 15, onde ocorre a pré-triagem. Ali, plásticos, metais e vidros seguem para centrais de reciclagem; resíduos orgânicos vão para pátios de compostagem; e madeira usada em estruturas provisórias é destinada a indústrias que produzem energia por biomassa. Pneus coletados durante o evento entram em programa de logística reversa coordenado pelos próprios fabricantes.

    Logística interna facilita a separação na origem

    Para o visitante, a parte mais visível da operação são as ilhas de descarte sinalizadas por cores, além dos copos retornáveis que substituem descartáveis comuns. O motorista mineiro Paulo Alexandre, que estreia em grandes festivais, conta que monitores se aproximam para explicar como descartar corretamente, o que torna o processo educativo.

    Na área de camping, a dona de casa Sheila Silva, de Recife, afirma que a experiência reforça hábitos que já mantém em casa: “Separo o lixo nos dias de coleta seletiva e aqui não foi diferente. Ainda vejo que isso gera renda para quem trabalha na triagem”, diz. Essa é justamente a expectativa da organização: que as práticas aprendidas na festa continuem fora dela.

    Da compostagem ao adubo que retorna ao cerrado

    Os alimentos vendidos por cerca de 200 pontos gastronômicos geram grande volume de resíduos orgânicos. Todo o material segue para pátios de compostagem instalados a poucos quilômetros do parque. Após cerca de 90 dias de maturação, o adubo retorna para viveiros do Distrito Federal e projetos de reflorestamento do cerrado, fechando o ciclo da economia circular.

    Já as latas de alumínio, tradicionalmente bem valorizadas no mercado de sucata, têm fluxo ainda mais rápido. Assim que completam a carga de um caminhão, são encaminhadas a fundições que as transformam em bobinas ou novas embalagens, processo que consome apenas 5% da energia necessária para produzir alumínio primário.

    Meta de carbono positivo amplia o alcance ambiental

    Além de gerenciar resíduos, o Capital Moto Week assume o compromisso de neutralizar – e até superar – as emissões de gases de efeito estufa geradas pela montagem, operação e deslocamento do público. O cálculo inclui desde o diesel dos geradores até o combustível das motos que viajam ao Distrito Federal.

    Para compensar a pegada estimada, o festival investe em plantio de árvores nativas e em projetos sociais que reduzem emissões, como sistemas de energia solar em comunidades rurais. Segundo Kadmo Cortês, coordenador do selo Lixo Zero no evento e vice-presidente do Instituto Lixo Zero, a intenção é devolver ao meio ambiente mais do que se retirou, tornando o encontro “carbono positivo”.

    Impacto econômico acompanha o ambiental

    Os organizadores projetam a geração de 17 mil postos de trabalho, entre diretos e indiretos, durante os dez dias de programação. Vendedores de peças e acessórios, profissionais de som, iluminação, segurança, alimentação e limpeza formam um contingente que se beneficia do grande fluxo de visitantes.

    Do lado de dentro, mais de 60 atrações musicais passam por quatro palcos, ampliando a permanência do público e aumentando o consumo nos estandes. Do lado de fora, hotéis e restaurantes de Brasília registram alta nas reservas, em especial nos bairros mais próximos ao Parque Granja do Torto.

    Desafio contínuo: manter a taxa de 92% fora do aterro

    Chegar perto de reciclar ou compostar todo o volume gerado em um festival de um milhão de pessoas exige vigilância constante. A cada edição, novas fontes de resíduo aparecem, seja na decoração dos estandes, no merchandising de marcas ou em embalagens de alimentos que ainda não possuem cadeia de reciclagem estruturada.

    Para 2027, quando a organização planeja alcançar a marca de 95% de desvio do aterro, a prioridade será encontrar soluções para itens de difícil reaproveitamento, como banners vinílicos e filmes de plástico metalizado. Negociações com startups de reciclagem química e parcerias com universidades estão em andamento para desenvolver rotas tecnológicas viáveis.

    Legado que ultrapassa o perímetro do festival

    A experiência acumulada em cinco certificações consecutivas inspira outros eventos de grande porte no país. Modelos de contrato, roteiros de treinamento de equipe e indicadores de desempenho criados para o Moto Week já foram compartilhados com organizadores de carnaval de rua, festivais de música eletrônica e feiras agropecuárias.

    No curto prazo, o maior legado pode ser menos palpável: a percepção de que resíduos são insumos e não problema. Se cada visitante sair do parque consciente desse princípio, o ronco dos escapes ainda será a trilha sonora, mas a aura que fica é a de um festival onde sustentabilidade não é atração paralela — é o próprio show.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.