A Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso (Sinfra-MT) bateu o martelo sobre a solução de engenharia para o trecho mais crítico da MT-251, estrada que liga Cuiabá a Chapada dos Guimarães. O órgão aprovou o anteprojeto de um túnel com 513 metros de extensão no Portão do Inferno, área que sofre há anos com quedas de rochas e interdições frequentes.
Apesar do avanço, as máquinas só poderão entrar em ação depois que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) conceder a licença ambiental. Sem esse aval, o governo não pode publicar o novo edital de licitação — o primeiro, baseado em outro desenho, fracassou por falta de interessados.
Como será o túnel e por que ele foi escolhido
O anteprojeto serve como guia técnico para as próximas etapas e foi selecionado por uma comissão de especialistas que analisou diferentes alternativas apresentadas por empresas de consultoria. A passagem subterrânea foi considerada a solução mais segura e definitiva para eliminar o risco de deslizamentos sobre a pista, problema que se agravou a partir de março de 2024, quando blocos rochosos passaram a se desprender com maior frequência.
Enquanto o estado tem, hoje, autorização apenas para duplicar a rodovia, o túnel representa uma intervenção de maior porte. A proposta prevê dois tubos paralelos — um por sentido de tráfego — com sistemas de ventilação, iluminação e monitoramento 24 h, além de galerias de escape para eventuais emergências.
Diferença em relação ao projeto anterior
Até meados de 2025, o governo trabalhava com a ideia de retaludamento, ou seja, escavar e recuar parte do paredão rochoso. Estimava-se a remoção de cerca de 180 mil metros cúbicos de material. Pesquisadores, ambientalistas e moradores alertaram para possíveis impactos sobre a vegetação, a fauna e a estabilidade geológica. Sondagens feitas durante as obras preliminares revelaram fraturas imprevisíveis na rocha, o que levou o Executivo a abandonar a estratégia e priorizar a construção subterrânea.
Próximos passos burocráticos
A aprovação do anteprojeto foi imediatamente seguida pelo protocolo de um novo pedido de licenciamento junto ao Ibama. Nos últimos meses, o órgão recebeu oito solicitações diferentes referentes ao mesmo trecho, todas arquivadas ou devolvidas por falta de comprovação técnica da viabilidade ambiental. Agora, a Sinfra aposta que o estudo definitivo atende às exigências de segurança hídrica, preservação de cavernas e controle de resíduos.
Com o processo ambiental em análise, o governo elabora um novo edital de concorrência. A expectativa inicial é abrir a disputa “nas próximas semanas”, mas a pasta evita fixar data, justamente para não gerar insegurança jurídica caso o Ibama peça complementações. A empresa que produziu o anteprojeto não tem garantia de executar a obra: pela legislação, a construção deve ser licitada em separado.
Cronograma preliminar
- Junho de 2026 – previsão de resposta do Ibama;
- Até agosto – publicação do edital, se houver licença;
- Último trimestre – assinatura do contrato e início da instalação do canteiro;
- 36 meses – prazo estimado para concluir os dois tubos e obras complementares.
Impacto para motoristas e para a economia local
A MT-251 é a principal porta de entrada para Chapada dos Guimarães, destino turístico que recebe cerca de 800 mil visitantes por ano, segundo a prefeitura local. Cada interdição na estrada, mesmo que parcial, provoca filas de até 20 quilômetros e afeta o escoamento de hortifrutigranjeiros cultivados no planalto. Pela rota também circulam caminhões de minério e de calcário extraídos na região.
Desde março de 2024, a pista opera em esquema de pare-e-siga sempre que equipes precisam remover pedras soltas, o que encarece o frete e espanta turistas em fins de semana prolongados. O governo argumenta que o túnel eliminará a necessidade de contenções temporárias, dará regularidade ao fluxo e reduzirá custos logísticos.
Medidas emergenciais continuam
Até que a solução definitiva saia do papel, permanece em execução um plano emergencial de “varredura” das encostas. Técnicos usam drones para identificar pontos instáveis, detonam dinamites controladas quando necessário e aplicam telas metálicas sobre taludes considerados menos críticos. Essas ações, porém, não são suficientes para garantir a integridade da via em períodos de chuva intensa.
O que dizem governo e especialistas
O governador Mauro Mendes (União) declarou que “o túnel é o único caminho capaz de assegurar a rodovia por décadas” e prometeu buscar recursos federais caso o orçamento estadual se mostre insuficiente. Sem citar valores, afirmou que será “uma das maiores obras rodoviárias em curso no país”.

Imagem: Internet
Geólogos ligados à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) consideram o anteprojeto tecnicamente sólido, mas ponderam que os riscos não se anulam totalmente. “É preciso manter monitoramento geotécnico permanente mesmo depois da entrega”, observa o professor Roberto Oliveira, que participou de debates sobre o antigo retaludamento. Entidades ambientalistas, por sua vez, acompanham o processo de licenciamento para checar se a escavação respeitará corredores de fauna e cursos d’água subterrâneos.
Financiamento em aberto
A Sinfra-MT não divulga custo estimado até que o projeto executivo seja fechado, mas a própria secretaria admite que o investimento superará, e muito, os R$ 90 milhões previstos no plano de escavação dos paredões. A gestão avalia usar parte do Fethab — fundo alimentado pela contribuição do agronegócio — e captar empréstimo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Cenário histórico do Portão do Inferno
O nome do trecho não é gratuito: o paredão de arenito, com quase 300 metros de altura, sofre erosão natural acelerada pelo regime de chuvas do cerrado. A primeira grande intervenção ocorreu nos anos 1980, quando foi instalado um guincho para remover rochas de tamanho médio. Na década seguinte, foram construídos muros de contenção, hoje obsoletos.
Nos últimos 15 anos, estudos apontam aumento de microtremores — pequenos abalos, na maioria das vezes imperceptíveis — associados a variações de temperatura e à extração de calcário em jazidas próximas. Esses movimentos contribuem para a instabilidade do bloco rochoso que ameaça a rodovia.
Reflexos no turismo e na cultura local
Além do papel logístico, o Portão do Inferno é ponto de parada para turistas que buscam mirantes naturais. Com as restrições de trânsito, o fluxo de visitantes diminuiu, prejudicando restaurantes e pousadas instaladas às margens da estrada. A prefeitura de Chapada dos Guimarães calcula uma perda de 15 % na arrecadação de ISS entre 2024 e 2025, atribuída diretamente às interdições.
Próxima temporada de chuvas testará estruturas provisórias
O período mais crítico começa em novembro. Caso o Ibama ainda não tenha concluído a análise, a Sinfra pretende reforçar equipes de prontidão, ampliar a sinalização noturna e instalar sensores capazes de disparar alarmes em caso de deslocamento acima do normal. O governo lembra, porém, que qualquer medida paliativa tem eficácia limitada diante da instabilidade geológica.
Expectativa de moradores
Associações comunitárias cobram transparência no processo de licenciamento e pressionam por audiências públicas adicionais. “Queremos a solução, mas sem atropelar a lei ambiental”, resume a comerciante Luzia Moreira, que mantém um quiosque na entrada da trilha do Véu de Noiva.
Enquanto o impasse ambiental não se resolve, motoristas e moradores continuam divididos entre a urgência de uma obra permanente e o receio de que o túnel repita a novela de atrasos vivida por outros projetos de infraestrutura no estado.
